Irão só ratifica Acordo de Paris se sanções forem levantadas

Localizado na região do Mediterrâneo Oriental, no Médio Oriente, o Irão é um dos países considerados mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas e, por isso, a delegação iraniana presente na Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas apelou à necessidade de o país ter de agir de forma eficaz para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa e investir nas energias renováveis. Teerão assumiu na COP26 que não pretende ratificar o acordo climático de Paris, aprovado em 2015, enquanto não forem levantadas as sanções internacionais, impostas devido ao seu controverso programa nuclear.

Inês Moreira Santos - RTP /
Leonhard Foeger - Reuters

O Irão é o oitavo maior emissor de dióxido de carbono do mundo mas, ao mesmo tempo, é um dos poucos países que não aderiu ao Acordo de Paris.

"O Irão já está a ser afetado pelas alterações climáticas, como a maioria dos países", afirmou à Ali Salajegheh, diretor da Agência iraniana de Proteção Ambiental (APA).

Embora as emissões poluentes do Irão tenham aumentado nos últimos anos e o país já esteja a enfrentar escassez de água, como consequência do aquecimento global, o Governo considera que só pode tomar medidas eficazes se a questão das sanções internacionais for resolvida.

"As nossas chuvas anuais são menores e o fluxo de água dos nossos rios diminuiu 40 por cento, o que está a afetar a nossa agricultura, assim como a quantidade de água para uso industrial e potável para consumo", indicou o representante iraniano.

Mas, nas palavras de Salajegheh, a questão do Acordo de Paris deve ser uma "via de duas mãos", ou seja, benéfico nos dois sentidos.

"Quando se está sujeito a sanções opressoras não é possível fazer qualquer tipo de importação, nem mesmo de medicamentos, o que é considerado um direito humano fundamental".

Por isso, se as sanções internacionais forem levantadas, pode haver "um compromisso com a comunidade internacional".

"A partir desse momento, podem enviar-nos a tecnologia moderna e o financiamento, especialmente para as energias renováveis, para que possamos modernizar as nossas infraestruturas".
Com sanções, não há Acordo
O diretor da APA quis deixar claro que a principal mensagem de Teerão na cimeira climática passa pela necessidade de os países se comprometerem a discutir, "como uma prioridade", o levantamento das sanções contra o Irão.

"Se o Irão terminasse o processo de adesão ao Acordo de Paris, não seria capaz de implementá-lo ou de desfrutar dos seus benefícios por causa das sanções. Como pode então envolver-se [neste tratado]? O Irão não retira nenhum benefício disso", declarou Ali Salajegheh.

"Para que o Irão assine e se comprometa [com o acordo], a primeira condição passa pelo levantamento das sanções opressoras", acrescentou em declarações à margem da 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow (Escócia, Reino Unido).

Nesse sentido a principal mensagem do Governo iraniano é apelar a que os países se comprometam a "discutir o levantamento das sanções contra a República Islâmica do Irão como uma prioridade".

Segundo o responsável, "a pré-condição do Irão para reduzir a emissão de gases de efeito de estufa em quatro por cento até 2030 é o levantamento de todas as sanções, visto que o custo para o país atingir essa meta seria de 56 mil milhões de dólares".
Compromissos climáticos do Irão
Em 2015, quando foi aprovado o Acordo de Paris, o Irão comprometeu-se a reduzir as emissões de dióxido de carbono mesmo que as sanções se mantivessem. Contudo, de acordo com uma análise divulgada pela BBC, aconteceu exatamente o contrário: a poluição por carbono aumentou e as ações do país para enfrentar as alterações climáticas foram consideradas, pelo Climate Action Tracker, "criticamente insuficientes".

A verdade é que Teerão não apresentou nenhum plano de redução de emissões de CO2 desde 2015 e os especialistas climáticos receiam que as emissões iranianas aumentem 50 por cento até 2030.

"O que dissemos, na altura, é que reduzíamos em 12 por cento as emissões se as sanções fossem levantadas. As sanções mantiveram-se", frisou Salajegheh.

Mas o diretor da APA salientou ainda outra questão: o Irão depende muito das exportações de petróleo e gás, e terá de se adaptar quando os combustíveis fósseis acabarem.

"O petróleo e o gás vão acabar um dia, mas se os usarmos de uma forma que reduza as emissões ao mínimo, podemos usá-los, assim como as energias renováveis", disse.

A maioria dos Governos e organizações presentes na COP26 têm discutido formas de enfrentar as alterações climáticas, evitar que as temperaturas globais aumentem mais de 1,5ºC e ações para reduzir as emissões poluentes. Mas o espaço para debate com o Irão sobre a crise climática tem sido limitada, uma vez que a delegação iraniana assume que pretende relembrar que as sanções têm de ser levantadas para se comprometer com o Acordo de Paris.

"Viemos aqui para dizer que o Irão é uma nação envolvida com o mundo inteiro. Somos todos parte desta aldeia global e podemos ajudar-nos uns aos outros", disse o chefe da delegação. "Estamos bloqueados pelo terrorismo económico, viemos apelar a que removam as sanções para nos podermos envolver com o mundo e, a partir daí, ter a certeza de que faremos parte [do Acordo de Paris]".

A COP26 decorre seis anos após o Acordo de Paris, que estabeleceu como meta limitar o aumento da temperatura média global do planeta a entre 1,5 e 2 graus celsius acima dos valores da época pré-industrial.

Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que, ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7º C.


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