Guiné-Bissau. Situação política é crítica e eleições carecem de compromissos - sociólogo
O sociólogo guineense Miguel de Barros considerou hoje "muito crítica" a situação política na Guiné-Bissau, alertando que novas eleições podem agravar a crise se não houver respeito pelos resultados e um compromisso dos militares com a democracia.
"A situação é muito crítica. A Guiné-Bissau não produziu instituições consolidadas, quer do ponto de vista político como económico e, ao mesmo tempo, estão reféns das disputas políticas e da influência de instituições com maior peso que são as Forças Armadas", afirmou, aos jornalistas, na cidade da Praia, à margem do lançamento do livro de memórias "De Guerrilheiro a Homem de Estado", do antigo Presidente cabo-verdiano Pedro Pires.
Segundo Miguel de Barros, a ausência de transformação socioeconómica e de uma transição efetiva das Forças Armadas para um contexto de paz, multipartidarismo e democracia faz com que qualquer alteração política, económica ou social que não reflita "uma certa proximidade ou aceitação da classe castrense" acabe por provocar ruturas.
"O que estamos a acompanhar é uma dupla clivagem", afirmou, referindo, por um lado, a inércia na transição do sistema militar e, por outro, o falhanço de um processo de revisão política que tem dificuldades em enquadrar uma nova geração "com outra mentalidade, outra forma de estar", menos identificada com modelos de poder assentes nas estruturas militares.
Embora tenha sublinhado que "não há nada mais certo na democracia do que as eleições", advertiu que "há todo um caminho" a fazer.
O sociólogo questionou que garantias existem de que as próximas eleições não terão o mesmo efeito das realizadas há cerca de três meses, interrogando-se sobre o compromisso das Forças Armadas em respeitar os resultados, a participação de todos os atores políticos, a monitorização do processo e a realização de uma auditoria pública aos acontecimentos do último ano.
"Não se pode dar um passo em frente sem resolver os problemas que estão para trás", concluiu, defendendo a construção de bases para um consenso nacional, no quadro do regime democrático.
O processo eleitoral na Guiné-Bissau foi interrompido por um golpe de Estado, a 26 de novembro de 2025, antes da divulgação dos resultados oficiais das eleições que tinham sido realizadas há três dias.
Os militares tomaram o poder, o Presidente cessante e candidato a um segundo mandato, Umaro Sissoco Embaló, saiu do país e o candidato da oposição, Fernando Dias, refugiou-se na embaixada da Nigéria, de onde saiu a 30 de janeiro, numa ação concertada com a Comunidade Económico dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).
Vários políticos foram presos e, entretanto, libertados, com a exceção de Domingos Simões Pereira, presidente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e considerado o principal opositor do Presidente cessante.
Simões Pereira saiu da cadeia, mas continua em prisão domiciliária, que as autoridades guineenses alegam estar relacionada com questões judiciais.
Os militares mudaram a Constituição, a lei dos partidos políticos e convocaram novas eleições gerais para 06 de dezembro, data que coincide com o fim do período de transição de 12 meses anunciado.
Na sequência do golpe de Estado, a Guiné-Bissau foi suspensa das várias organizações de que é membro, nomeadamente a CEDEAO, União Africana e CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), que reclamam o regresso à normalidade constitucional para levantar a medida.
A CPLP cancelou uma missão de bons ofícios que tinha agendado para de 17 a 21 de fevereiro, depois de uma troca de acusações entre Guiné-Bissau e Timor-Leste, que assumiu, temporariamente, a presidência da organização.