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Impacto do fecho de Ormuz seria "gerível" para a China

Impacto do fecho de Ormuz seria "gerível" para a China

Analistas consideram que a suspensão do trânsito no estreito de Ormuz expõe a China a riscos energéticos devido à forte dependência de petróleo importado, embora o impacto potencial da disrupção seja "gerível" no curto prazo.

Lusa /

A China, maior importador mundial de petróleo, adquiriu em 2024 cerca de 560 milhões de toneladas de crude no exterior, o equivalente a 11,2 milhões de barris por dia, com um grau de dependência próximo de 72%.

Embora o Irão represente cerca de 11% das importações chinesas e não seja o principal fornecedor de Pequim, aproximadamente 45% do petróleo comprado pela China provém de países do Golfo, como Arábia Saudita, Iraque ou Kuwait.

Trata-se de fornecimentos que dependem em grande medida da rota marítima do estreito de Ormuz, cujo trânsito "já não é seguro", segundo declarou a Guarda Revolucionária iraniana após a morte do líder supremo iraniano, o `ayatollah` Ali Khamenei, num ataque norte-americano e israelita.

Especialistas citados pelo portal China News consideram que o impacto direto na economia chinesa é "globalmente controlável".

Chen Fengying, antiga diretora do Instituto de Economia Mundial do Centro de Relações Internacionais Contemporâneas da China, afirmou que o país "se encontra num contexto de baixa inflação" e dispõe de "margem de política macroeconómica", o que permitiria "compensar a pressão sobre os custos decorrentes da subida do preço do petróleo".

Apesar da elevada dependência energética, acrescentou Chen, empresas chinesas operam no exterior e contam com mecanismos de diversificação que podem amortecer parte do impacto.

Face a economias com "maior pressão inflacionária", como Japão ou Índia, Pequim mantém maior capacidade de ajustamento para evitar que uma subida pontual do crude se transforme num "risco sistémico", sustentou.

Tian Lihui, diretor do Instituto de Desenvolvimento Financeiro da Universidade de Nankai, considerou que o atual choque se assemelha mais a um "impacto estrutural" do que a uma "crise sistémica", embora tenha alertado que economias com elevada dependência energética, incluindo várias asiáticas, estarão sujeitas a "maior pressão".

Já a economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis, Alicia García Herrero, afirmou que a crise iraniana representa para Pequim um "risco maior" do que o caso venezuelano, dado o peso superior do crude iraniano nas importações chinesas.

Segundo a economista, o Irão tem fornecido petróleo à China com desconto, muitas vezes contornando sanções norte-americanas através do comércio triangular -- feito através de países terceiros --, sendo as transações maioritariamente liquidadas na moeda chinesa, o yuan.

"Este acordo manteve a economia iraniana à tona perante o isolamento ocidental, ao mesmo tempo que fornece combustível barato a Pequim", afirmou.

García Herrero sublinhou ainda que "o Irão é mais importante do que a Venezuela em termos de rotas comerciais", por se situar no "centro" de projetos estratégicos que podem ajudar a China a reduzir a sua exposição a estrangulamentos marítimos, como o Corredor Económico China -Paquistão ou o porto paquistanês de Gwadar.

Segundo a analista, "todas estas potenciais opções de diversificação" estão agora a ser "postas à prova pelos ataques contra o Irão e pelo futuro do regime iraniano".

O estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, é atravessado por cerca de 20% do petróleo e por uma parte significativa do gás natural liquefeito (GNL) comercializados por via marítima, segundo dados da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos e das Nações Unidas.

Em 2024, cerca de 84% do crude e 83% do GNL que passaram por Ormuz tiveram como destino mercados asiáticos, incluindo China, Índia e Japão.

Embora o Organismo Britânico de Comércio Marítimo tenha indicado que o estreito não está oficialmente encerrado, os alertas iranianos e o aumento do risco levaram, na prática, à suspensão ou desvio de rotas por grandes companhias como a Maersk.

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