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Há 70 anos, a França capitulava perante a Alemanha nazi
Completam-se amanhã, 17 de Junho, 70 anos sobre o discurso de Pétain anunciando a capitulação da França. A mais corrente explicação francesa para o rápido colapso sofrido às mãos da Wehrmacht tem sido a alegada superioridade esmagadora desta em armamento. A mais corrente explicação alemã era, na altura, o "génio militar" de Hitler. Ambas são altamente duvidosas.
Ainda actualmente, a explicação da superioridade material alemã continua a ter um peso determinante, Assim, o despacho hoje distribuído pela agência France Press lembra a dimensão da derrota (90.000 mortos franceses, 1,5 milhão de prisioneiros, 6 milhões de civis deslocados), lembra também as divisões no gabinete de crise (entre um Pétain, desde cedo favorável à rendição, e um De Gaulle, paladino da resistência), os erros estratégicos e tácticos do Alto-Comando francês e "um material insuficiente, muitas vezes ultrapassado e mal utilizado".
Do lado alemão, e muito mais do que a tal alegada superioridade material, sublinhava-se o facto de a audácia do plano de operações ter surpreendido os comandos militares britânicos e franceses e atribuía-se inteiramente a Hitler essa audácia.
Ambas as explicações pecam por simplistas.
Um artigo publicado pelo jornalista Christoph Gunkel, em número especial da revista Der Spiegel, faz o ponto da situação sobre os debates históricos e os mitos que se teceram em torno da fulminante derrota anglo-francesa.
O mito da superioridade material alemã
Um dos mitos é o da superioridade material. Depois das sangrentas batalhas de Verdun e do Somme, na Primeira Grande Guerra, a França tinha investido milhares de milhões de francos a fortificar as suas posições defensivas, com a famosa Linha Maginot, tida por inexpugnável.
A capacidade económica conjugada da França e do Reino Unido era além disso a de duas grandes potências e, no médio prazo, inevitavelmente teria de produzir uma capacidade militar conjugada muito maior que a da Alemanha. Embora a política de appeasement (apaziguamento), tivesse atrasado o esforço de rearmamento britânico, esse atraso encontrava-se já largamente recuperado.
À agressão alemã contra a Polónia, em Setembro de 1939, tinham-se seguido mais nove meses de corrida a todo o tipo de armamentos. Foi a phoney war, ou drôle de guerre, ou Sitzkrieg - a "guerra da rádio", a "guerra estranha", a "guerra sentada". Como quer que se lhe chamasse, era um compasso de espera providencial para as potências aliadas, com a sua superior capacidade económica.
O tempo corria a favor da França e da Grã-Bretanha, que acumulavam um arsenal considerável e, ao mesmo tempo, primavam pela paciência e pela falta de iniciativa. Uma das poucas empreendidas foi o desembarque na Noruega, com escassa convicção e abandonada logo que se desenhou um contra-ataque alemão. A derrota britânica esteve na origem da demissão do primeiro-ministro Neville Chamberlain, responsável da política apaziguadora, pelo mais combativo Winston Churchill.
Compreendendo que o tempo jogava em seu desfavor, a cúpula nazi decidiu-se a tomar a iniciativa contra um adversário cada vez mais forte. Fê-lo num momento em que a superioridade anglo-francesa era já importante: os Aliados tinham mais aviões de combate que a Luftwaffe, quase o dobro das peças de artilharia, tanques melhores que os seus mais modernos equivalentes alemães. As famosas divisões blindadas alemãs dispunham de uma frota limitada a umas poucas divisões com os últimos modelos de tanques e, em tudo o mais, consideravelmente anacrónica.
O mito da genialidade militar de Hitler
Hitler, por seu lado, tinha desde o final de 1939 uma decisão política já tomada, de atacar a França, mas, segundo Gunkel, não tinha uma ideia clara de como levar à prática essa decisão. Os seus generais, impressionados com a força do inimigo e cientes da fragilidade estratégica do Führer, iam encontrando pretextos para adiar sucessivamente a ofensiva - e foram 29 os adiamentos registados.
Se, em 10 de Maio de 1940, a ofensiva foi finalmente lançada, isso resultou da adopção, por parte de Hitler, da concepção estratégica do único general que a tinha efectivamente, e que justamente por isso tinha sido afastado para longe da frente ocidental. Erich von Manstein apresentara aos seus confrades um plano, esse sim, audacioso, de lançar os tanques contra as linhas inimigas, pelo Norte, sem esperar pela infantaria, como mandava a doutrina militar tradicional.
A concepção de Manstein emancipava os tanques da infantaria, que habitualmente os considerava como sua arma de apoio, e fazia deles o verdadeiro protagonista dum confronto motorizado em larga escala. Apesar do degredo imposto ao general, Hitler teve conhecimento do plano e adoptou-o rapidamente como seu, vindo a afirmar mais tarde que Manstein era o único que o tinha "comprrendido", a ele, Hitler.
Na verdade, era o Führer que tinha assimilado a concepção do general, de forma algo apressada e sem a compreender inteiramente: ao lançar a ofensiva inspirada na concepção de Manstein e sob o comando operacional de Guderian, cometeu vários erros reveladores.
Uma lição mal aprendida
Com efeito, as divisões blindadas alemãs foram lançadas contra o Luxemburgo, a Bélgica e a Holanda neutrais, e lançadas através das Ardenas com uma improvisação que denunciava o carácter tardio e insuficientemente amadurecido da adopção daquele conceito estratégico. Esperavam-nas algumas surpresas, como a de verificarem, já em combate, que a blindagem de uma parte dos tanques franceses era impenetrável para as peças de artilharia alemãs, ou a de só pensarem nas vias para a circulação dos tanques quando estes já se encontravam engarrafados e se tinham tornado alvos ideais para as forças aéreas britânica e francesa.
Acontece que as informações que chegavam aos estados-maiores aliados sobre a concentração de forças alemãs foram todas ignoradas, porque nenhuma das suas figuras decisivas, entre elas o marechal Pétain, acreditavam que a Wehrmacht se preparasse para atacar pelas Ardenas. A oportunidade para o ataque aéreo aliado perdeu-se portanto e em breve a ofensiva alemã fulminava os Aliados, com um avanço das suas colunas blindadas na ordem dos 120 Km num só dia.
Uma enigmática interrupção da ofensiva
Quem tinha compreendido Manstein não era Hitler e sim Guderian, que levou a cabo esses avanços em grande parte por iniciativa própria. Para fazê-lo, contornou ordens do seu Estado-Maior que ainda se inspiravam largamente na doutrina clássica, de não deixar espaços vazios à retaguarda dos tanques, de cobrir os flancos, etc.. Hitler, pelo contrário, assustou-se com a rapidez do avanço e a 17 de Maio interveio para fazer parar Guderian, considerando imprudente vencer tanta distância sem consolidar o terreno.
A hesitação não bastou para livrar as tropas britânicas de serem cercadas em Dunquerque, mas permitiu organizar a sua evacuação e impedir que caíssem prisioneiros da Wehrmacht cerca de 320.000 soldados britânicos. A interrupção da ofensiva de Guderian foi tão contrária à lógica operacional que ficou para sempre a especulação de que Hitler a tivesse decidido para abrir as portas a um acordo, que de forma recorrente sugeria à Grâ-Bretanha: hegemonia britânica no mundo colonial, hegemonia alemã no continente europeu.
Do mito da derrota ao mito da resistência
Seja como for, a França acabou por capitular, não tendo resistido no seu próprio território muito mais tempo do que a Polónia, meses antes, a combater sozinha e em duas frentes, também contra a invasão soviética na sua fronteira oriental. Em 17 de Junho, Pétain anunciou a capitulação na rádio e em 18 de Junho De Gaulle apelou à resistência nos microfones da BBC, desde o seu exílio londrino. Havia muito mais franceses a ouvirem Pétain, e a darem-lhe ouvidos. A resistência começou por ser o gesto duma minoria.
No pós-guerra, acrescentou-se aos mitos da derrota os mitos da resistência como atitude unânime do povo francês. Os trabalhos de uma escola de historiadores mais críticos, como Annie Lacroix-Riz, que dissecou implacavelmente a participação do patronato francês na partilha dos despojos da proprieadade arianizada, continuam a ser menos fabricantes de senso comum que encenções como hoje a de Nikolas Sarkozy, ao visitar em Londres o antigo quartel-general de De Gaulle e a estação da BBC onde o seu apelo foi lido.
Do lado alemão, e muito mais do que a tal alegada superioridade material, sublinhava-se o facto de a audácia do plano de operações ter surpreendido os comandos militares britânicos e franceses e atribuía-se inteiramente a Hitler essa audácia.
Ambas as explicações pecam por simplistas.
Um artigo publicado pelo jornalista Christoph Gunkel, em número especial da revista Der Spiegel, faz o ponto da situação sobre os debates históricos e os mitos que se teceram em torno da fulminante derrota anglo-francesa.
O mito da superioridade material alemã
Um dos mitos é o da superioridade material. Depois das sangrentas batalhas de Verdun e do Somme, na Primeira Grande Guerra, a França tinha investido milhares de milhões de francos a fortificar as suas posições defensivas, com a famosa Linha Maginot, tida por inexpugnável.
A capacidade económica conjugada da França e do Reino Unido era além disso a de duas grandes potências e, no médio prazo, inevitavelmente teria de produzir uma capacidade militar conjugada muito maior que a da Alemanha. Embora a política de appeasement (apaziguamento), tivesse atrasado o esforço de rearmamento britânico, esse atraso encontrava-se já largamente recuperado.
À agressão alemã contra a Polónia, em Setembro de 1939, tinham-se seguido mais nove meses de corrida a todo o tipo de armamentos. Foi a phoney war, ou drôle de guerre, ou Sitzkrieg - a "guerra da rádio", a "guerra estranha", a "guerra sentada". Como quer que se lhe chamasse, era um compasso de espera providencial para as potências aliadas, com a sua superior capacidade económica.
O tempo corria a favor da França e da Grã-Bretanha, que acumulavam um arsenal considerável e, ao mesmo tempo, primavam pela paciência e pela falta de iniciativa. Uma das poucas empreendidas foi o desembarque na Noruega, com escassa convicção e abandonada logo que se desenhou um contra-ataque alemão. A derrota britânica esteve na origem da demissão do primeiro-ministro Neville Chamberlain, responsável da política apaziguadora, pelo mais combativo Winston Churchill.
Compreendendo que o tempo jogava em seu desfavor, a cúpula nazi decidiu-se a tomar a iniciativa contra um adversário cada vez mais forte. Fê-lo num momento em que a superioridade anglo-francesa era já importante: os Aliados tinham mais aviões de combate que a Luftwaffe, quase o dobro das peças de artilharia, tanques melhores que os seus mais modernos equivalentes alemães. As famosas divisões blindadas alemãs dispunham de uma frota limitada a umas poucas divisões com os últimos modelos de tanques e, em tudo o mais, consideravelmente anacrónica.
O mito da genialidade militar de Hitler
Hitler, por seu lado, tinha desde o final de 1939 uma decisão política já tomada, de atacar a França, mas, segundo Gunkel, não tinha uma ideia clara de como levar à prática essa decisão. Os seus generais, impressionados com a força do inimigo e cientes da fragilidade estratégica do Führer, iam encontrando pretextos para adiar sucessivamente a ofensiva - e foram 29 os adiamentos registados.
Se, em 10 de Maio de 1940, a ofensiva foi finalmente lançada, isso resultou da adopção, por parte de Hitler, da concepção estratégica do único general que a tinha efectivamente, e que justamente por isso tinha sido afastado para longe da frente ocidental. Erich von Manstein apresentara aos seus confrades um plano, esse sim, audacioso, de lançar os tanques contra as linhas inimigas, pelo Norte, sem esperar pela infantaria, como mandava a doutrina militar tradicional.
A concepção de Manstein emancipava os tanques da infantaria, que habitualmente os considerava como sua arma de apoio, e fazia deles o verdadeiro protagonista dum confronto motorizado em larga escala. Apesar do degredo imposto ao general, Hitler teve conhecimento do plano e adoptou-o rapidamente como seu, vindo a afirmar mais tarde que Manstein era o único que o tinha "comprrendido", a ele, Hitler.
Na verdade, era o Führer que tinha assimilado a concepção do general, de forma algo apressada e sem a compreender inteiramente: ao lançar a ofensiva inspirada na concepção de Manstein e sob o comando operacional de Guderian, cometeu vários erros reveladores.
Uma lição mal aprendida
Com efeito, as divisões blindadas alemãs foram lançadas contra o Luxemburgo, a Bélgica e a Holanda neutrais, e lançadas através das Ardenas com uma improvisação que denunciava o carácter tardio e insuficientemente amadurecido da adopção daquele conceito estratégico. Esperavam-nas algumas surpresas, como a de verificarem, já em combate, que a blindagem de uma parte dos tanques franceses era impenetrável para as peças de artilharia alemãs, ou a de só pensarem nas vias para a circulação dos tanques quando estes já se encontravam engarrafados e se tinham tornado alvos ideais para as forças aéreas britânica e francesa.
Acontece que as informações que chegavam aos estados-maiores aliados sobre a concentração de forças alemãs foram todas ignoradas, porque nenhuma das suas figuras decisivas, entre elas o marechal Pétain, acreditavam que a Wehrmacht se preparasse para atacar pelas Ardenas. A oportunidade para o ataque aéreo aliado perdeu-se portanto e em breve a ofensiva alemã fulminava os Aliados, com um avanço das suas colunas blindadas na ordem dos 120 Km num só dia.
Uma enigmática interrupção da ofensiva
Quem tinha compreendido Manstein não era Hitler e sim Guderian, que levou a cabo esses avanços em grande parte por iniciativa própria. Para fazê-lo, contornou ordens do seu Estado-Maior que ainda se inspiravam largamente na doutrina clássica, de não deixar espaços vazios à retaguarda dos tanques, de cobrir os flancos, etc.. Hitler, pelo contrário, assustou-se com a rapidez do avanço e a 17 de Maio interveio para fazer parar Guderian, considerando imprudente vencer tanta distância sem consolidar o terreno.
A hesitação não bastou para livrar as tropas britânicas de serem cercadas em Dunquerque, mas permitiu organizar a sua evacuação e impedir que caíssem prisioneiros da Wehrmacht cerca de 320.000 soldados britânicos. A interrupção da ofensiva de Guderian foi tão contrária à lógica operacional que ficou para sempre a especulação de que Hitler a tivesse decidido para abrir as portas a um acordo, que de forma recorrente sugeria à Grâ-Bretanha: hegemonia britânica no mundo colonial, hegemonia alemã no continente europeu.
Do mito da derrota ao mito da resistência
Seja como for, a França acabou por capitular, não tendo resistido no seu próprio território muito mais tempo do que a Polónia, meses antes, a combater sozinha e em duas frentes, também contra a invasão soviética na sua fronteira oriental. Em 17 de Junho, Pétain anunciou a capitulação na rádio e em 18 de Junho De Gaulle apelou à resistência nos microfones da BBC, desde o seu exílio londrino. Havia muito mais franceses a ouvirem Pétain, e a darem-lhe ouvidos. A resistência começou por ser o gesto duma minoria.
No pós-guerra, acrescentou-se aos mitos da derrota os mitos da resistência como atitude unânime do povo francês. Os trabalhos de uma escola de historiadores mais críticos, como Annie Lacroix-Riz, que dissecou implacavelmente a participação do patronato francês na partilha dos despojos da proprieadade arianizada, continuam a ser menos fabricantes de senso comum que encenções como hoje a de Nikolas Sarkozy, ao visitar em Londres o antigo quartel-general de De Gaulle e a estação da BBC onde o seu apelo foi lido.