Impeachment. Democratas e o tudo ou nada das testemunhas

por Graça Andrade Ramos - RTP
A equipa de acusação de Donald Trump, liderada pelo representante democrata Adam Schiff, a caminho do Senado para o segundo dia de apresentação dos seus argumentos, a 23 de janeiro de 2020 Reuters

O segundo dia da apresentação do processo contra Donald Trump prosseguiu no Senado de acordo com as linhas iniciais seguidas na véspera. A verdadeira luta, contudo, travou-se nos corredores do Capitólio e nos bastidores da Câmara.

No início dos trabalhos desta quinta-feira, a maioria dos lugares no Senado estava vazia, num eloquente testemunho quanto ao interesse suscitado pela apresentação.

Poucos assistiram assim à oração do capelão do Senado, que pediu para "o cansaço e o cinismo não colocarem em risco amizades que existem há anos".

No centro do Senado, pronunciava-se e repetia-se à vez a extensa narração, completa com vídeos, daquilo de que o Presidente é acusado.
João Ricardo de Vasconcelos, correspondente da RTP em Washington

"A conduta do Presidente é errada. É ilegal. É perigosa. E retém os piores receios dos nossos fundadores e os contornos da Constituição", resumiu o presidente da Comissão Judiciária do Congresso, que preparou o processo.

"Iremos debater a prova que demonstra de forma avassaladora que o Presidente Trump orientou este esquema com intenções corruptas. Com um objetivo corrupto, para obter o apoio externo na sua candidatura à reeleição nas eleições presiciais de 2020", afirmou por seu lado, pouco depois, a representante Silvya Garcia.
A natureza repetitiva da argumentação levou entretanto vários senadores a decidirem o seu sentido de voto.

"Lembra-me um canal de vendas, dos êxitos dos anos 80, ouve-se uma vez e outra vez e outra vez e outra vez. Quase consigo recitar o testemunho", criticou o senador republicano Thom Tillis, assumindo que vai votar pela absolvição.

James Lankford, igualmente republicano, acrescentou, "é uma apresentação mais organizada dos mesmos factos".

Apesar das queixas, há quem aprove a importância do detalhe, já que muitos entre os senadores não acompanharam ou não leram, o processo que desencadeou o julgamento.
O busílis do processo
A grande questão no julgamento decidia-se entretanto, no exterior da sala, onde prosseguiam as manobras para conseguir a admissão de novas testemunhas e provas.
A argumentação democrata ficou reduzida até agora à apresentação da prova obtida ao longo da investigação da Comissão Judiciária da Câmara Baixa, depois de terem visto bloqueada pelos republicanos terça-feira, no início do processo, a sua vontade de intimar novas testemunhas e documentos.

As regras admitem que os senadores as possam pedir no final da apresentação dos argumentos iniciais, caso considerem necessários novos esclarecimentos.

O Senado em peso terá de votar a admissão, mas basta uma maioria simples de 51 votos para a aprovação.

Os democratas garantem 47 votos a favor e precisam apenas que quatro senadores republicanos mudem de ideias.

Têm praticamente garantido o voto da senadora Susan Collins. "Tenho tendência para gostar de informação e antecipo que possa votar por mais" assumiu esta quinta-feira, à semelhança do que já fizera terça-feira.

Outros dois senadores, Lisa Murkowski e Mitt Romney, admitiram também poder votar a favor, no fim dos argumentos iniciais.
Persuasão democrata
Os democratas jogam agora tudo na esperança de uma mudança de ideias de apenas alguns.

O líder da minoria democrata no Senado, o senador Chuck Schumer, procurou pressionar os seus pares esta manhã, antes do início dos trabalhos.

Schumer classificou os argumentos apresentados até agora pela equipa de acusação como "poderosos", "precisos" e "devastadores".

"Talvez tenha plantado as primeiras sementes de dúvida nas suas mentes de que, sim, talvez o Presidente tenha agido nisto de forma muito errada", admitiu referindo-se aos senadores republicanos.

"A questão da prova relevante, documentos e testemunhas, vai ser levantada. E os senadores republicanos terão o poder de trazer essa prova a julgamento", afirmou aos jornalistas.

"Quatro deles, está nas suas mãos - podem fazer deste um julgamento mais justo, se o quiserem", acrescentou Schumer em jeito de desafio.

"Não sei como é que um senador, democrata ou republicano, pode estar sentado na sala a ouvir Adam Schiff e o resto da equipa dele e não pedir testemunhas e documentos", referiu ainda.

"Só se não estiverem interessados na verdade, se tiverem medo da verdade, se souberem que o Presidente está a esconder a verdade", atacou.
"O trabalho era vosso"
A audição de novas testemunhas e a avaliação de novas provas documentais arriscaria prolongar o julgamento, que a maioria dos senadores republicanos, à semelhança do Presidente, querem rápido, num máximo de dez dias.

Além da votação para ouvir os intimados, poderia ainda ser necessário estabelecer as regras sob as quais seriam examinados.

Também a análise da nova documentação demoraria ainda mais tempo.

Alguns senadores republicanos têm por isso sublinhado que o seu papel é julgar o caso elaborado pela Cãmara dos Representantes, liderada pelos democratas, e não ajudá-la na produção de prova.
Se, até agora, os acusadores de Trump não conseguiram provar de forma clara a culpa do Presidente, isso não é responsabilidade dos senadores, argumentam os republicanos.

A admissão de novos dados poderia prolongar o julgamento durante meses, em vez de semanas, receiam alguns senadores.

"Isso é algo que, penso, nos começamos a aperceber, essa poderia ser a consequência deles não terem feito o trabalho deles na Câmara e mandarem-no para cima de nós. E como sabem, enquanto este caso estiver pendente, não podemos fazer mais nada", comentou esta tarde, à margem da sessão, o republicano John Cornyn.

"Essa é outra boa razão, penso eu, para chegar fogo aos pés da equipa dos Representantes", acrescentou o senador do Texas. "Dizer-lhes, sabem, o desenvolvimento do caso era o vosso trabalho, não o nosso."
Renitentes
A avaliar por estas e outras reações, Schumer está longe de conseguir despertar a consciência republicana e assim ganhar votos.

Mitt Romney, preferiu para já ser evasivo. "Desculpem , não vou tecer comentários sobre a prova ou sobre o processo até terminar todo o julgamento", retorquiu à curiosidade dos jornalistas.

A senadora Murkowski evitou comprometer-se, tendo apenas e diplomaticamente considerado "muito completa" a apresentação dos acusadores até agora. "Tratou-se da prova e da cronologia e dos factos. Demorou. Foi muito completo", disse aos jornalistas presentes no Capitólio.

A senadora Joni Ernst, do Iowa, foi mais contundente. "Penso que estamos ainda à espera de ver a prova esmagadora e uma vez que a vejamos isso talvez nos convença de que é necessária mais informação, ou não. Não sabemos, eu porque ainda não a vi ser apresentada", disse aos jornalistas.

Em cima de mesa está também a hipótese de, em troca da audição de umas testemunnhas requeridas pelos democratas, como John Bolton, ex-conselheiro de Trump para a segurança, os republicanos possam ouvir as suas, como Joe Biden.

Na quarta-feira, o representante democrata Adam Schiff, principal acusador do Presidente, afastou essa possibilidade, referindo que "isto não é uma negociação fantasiosa do futebol!".
Trump e a negociação

Donald Trump, que até se tem mantido relativamente apagado no Twitter sobre a questão do julgamento, entrou na refrega esta quinta-feira, fazendo um trocadilho com o apelido de Schiff e chamando-lhe Schif Esquivo.

"Os democratas não querem uma Negociação de Testemunhas porque Shifty Schiff, os Biden, o falso Delator (& o seu advogado), o segundo Delator (que desapareceu após eu ter publicado as Transcrições), o chamado "informador", & muitos outros desastres democratas, seriam um GRANDE problema para eles!", escreveu o Presidente norte-americano.

Donald Trump está acusado de abuso do cargo, por ter alegadamente pressionado o Governo ucraniano a investigar a conduta no país do filho de Joe Biden, um dos seus possíveis rivais à Casa Branca. Terá, com mesmo fim, retido ajuda militar prometida a Kiev para combater insurgentes pró-russos e aprovada pelo Congresso.

O processo inclui um segundo artigo de acusação, de que o Presidente tentou obstruir a investigação do Congresso a estas suspeitas. Trump diz que nada fez de errado e chama a todo o processo uma nova "caça às bruxas".
Defesa não se descose
De acordo com alguns analistas americanos, a defesa de Trump vai centrar-se no argumento de que, ao pedir ao seu homólogo ucraniano recém-eleito para investigar os Biden, o Presidente estava convicto na intervenção ucraniana na eleição de 2016, tendo por isso todo o direito a interessar-se pelas atividades do seu rival naquele país.
Hunter Biden, filho de Joe Biden, que ocupou um cargo na administração da Burisma, a empresa estatal de gás ucraniana, já veio dizer que foi uma má ideia ter aceitado o cargo.

Tal como a equipa da Câmara dos Representantes, a equipa de defesa de Trump terá três dias de púlpito, para refutar a acusação. Ainda não se sabe se irá necessitar de todo esse tempo.

"Vamos determinar a nossa apresentação com base naquilo a que tivermos de responder e baseados no nosso caso", revelou Jay Seculow, advogado pessoal de Donald Trump. "Não sei se irá levar dez horas, 14 horas, 24 horas ou seis horas".

Para já, os senadores estão a tentar que a sessão de sábado, primeiro dia da intervenção da defesa, se restrinja ao período da manhã.
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