"Injustiça secular". Deputado italiano quer que filhos tenham apenas apelido materno

"Injustiça secular". Deputado italiano quer que filhos tenham apenas apelido materno

Dario Franceschini, senador do Partido Democrático italiano, propôs que os bebés nascidos no país passem a receber apenas o apelido da mãe, considerando esta mudança "uma compensação por uma injustiça secular" que diz ter sido "uma das fontes culturais e sociais das desigualdades de género".

Joana Raposo Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Atualmente, em Itália as crianças recebem os apelidos materno e paterno pela ordem de preferência dos pais. Foto: Omar Lopez - Unsplash

Dario Franceschini anunciou numa reunião do seu partido, na terça-feira, a intenção de apresentar um projeto de lei para que os filhos recebam apenas o apelido materno, “depois de séculos em que os filhos receberam o apelido do pai” como último nome.

Em 2022, o Tribunal Constitucional italiano determinou que a prática de atribuir automaticamente aos recém-nascidos o apelido do pai em último lugar era “discriminatória e prejudicial à identidade da criança”.

Por essa razão, a Justiça decidiu que os apelidos materno e paterno deveriam ser dados pela ordem de preferência dos progenitores, a menos que ambos concordassem em dar apenas um dos apelidos ao filho.

Agora, Franceschini, que já foi ministro da Cultura, quer ir ainda mais longe, deixando cair totalmente o apelido paterno.

A oposição não demorou a contestar a ideia do democrata, começando por Matteo Salvini, líder do partido de extrema-direita Lega. “Eis as grandes prioridades da esquerda italiana”, escreveu nas redes sociais.

“Em vez do sistema de duplo apelido, querem tirar às crianças o apelido do pai! Claro, vamos apagar os pais da face da Terra, assim resolvemos todos os problemas. Onde é que vão buscar estas ideias geniais?”, questionou Salvini.


Em resposta, a eurodeputada do Partido Democrático Annalisa Corrado afirmou que “para Salvini, dar aos filhos o apelido da mãe significa apagar os pais da face da Terra”, portanto “ele admite que, durante séculos, as mulheres foram sistematicamente apagadas da história e da memória formal das suas famílias”.

Já a senadora do italiano Movimento 5 Estrelas (M5S), Alessandra Maiorino, disse ter “saltado da cadeira” quando soube da intenção de Dario Franceschini.

“Interpreto a sua proposta como uma provocação”, declarou. “Até porque não se combate uma discriminação, por mais antiga que seja, com outra discriminação”.

Para Federico Mollicone, do partido da primeira-ministra Giorgia Meloni, a proposta representa uma mudança “do patriarcado para o matriarcado”, pelo que as crianças devem continuar a receber os dois apelidos.

Cesare Mirabelli, presidente emérito do Tribunal Constitucional, disse acreditar que o projeto de lei de Franceschini “será criticável e impugnável por inconstitucionalidade, pois introduz uma desigualdade”.

c/ agências
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