Há um século nos Estados Unidos. O plano para matar os índios ricos

A imprensa sabia e o povo falava, mas ninguém fez nada para evitar que dezenas de membros de uma tribo de índios norte-americanos fossem assassinados. Os osage não eram uns índios quaisquer: donos de uma reserva assente em jazidas de petróleo, tornaram-se nas primeiras décadas do século XX numa nação rica, que atraiu todo o tipo de criminosos.

Paulo Alexandre Amaral - RTP /
DR

Em 1870, a nação osage foi expulsa das suas terras e colocada num canto do Oklahoma. As autoridades ainda não o sabiam, mas no subsolo havia uma imensa jazida de petróleo, o que fez dos osage os índios mais ricos da América nas décadas seguintes. Índios com grandes casas, carros e criadagem.

O que se seguiu foi um plano de liquidação com o fim de ficar com as taxas que recebiam das empresas exploradoras que trabalhavam nas suas terras. Estamos a falar, para o ano de 1923, num total de 30 milhões de dólares de que beneficiavam as cerca de 880 famílias osage, calculado aos dias de hoje em cerca de 400 milhões de dólares.

A intenção era apoderar-se das taxas de exploração através de herança por morte dos osage. Entre 1921 e 1925 verificaram-se na comunidade 60 mortes suspeitas, uma história quase inimaginável mas que aconteceu na realidade e volta a ser contada no livro “Os assassinos da Lua”, do escritor e jornalista David Grann. O plano consistia em casar sobrinhos e amigos com os índios para, de seguida, os ir eliminando e herdando os poços.

“Quando comecei a investigar cheguei a um museu osage e vi uma fotografia em que tinham recortado a cabeça de um homem. Quando perguntei porquê, disseram-me que era o diabo. Referiam-se a William King Hale, o homem que urdiu o plano. Eles não podiam esquecer isto que o resto dos Estados Unidos ignoravam, que não se estuda nas escolas e que, inclusivamente, já estava esquecido no Oklahoma”, explicou Grann ao jornal espanhol El País.

O plano consistia em casar sobrinhos e amigos com os índios para, de seguida, os ir eliminando e herdando os poços. De acordo com o relato de David Grann, esta grande trama contou com a colaboração do Estado, autoridades locais, médicos legistas que produziram relatórios de autópsia falsos, etc., um enorme esquema que permitiu ocultar dezenas de homicídios, por resolver até hoje.

Mas houve outros esquemas montados para espoliar os osage dos seus muitos milhões de dólares. Por exemplo, um mecanismo paralelo, e dentro das práticas institucionais, tinha a ver com a atribuição aos índios – até que estes estivessem “preparados” – de um tutor legal que se ocupava da gestão da sua parte dos lucros com a exploração do petróleo. Estes guardiões legais, por norma advogados ou homens do Direito, começaram a pulular às centenas no Oklahoma.

Por forma a colocar um ponto final nesta onda de mortes suspeitas, o Congresso americano acabou por passar uma lei em 1925 para proibir determinantemente que não-índios herdassem direitos sobre o petróleo explorado nas terras da nação osage.

Esta história da nação osage cruza-se ainda com o nascimento em 1935 do FBI (Federal Bureau of Investigation). Por alturas de 1925, alguns osage procuraram o então Bureau of Investigation para resolver os crimes que o comité dos assuntos índios não conseguiu resolver. O seu director era já J. Edgar Hoover.
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