Irão assinala 40.º aniversário da crise de reféns na Embaixada norte-americana

Nas ruas de Teerão, tal como noutras cidades do país, milhares de pessoas celebram esta segunda-feira os quarenta anos da tomada de reféns da Embaixada dos Estados Unidos, que se iniciou a 4 de novembro de 1979. Foi este evento que esteve na origem de uma rutura total das relações entre os dois países que vigora até aos dias de hoje. As celebrações acontecem num momento de tensão exacerbada entre os dois países, com o Irão a anunciar hoje mesmo o desenvolvimento de novos equipamentos que violam o que foi estabelecido pelo acordo nuclear de 2015.

Andreia Martins - RTP /
Abedin Taherkenareh - EPA

Quatro décadas depois, os longos 444 dias da crise de reféns na Embaixada norte-americana continuam a ter um papel proeminente na forma como os dois países envolvidos se percecionam.

Nas ruas da capital iraniana, as bandeiras queimadas, as sátiras a Donald Trump e os gritos de “morte à América” fizeram-se ver e ouvir esta segunda-feira, dia em que se assinala o 40.º aniversário desde a tomada de reféns da Embaixada norte-americana em Teerão. 

Junto ao edifício da antiga representação norte-americana, homens, mulheres e crianças desfilaram para assinalar um episódio primordial que marcou o fim das relações diplomáticas entre os dois países e um dos principais eventos no processo de fundação da República Islâmica. 

“Os Estados Unidos são como um escorpião venenoso mortal, que só param de irritar quando são esmagados. A hostilidade deles para connosco vai continuar. O nosso único caminho a seguir é manter o espírito revolucionário”, disse o general Abdulrahim Mousavi, comandante em chefe do Exército iraniano.  

Fazendo eco de recentes declarações do ayatollah Ali Khamenei, o general enfatizou que qualquer discussão ou negociação com os Estados Unidos seria aceitar “a submissão e a derrota”.
Com um pé fora do acordo

A efeméride é assinalada num momento histórico em que os dois países voltaram aos discursos violentos e aos ataques diretos de parte a parte. No ano passado, em maio de 2018, os Estados Unidos anunciaram a retirada unilateral do acordo sobre o programa nuclear iraniano, assinado por várias potências em 2015.  

Este entendimento, a que se chegou ainda durante a Administração Obama, foi amplamente criticado pelo sucessor, Donald Trump, que o considerava ineficaz no controlo e supervisão do poderio nuclear e regional de Teerão. 

Com a saída do acordo, Washington voltou a impor pesadas sanções à República Islâmica, que tinham sido retiradas em troca da aceitação de limitações nucleares e de inspeções regulares por parte da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA). A nova Administração norte-americana impôs também um embargo ao petróleo iraniano, bem como a todos os parceiros e países que continuassem a negociar com os iranianos. 

Um ano após a saída dos Estados Unidos, foi a vez de Teerão anunciar que começaria a violar gradualmente os compromissos assumidos no âmbito do acordo, caso os restantes signatários não conseguissem colmatar as desvantagens e problemas com que a economia iraniana se deparou após a decisão de Donald Trump de sair do acordo, também assinado por França, Reino Unido, Alemanha, Rússia e China. 

Em julho, o Irão começou por aumentar o stock de urânio enriquecido, desrespeitando os limites de armazenamento impostos pelo acordo.  

Hoje mesmo, o Governo iraniano anunciou que vai começar a utilizar 30 novas centrífugas nucleares IR-6 para o enriquecimento de urânio, sendo que, de acordo com o JCPOA (Joint Comprehensive Plan of Action), os responsáveis iranianos apenas podem utilizar até 5.060 centrífugas IR-1, de primeira geração, que têm muito menor capacidade de produção. 
“Ninho de espiões”
A nova violação do acordo surge nesta data simbólica para o regime em que vários iranianos saíram à rua em demonstrações “antiamericanas”. Junto à antiga Embaixada norte-americana, o “Grande Satã” na visão dos iranianos, ouviram-se gritos de “morte à América” ou “abaixo os Estados Unidos”. 

Os eventos que começavam há exatamente 40 anos continuam a envenenar as relações entre os dois países, que por alguns anos, entre 2013 e 2017, estiveram recentemente perto de uma reaproximação, desde a eleição de Hassan Rouhani e o início da negociação do acordo até à tomada de posse de Donald Trump.

Mas o que aconteceu realmente naqueles dias traumatizantes de 1979? 

A Revolução Islâmica tinha explodido no início desse mesmo ano. Desde 1978 que os iranianos contestavam abertamente nas ruas o regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, enfrentando para isso a violenta polícia política, a SAVAK. 

Quando, em janeiro, o último Xá do Irão abandona o país, abre-se o espaço para o novo regime e para o regresso do exílio daquele que viria a ser o primeiro ayatollah, Ruhollah Khomeini. 

Os meses seguintes são conturbados. O ódio dos iranianos revolucionários que se rebelaram contra Pahlavi já remontava ao golpe de 1953, que colocou o Xá de novo no poder, numa operação amplamente apoiada pela CIA que depôs o único líder iraniano eleito democraticamente, Mohammad Mosaddegh.
 
O rancor só cresceu ainda mais quando, no final de outubro de 1979, o Presidente norte-americano Jimmy Carter deu aval à entrada de Pahlavi nos Estados Unidos, uma vez que o antigo Xá tinha um cancro e necessitava de tratamentos médicos específicos.

Na altura, o Departamento do Estado norte-americano admitiu que a resposta iraniana a esta afronta poderia ser, precisamente, a tomada da Embaixada em Teerão. 

E foi o que aconteceu. A 4 de novembro de 1979, um grupo de 300 a 400 estudantes, que apoiavam a revolução em curso, atacou e ocupou de forma repentina a representação norte-americana em Teerão, fazendo reféns de alguns dos ocupantes. 

Para os libertar, os atacantes exigiam aos Estados Unidos a extradição imediata de Pahlavi, permitindo que fosse julgado em Teerão. Nesta altura, mais de 60 norte-americanos estavam nas mãos dos revolucionários, apoiantes de Khomeini. Alguns seriam libertados, mas 52 ficaram cativos por mais 444 dias. 

A ocupação da Embaixada veio dar fulgor ao impulso revolucionário que tinha esmorecido ao longo dos últimos meses e confirmou o lugar central do ayatollah no novo regime, que se radicalizou com este episódio e com a chegada ao poder do Conselho da Revolução.  

Ao fim de longos meses de negociações e embargos, o Presidente norte-americano Jimmy Carter cortou as relações diplomáticas entre os dois países em abril de 1980. Nesse mesmo mês, os norte-americanos lançaram a operação “Eagle Claw”, que tinha por objetivo resgatar os reféns, mas que acabou com a morte de oito soldados.  

Pahlavi, que tinha estado na origem da querela entre norte-americanos e iranianos, morreu entretanto no Cairo, a 27 de julho. No entanto, os atacantes continuaram sem libertar os reféns e garantiram que estes só seriam libertados após a devolução a Teerão de todos os bens do último Xá.

Pressionados pelas sanções e condenações internacionais, bem como pelo início da guerra mortífera com o Iraque, que duraria oito anos, o regime iraniano chegou a acordo com os Estados Unidos para a libertação dos reféns através da mediação diplomática dos argelinos. Um dia após a saída de Jimmy Carter e da tomada de posse de Ronald Reagan, a 19 de janeiro de 1981, a crise na Embaixada terminou.  

Até hoje, a antiga representação norte-americana continua a ser conhecida como “ninho de espiões”, tal como era nos tempos revolucionários. Desde 2013 que o local acolhe mesmo um museu, o “Ninho de Espiões Americanos”, onde várias esculturas e fotografias lembram e diabolizam o que classificam como “opressão” dos norte-americanos no Médio Oriente e no Irão.  
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