Imigração na Europa é uma crise sobretudo política: cresce a imigração seletiva, ilegais são cada vez menos

Imigração na Europa é uma crise sobretudo política: cresce a imigração seletiva, ilegais são cada vez menos

O fosso entre a perceção e a realidade é enorme. Um inquérito do Eurobarómetro de 2022 mostra que 68% dos europeus sobrestimam a proporção real de migrantes na população. Os migrantes não são a maioria na sociedade, são a maioria na nossa atenção.

Um Olhar Europeu com RTBF /
Sameer Al-Doumy / AFP

Esta sobrestimação alimenta mecanicamente os apelos ao encerramento total das fronteiras, apesar de a Europa estar, de facto, a organizar a chegada de milhões de migrantes através de canais legais.Chegadas irregulares registam descida acentuada
Contrariamente à ideia de um fluxo descontrolado, as entradas irregulares representam uma fração marginal da migração para a União Europeia. São as conclusões de um inquérito recente realizado por jornalistas da rede Euranet +.

Em 2024, foram emitidas 3,5 milhões de primeiras autorizações de residência na UE, em comparação com cerca de 240. 000 entradas ilegais. Este número está muito abaixo do pico registado em 2023 (pouco mais de 385.000) e é muito inferior à crise de 2015, que registou 1,8 milhões de chegadas ilegais à Europa.


Frontex e UNHCR

A tendência confirma-se. A imigração irregular para a União Europeia está a diminuir de forma acentuada

De acordo com o Frontex, nos primeiros onze meses de 2025, o número de passagens irregulares nas fronteiras diminuiu mais 26 % em comparação com 2024. Em dois anos, as entradas irregulares de migrantes diminuíram em mais de metade, o que representa o nível mais baixo desde 2021.

O Mediterrâneo central continua a ser a rota mais popular, nomeadamente para Itália, mas os volumes observados são estruturalmente muito inferiores aos registados em meados da década de 2010.Ucrânia, um caso à parteO aumento registado desde 2021 deve-se, em grande medida, à guerra na Ucrânia. Mais de 4,3 milhões de ucranianos ainda beneficiavam de proteção temporária na Europa no final de 2025. Aqueles que desejarem regressar receberão um apoio especial.

Embora as chegadas tenham sido em grande número, não desencadearam qualquer pânico político. A chegada de uma grande comunidade ucraniana à Bélgica e a todos os países dos Estados-membros da União Europeia não causou a mesma agitação que os migrantes da Síria ou do Afeganistão. Pelo contrário, os imigrantes foram bem recebidos. Os atores políticos não agitaram as mesmas bandeiras vermelhas.

Por outras palavras, nem todas as migrações são "assustadoras", apenas aquelas que escolhemos designar como tal.Pedidos de asilo também estão a diminuir
O mesmo acontece com os pedidos de asilo. Entre janeiro e julho de 2025, foram apresentados na UE cerca de 455.100 pedidos de proteção internacional, menos 23 % do que no mesmo período de 2024.

Em 2024, no seu conjunto, a UE registou 998.530 pedidos, menos 12% do que em 2023. Espanha, França, Itália, Alemanha e Grécia são responsáveis pela maioria dos primeiros pedidos. 

Em termos de nacionalidades dos requerentes de asilo, a maior proporção vem da Venezuela (54.600), seguida do Afeganistão (quase 35.800), da Síria (26.200), do Bangladesh (19.400) e da Ucrânia (14.750).

Ao mesmo tempo, os requerentes de asilo na UE enfrentam atualmente um atraso significativo no tratamento dos processos. No final de 2024, 1,24 milhões de pessoas tinham pedidos de asilo pendentes, mais 9% do que no ano anterior, de acordo com a Comissão Europeia.

Quanto às taxas de sucesso dos pedidos, estas variam consideravelmente de país para país. Em 2024, a taxa de reconhecimento dos cidadãos afegãos variava entre 11% na Bulgária e 98% na Grécia, segundo a Comissão.Aumento da imigração legal
Ao mesmo tempo, a imigração total está a aumentar. Em 2023, cerca de 6 milhões de migrantes chegaram à União Europeia. É menos do que em 2022, um ano excecional, mas muito mais do que em 2019, antes da pandemia.
Eurostat

Estes migrantes chegam de forma perfeitamente legal: para trabalhar, estudar ou por causa do reagrupamento familiar. Em 2023, 10% da população da UE nasceu fora da União Europeia e 6,4% eram cidadãos de países terceiros.Então, estão a mentir-nos sobre a imigração?
A resposta é mais complexa do que um simples sim ou não. Para Sylvie Sarolea, professora na Universidade Católica de Lovaina e especialista em direitos humanos e direito das migrações, "a imigração é uma questão que se presta a uma retórica simplista, quando é muito mais do que isso, sobretudo se compararmos perceções e números. 

De facto, o número de chegadas ilegais à União Europeia diminuiu. Apesar disso, a imigração continua a ser objeto de um discurso polarizador, porque o bode expiatório é um instrumento fácil".

Comissão Europeia

Atualmente, as entradas regulares representam a maior proporção da migração para a União Europeia. Não é por acaso, mas sim uma resposta estrutural a uma dupla realidade: por um lado, o envelhecimento demográfico e, por outro, a falta de mão de obra em muitos setores. 

Como salienta a professora Sarolea, "privarmo-nos da imigração seria dramático para a economia. Todos os indicadores da importância da imigração para a economia estão a verde. Quer se trate da OCDE ou de organismos especializados em Itália. De facto, o Governo italiano retirou conclusões deste facto e vai abrir as portas a mais 500.000 trabalhadores estrangeiros até 2028. 

Na Bélgica, o gabinete de planeamento diz o mesmo. E o Governo italiano sabe que, por um lado, falar de imigração compensa - chama-se populismo - mas, por outro lado, o país precisa de imigrantes no plano económico".
O verdadeiro paradoxo europeuA maioria dos Estados-membros está, por conseguinte, a falar duro, ao mesmo tempo que organiza de forma mais discreta a sua abertura aos estrangeiros. Dramatizam a imigração clandestina, enquanto dependem da imigração legal. Falam de crise enquanto gerem uma transição demográfica.

Para Satieta Ngo, diretora da ONG Ciré (Coordination et initiatives pour réfugiés et étrangers) esta discrepância entre a retórica e a realidade não é acidental: "Esta discrepância entre a política e a realidade dos números só pode ser explicada pelo interesse eleitoral. Os cientistas políticos, pessoas que observam a vida política, podem facilmente explicar que dizer coisas bastante duras e adotar uma posição muito firme sobre a migração tende a compensar em termos de popularidade, o que se traduz em sucesso eleitoral".

Os números mostram que a Europa não está a ser invadida. O problema não é a imigração, mas a narrativa política em torno da questão. Enquanto o medo angariar mais votos do que os factos observados, o fosso entre os factos e a retórica continuará a aumentar.

Olivier Hanrion / 4 fevereiro 2026 05:10 GMT

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
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