Índia. Conservadores protestam contra entrada de duas mulheres no Templo de Sabarimala

Durante séculos, as mulheres em idade reprodutiva estiveram impedidas de entrar no Templo de Sabarimala, a sul de Kerala, na Índia. Esta quarta-feira, duas mulheres tornaram-se nas primeiras indianas a entrar naquele local de culto, depois de uma decisão do Supremo Tribunal anunciada em setembro último. No entanto, vários partidos e entidades conservadoras daquele país opõem-se firmemente ao fim da proibição e o Templo esteve mesmo encerrado durante um “ritual de purificação”, levado a cabo após a entrada das duas indianas.

Andreia Martins - RTP /
Houve confrontos junto à entrada do Templo de Sabarimala após a entrada inédita de duas mulheres no local Sivaram V - Reuters

Duas mulheres entraram esta quarta-feira no Templo de Sabarimala, um local de culto hindu interdito durante vários séculos ao sexo feminino. A proibição, que visava todas as mulheres em idade reprodutiva, foi levantada em setembro de 2018 pelo Supremo Tribunal da Índia. 

Nos últimos meses, a decisão tem sido contestada pelas franjas mais conservadoras da sociedade indiana. Crentes e responsáveis religiosos mais conservadores têm garantido que nenhuma mulher entra naquele local de culto, apesar da decisão judicial no sentido contrário.  

Bindu e Kanakdurga, duas mulheres com cerca de 40 anos, entraram esta quarta-feira no Templo de Sabarimala às 3h45 locais (22h15 de terça-feira em Lisboa). Vestidas de preto e com proteção da polícia, as duas mulheres entraram de forma apressada e rezaram no local, conta a agência de notícias ANI.  



“Hoje, duas mulheres entraram no Templo de Sabarimala. Nós tínhamos emitido ordens permanentes à polícia para que fornecesse toda a proteção possível a qualquer mulher que queira entrar no Templo”, afirmou Pinarayi Vijayan, ministro-chefe do Estado indiano de Kerala. 

Na terça-feira, milhares de mulheres formaram uma corrente humana com mais de 600 quilómetros, uma “muralha de mulheres” entre Kasargod e Trivandrum (ao longo do Estado de Kerala), em defesa da igualdade de género que é apoiada pelo Governo, ainda que o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, enfatize que a permissão de entrada de mulheres no Templo é uma “questão religiosa e de tradição”.

O Partido do Povo Indiano (conhecido pela sigla BJP, de Bharatiya Janata Party), força política conservadora de direita que está no poder daquele país desde 2014, opõe-se à entrada de mulheres no Templo de Sabarimala e vão manter o local fechado na quinta-feira em sinal de protesto.  
Protestos violentos
Já esta quarta-feira, o Templo esteve fechado para “rituais de purificação” após a entrada das duas mulheres às primeiras horas do dia.

“O templo foi fechado para um ritual de limpeza após este incidente, em que duas mulheres entraram no templo à força”, segundo confirmou à imprensa Rahul Easwar, o presidente do Exército Religioso Ayyappa (Ayyappa é o deus hindu do crescimento, extremamente popular em Kerala).   

Por outro lado, as forças políticas locais, do Partido Comunista da Índia, que governam atualmente o Estado de Kerala, defendem o direito à entrada das mulheres naquele santuário.   

Já esta quarta-feira, a polícia indiana usou gás lacrimogéneo, granadas com efeito atordoador e canhões de água para dispersar um protesto de tradicionalistas hindus. Houve mesmo confrontos entre protestatários conservadores e responsáveis locais.  

Segundo a tradição hindu, as mulheres estão impedidas de entrar em grande parte dos locais de culto durante o tempo menstrual. No entanto, o Templo de Sabarimala era um dos raros locais onde, até há pouco tempo, havia uma interdição absoluta à entrada de mulheres entre os 10 e os 50 anos, ou seja, entre a puberdade e a menopausa.

O site oficial daquele local de culto explica que a interdição das mulheres em idade reprodutiva se deve ao celibato do deus Ayyappa, a divindade que é admirada no templo.
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