Imigração é "um privilégio, não um direito", diz Trump a Merkel

A chanceler alemã foi recebida esta sexta-feira na Casa Branca pelo Presidente norte-americano. Foi a primeira cimeira americana-alemã desde a eleição de Donald Trump.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Angela Merkel reuniu-se pela primeira vez com o Presidente Donald Trump na Casa Branca Jonathan Ernst - Reuters

Na conferência de imprensa, ambos os líderes consideraram bastante profícua a reunião.

A palavra de ordem parece ter sido a aproximação e a cordialidade, mesmo se, durante a sessão de fotos, Trump ignorou a sugestão de Merkel de apertarem as mãos, remetendo-se a sorrisos e se, durante a conferência de imprensa, Merkel se mostrou algo tensa e prudente.

O Presidente norte-americano garantiu à chanceler o seu "forte apoio" ao Tratado da Aliança do Atlântico Norte - NATO e apelou a um comércio igualitário e justo.

"Reiterei à chanceler Angela Merkel o meu forte apoio à NATO assim como a necessidade dos nossos aliados da NATO pagarem a sua parte do custo de defesa", disse Trump.

Merkel afirmou que disse ao Presidente que a Alemanha necessita de cumprir os objetivos de despesa da NATO. Os dois também debateram a Ucrânia e o Afeganistão.

Donald Trump agradeceu à chanceler e ao Presidente francês, François Hollande, os seus esforços na Ucrânia, sublinhando a necessidade de uma solução "pacífica" para o país.
Imigração: "um privilégio, não um direito"
O Presidente referiu ainda que, no que diz respeito à imigração, é preciso lembrar que esta é "um privilégio, não um direito". Pelo que, depreende-se, cada país se deve reservar o direito de ditar as suas próprias políticas e prioridades sobre o problema.

"A segurança dos nossos cidadãos deve sempre vir em primeiro lugar. Sem dúvida alguma", afirmou Donald Trump, felicitando Angela Merkel pela luta anti-terrorista da Alemanha.

Durante a campanha eleitoral Trump criticou a chanceler pela sua política de acolhimento aos refugiados. 

Durante a conferência de imprensa Merkel deu ideia de diferenças de opinião sobre o assunto quando disse "este foi obviamento um assunto sobre o qual trocamos ideias".
Merkel prudente

"Tivemos uma conversa na qual tentámos abordar também as áreas em que não estamos de acordo, mas tentamos juntar as pessoas... Encontrar um compromisso que seja bom para ambas as partes", disse Merkel. 

"É difícil chegar a compromissos mas foi para isso que fomos eleitos", disse a chanceler, lembrando que, tanto ela como Trump, têm ideias e percursos políticos muito diferentes.

"Tivemos uma conversa profícua em que, quando as nossas opiniões divergiram, procuramos encontrar as diferentes perspetivas e chegar a soluções de compromissos que sejam positivas para ambos os lados,"explicou.
Não sou nacionalista"
Perante uma pergunta dirigida à chanceler sobre o muro que Trump quer continuar na fronteira com o México, e a alegada política isolacionista do Presidente, este antecipou-se e tomou a palavra:

"Será que posso responder primeiro?", perguntou, perante uma Merkel surpreendida que lhe passou depois a vez com um sorriso.

"Eu não acredito numa política de isolacionismo, acredito numa política justa e os Estados Unidos têm sido tratados de uma maneira injusta por muito países ao longo dos anos", explicou Trump. "Isso vai parar. Mas eu não sou um nacionalista, sou a favor do comércio livre".

Angela Merkel respondeu depois que entre ela e Trump não foram debatidas "as questões económicas", tendo sido abordadas questões "de segurança e de Paz".

E deu uma no cravo e outra na ferradura.

"Temos de ter uma globalização aberta mas obviamente justa, a liberdade de circulação dentro da União Europeia é uma questão importante e é também um pilar", referiu Merkel, lembrando que durante vários séculos e até não há muitos anos os países europeus estavam em guerra uns com os outros.

"Mas temos também de nos proteger e de colaborar com os nossos vizinhos, a imigração tem de ser gerida, o tráfico de seres humanos tem de ser travado e os refugiados têm de ter oportunidades nos países onde são acolhidos e nos seus países de origem", concedeu a chanceler alemã.
Parabéns à Alemanha
Trump acrescentou que "estão a ser recuperados muitos empregos."

"Há muitos empregos que estão a ser devolvidos ao Michigan e à Pensilvânia e a muitos outros lugares onde se perdeu muito trabalho. Temos uma política diferente mas vai ser uma grande politica não só para os Estados Unidos mas para o mundo inteiro".

"Em termos de comércio com a Alemanha penso que nos vamos dar muito bem", acrescentou o presidente norte-americano, felicitando a forma como os alemães "se portaram nos seus acordos com os EUA. Mas posso falar de outros países com quem temos negócios como a China, que não são bons para os nossos trabalhadores."

"Não queremos ser vitoriosos, queremos justiça" sublinhou Trump.

"Olhem para as transações comerciais da NAFTA, foi um desastre para os Estados Unidos, um desastre para as empresas, em particular para os trabalhadores, muitas empresas acabaram deslocando-se", defendeu o Presidente.

"Eu estou aqui por causa dos trabalhadores, razão número um. E também por causa dos militares, temos de investir nos militares e seremos mais fortes, talvez não tenhamos de usar essa força mas seremos mais fortes do que alguma vez fomos, é por essa razão que aqui estou hoje."
Acordos comerciais
"Iremos ser um país muito diferente, temos valores mas, em termos militares, vamos ser muito mais fortes e os nossos acordos comerciais vão ser bons e sólidos, não acordos comerciais que conduzam a encerramentos e a um desemprego tremendo", concluiu Trump.

Merkel permitiu-se lembrar aqui os sucessos da União Europeia e dos acordos que firma e que, diz, são vantajosos para todas as partes. A chanceler atribuiu o sucesso dos alemães no plano económico mas também na segurança e na paz, à integração europeia. "Estou profundamente convicta disso", afirmou.   

"Qualquer acordo celebrado pela União Europeia, por exemplo com a Coreia do Sul, resultou em mais postos de trabalho para a Alemanha, e para a União Europeia", referiu. "Havia também alguma preocupação quanto à industria automóvel em relação à Coreia do Sul mas o que se verificou é que ambas as partes acabarem por tirar proveito da situação e é perfeitamente justo e equitativo".

"Ambos procuram ter vantagens e assim iria felicitar-me se as conversações entre os Estados Unidos e a União Europeia fossem retomadas" em relação ao acordo de livre comércio, referiu a chanceler.

Lembrando o recém acordo assinado entre a União Europeia e  o Canadá, Merkel desejou o recomeço das negociações de comércio livre entre a UE e os EUA, afastadas por Trump.

"Penso que estamos numa situação em que podemos retomar essas conversações", disse a chanceler.

Num dos únicos momentos de descontração durante a conferência de imprensa, Trump referiu que raramente se arrepende daquilo que publica na rede social Twitter, numa resposta sobre as suas acusações, sem provas, de que o seu predecessor, o democrata Barack Obama, o gravou durante o último ano de campanha eleitoral.

"Ao menos temos uma coisa em comum" exclamou, provocando risos, numa referência a relatórios que revelaram que o telefone foi posto sob escuta pelos estados unidos durante a Administraçao Obama. 
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