Iniciado, em Espanha, julgamento de torturador argentino Adolfo Scilingo

Adolfo Scilingo, acusado de tortura, terrorismo e genocídio durante a ditadura militar na Argentina (1976- 1983), começou hoje a ser julgado em Madrid, tornando-se na primeira pessoa julgada em Espanha por crimes contra a humanidade cometidos noutro país.

Agência LUSA /

A primeira sessão do julgamento, realizada na Audiência Nacional (mais alta instância penal espanhola), começou com mais de uma hora de atraso porque Scilingo, em greve de fome desde 08 de Janeiro, se sentiu mal na sua cela e teve de ser assistido por uma equipa médica antes de ser transportado, de ambulância, para o tribunal.

Visivelmente enfraquecido, pálido e com os olhos semicerrados, Scilingo, de 58 anos, entrou na sala de audiências amparado por dois polícias e murmurou palavras ininteligíveis enquanto um dos membros do colectivo de três juízes lia as acusações de que é alvo e pelas quais as partes civis exigem uma pena de prisão que totaliza 6.626 anos.

O colectivo decidiu então suspender a audiência para que uma equipa médica voltasse a observar o acusado e a sessão foi mais tarde retomada, com Scilingo de regresso à sala do tribunal numa cadeira de rodas.

Adolfo Scilingo tinha sido observado cerca de duas horas antes, depois da indisposição na cela, por um médico que concluiu que, "do ponto de vista médico-legal", o acusado "está em condições de comparecer no tribunal", apresenta "um discurso e uma linguagem coerente (e) compreende onde está", segundo um excerto do relatório lido pelo juiz presidente, Fernando Garcia Nicolas, no início da audiência.

Scilingo viajou de livre vontade para Espanha em 1997 para testemunhar perante o juiz Baltasar Garzón, que desde 1990 dirige em Espanha os processos sobre violações dos direitos humanos na Argentina e Chile e foi nomeadamente quem ordenou a prisão de Augusto Pinochet em Londres em 1998.

Nesse testemunho, este antigo oficial da Marinha argentina confessou ter lançado de um avião 30 dissidentes drogados e despidos sobre o Oceano Atlântico, uma "medida" usada durante a ditadura e que ficou conhecida como "voos da morte".

O juiz Garzón ordenou então a sua detenção e acusou-o formalmente do crime, mas Scilingo retractou-se mais tarde desse testemunho e lutou contra a sua comparência em tribunal. A greve de fome que realiza insere-se nesse protesto.

Entre 1976 e 1977, Adolfo Scilingo pertenceu à Escola de Mecânica da Marinha (Esma), considerado um dos piores centros de detenção do regime militar e por onde passaram, segundo as organizações de defesa dos direitos humanos, 5.000 dos 30.000 mortos e desaparecidos durante a ditadura.

À porta da Audiência Nacional, hoje de manhã, manifestantes argentinos mostravam faixas denunciando a ditadura militar argentina pelo desaparecimento de 30.000 pessoas e o roubo de 5.000 bebés filhos de opositores.

A acusação formal do juiz Garzón contra Scilingo e dezenas de outros suspeitos defende o argumento de que o regime argentino tentou sistematicamente eliminar todo um grupo de pessoas - os seus opositores - e que este crime é caracterizável como "tentativa de genocídio".

Oficialmente, mais de 13.000 pessoas desapareceram durante a chamada "guerra suja" argentina. Segundo as organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, no entanto, esse número ascende a 30.000.

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