Irão está longe de ser capaz de produzir uma bomba nuclear - Hans Blix
O antigo chefe dos inspectores da ONU que procuravam armas de destruição maciça no Iraque, Hans Blix, estimou hoje que o Irão precisará de anos para atingir uma capacidade nuclear que lhe permita fabricar uma bomba.
"São anos até serem capazes de converter o urânio enriquecido em bomba", declarou, numa entrevista à rádio pública sueca Sveriges Rádio (SR).
Os Estados Unidos e a União Europeia apelaram por diversas vezes ao Irão para cessar as actividades de enriquecimento e de tratamento do combustível nuclear, temendo que o país tente dotar-se da arma nuclear.
Por seu lado, o Irão assegura que o seu programa de enriquecimento de urânio tem apenas fins pacíficos - a produção de electricidade.
O anúncio, quarta-feira, do fornecimento ao Irão dentro de meses de combustível russo para alimentar a central de Bouchehr, no sul do país, exacerbou os receios internacionais de que a central seja uma cobertura para o fabrico de armas.
A Rússia e o Irão assinaram um acordo para o fornecimento de combustível destinado à central por um período de 10 anos. O Irão comprometeu-se a reenviar para a Rússia o combustível usado.
Hans Blix considera que as inquietações em torno desta central são exageradas, sublinhando que, embora a sua estrutura tenha sido construída pela alemã Siemens antes da guerra entre o Irão e o Iraque, a Rússia só interveio depois do fim da guerra, fornecendo uma tecnologia militar de fraco nível.
"É o mesmo que meter um motor de Lada num Mercedes", gracejou o antigo director da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), acrescentando que os reactores que utilizam água leve não são os ideais para fabricar plutónio.
"Isso é possível, mas muito difícil. A forma habitual de proceder é ter um reactor de pesquisa", explicou o perito sueco.
Embora Teerão tenha previsto a construção de um reactor de pesquisa de 40 megawatts, Blix insistiu que os projectos do Irão são ainda pouco avançados para suscitar grandes inquietações.
"O que é perturbador e perigoso é que eles adquiriram a capacidade de enriquecer urânio a partir do seu próprio urânio que retiram do solo", prosseguiu.
Blix reconheceu que é difícil acreditar nas declarações de Teerão, segundo as quais o país vai enriquecer urânio apenas para produção de electricidade.
"Se sabe enriquecer em cinco por cento, sabe enriquecer em 85 por cento", prosseguiu.
Todavia, "serão precisos ainda 10 anos" antes de isso representar uma ameaça, concluiu.
Hans Blix, antigo diplomata sueco, fora encarregado de dirigir a equipa de investigação de armas de destruição maciça (ADM) no Iraque, durante as 15 semanas que precederam a invasão norte-americana.
Blix dirige actualmente uma comissão internacional independente sobre as ADM, que procura meios de limitar a proliferação das armas nucleares, químicas e biológicas e desarmar os países que possuam já estas armas.