Günter Wallraff quer ler «Versículos Satânicos» numa mesquita de Colónia
O jornalista e escritor alemão Günter Wallraff, que nos anos 80 denunciou as condições de trabalho dos imigrantes turcos, propõe-se fazer uma leitura pública dos "Versículos Satânicos", de Salman Rushdie, numa mesquita de Colónia.
A construção da mesquita nesta cidade está a dividir a população e relançou o debate sobre a integração dos 3,4 milhões de muçulmanos que vivem na Alemanha, entre os quais 1,8 milhões de turcos.
O livro "Versículos Satânicos" de Salman Rushdie, foi declarado "blasfemo" pelo ayatollah Khomeiny, no Irão, que em 1989 condenou o autor à morte e apelou à Fatwa, prometendo a salvação eterna a quem o matasse, o que levou o escritor a viver quase duas décadas escondido e sob protecção policial.
Günter Wallraf, que nos anos 70 denunciou a conspiração armada de extrema-direita contra a Revolução de Abril, em Portugal e nos anos 80 se disfarçou durante dois anos de turco e trabalhou como imigrante na Alemanha, declarou à agência France Presse que o seu projecto de ler os "Versículos", numa mesquita não procura a provocação.
"Faço-o em nome dos trabalhadores imigrantes que vivem na Alemanha, enquanto pessoa que viveu na pele de um turco durante dois anos", explicou Günter Wallraff. "Não sou um inimigo mas um amigo dos imigrantes. Eles conhecem-me como alguém que se empenhou na sua integração e que denunciou os seus problemas, nomeadamente no meu livro `Cabeça de Turco` que se tornou um livro de culto em alguns países muçulmanos, nomeadamente na Turquia."
Interrogado pela AFP sobre como lhe ocorreu a ideia, Wallraff explicou: "Aconteceu durante um debate em directo na rádio alemã Deutschlandfunk, onde se discutia a construção de uma mesquita em Colónia. O representante da comunidade muçulmana, Bekir Alboga, perguntou se eu queria ser membro do conselho dessa comunidade. Eu não sou contra, por princípio, mas então quero contribuir para o debate sobre o Islão. Foi aí que me ocorreu a ideia de ler os `Versículos Satânicos` do meu amigo e colega Salman Rushdie, que viveu por duas ocasiões escondido em minha casa, no tempo em que a Fatwa contra ele era extremamente ameaçadora. Não pensei que a minha proposta provocasse tantas reacções e tanto ruído."
Wallraff afirma que "os muçulmanos não conhecem o livro, nenhum religioso muçulmano o leu". O escritor disse estar persuadido de que nem o falecido ayatollah Ruhollah Khomeiny, fundador da República Islâmica do Irão o leu.
"Aliás, o livro nunca foi traduzido para árabe ou turco", disse. "Ora o livro é uma obra-prima literária e, quando começamos a lê-lo, apercebemo-nos de que não é um panfleto. Considero que esta leitura vai acontecer, estou a pensar no Outono. Vai ter um grande significado, porque vai quebrar o tabu sobre o autor do livro."
"Até agora", prosseguiu Wallraff, "nenhuma comunidade muçulmana protestou contra esta Fatwa. Por força de uma espécie de falso sentimento de solidariedade, todos no mundo muçulmano aceitam esta Fatwa. E esta leitura seria um sinal importante contra os fundamentalistas islâmicos. Vai ter um grande efeito libertador."