Guiné-Bissau. PM diz que Simões Pereira continua detido por ordens da Justiça
O primeiro-ministro do governo de transição na Guiné-Bissau afirmou hoje que o opositor Domingos Simões Pereira continua detido por ordens da Justiça e não dos militares autores do golpe de Estado de novembro passado.
A explicação consta de uma nota à imprensa do gabinete do primeiro-ministro guineense divulgada pela comunicação social local que explica que Ilídio Vieira Té fez estas considerações num encontro realizado "esta semana" com uma delegação de veteranos do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).
Simões Pereira é o presidente do histórico partido PAIGC e é considerado o principal líder da oposição ao regime do ex-Presidente Umaro Sissoco Embaló deposto no golpe militar de 26 de novembro de 2025, que interrompeu o processo eleitoral para a escolha de novo Presidente da República e dos deputados à Assembleia Nacional Popular.
O líder e o PAIGC foram afastados das eleições gerais e apoiaram o candidato Fernando Dias, que reclamou vitória antes da divulgação dos resultados oficiais. Fernando Dias estará refugiado na embaixada da Nigéria em Bissau e Simões Pereira detido na Segunda Esquadra de Bissau, desde o dia do golpe de Estado.
"O caso de Domingos Simões Pereira não está, nem esteve sob a alçada militar, encontrando-se exclusivamente sob responsabilidade dos tribunais competentes", disse o primeiro-ministro, de acordo com a nota de imprensa citada nos órgãos de comunicação social locais.
Ilídio Vieira Té acrescentou que o Alto Comando Militar, que tomou o poder no golpe de Estado, ordenou a libertação de "todos os prisioneiros" que se encontravam sob a sua custódia.
Augusto Nasambé, um dos advogados do PAIGC também é dado como detido na Segunda Esquadra de Bissau, segundo fontes do PAIGC, nas redes sociais.
As mesmas fontes têm referido que outros dirigentes da coligação Plataforma Aliança Inclusiva (PAI-Terra Ranka), liderada pelo PAIGC, encontram-se refugiados "por temerem pela sua vida", nomeadamente Agnelo Regala, Muniro Conté e Geraldo Martins.
O político e antigo ministro da Economia e Finanças, Victor Mandinga, da coligação Aliança Patriótico Inclusiva (API -- Cabas Garandi) também é dado como refugiado desde o dia do golpe.
A PAI-Terra Ranka e a API -- Cabas Garandi apoiaram a candidatura independente de Fernando Dias da Costa.
Na audiência com os veteranos do PAIGC, liderados pelo guerrilheiro Manuel "Manecas" dos Santos, o primeiro-ministro guineense apelou à serenidade e alertou sobre o "papel negativo das redes sociais" que, disse, criam divisão no país.
Ilídio Vieira Té manifestou a disponibilidade do Governo "para um diálogo construtivo" que sirva os interesses dos guineenses e prometeu transmitir as preocupações levantadas pelo grupo de veteranos do PAIGC ao Presidente da República de transição, Horta Inta-a.
Citados na nota de imprensa do primeiro-ministro, em nome dos veteranos, Joana Cobdé Nhanca agradeceu a disponibilidade do Governo e sublinhou que a iniciativa foi motivada pelo "dever histórico dos veteranos" em promover o diálogo e evitar a radicalização da juventude.
Manuel "Manecas" Santos afirmou que, embora seja do PAIGC "até à morte", a Guiné-Bissau "está acima de qualquer partido" e que as eleições já têm uma data marcada e as atividades políticas devem retomar num clima de reconciliação.
O Alto Comando Militar marcou novas eleições gerais, legislativas e presidenciais para 06 de dezembro.
Antes, foram proibidas as conferências e declarações públicas não autorizadas, com a justificação de alegadas tentativas de incitação à violência, encontros políticos clandestinos e ameaças a membros do comando.
Uma das primeiras iniciativas legislativas tomadas pelos militares foi a revisão da Constituição, conferindo mais poderes ao Presidente.
A Guiné-Bissau foi suspensa de várias organizações internacionais que pedem a retoma da ordem constitucional e a libertação dos presos políticos, nomeadamente, a União Africana, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa", que substituiu a Guiné-Bissau na presidência rotativa por Timor-Leste.