Irlandeses marcham contra FMI e pacote de austeridade

Irlandeses marcham contra FMI e pacote de austeridade

Milhares de irlandeses marcharam, em Dublin, contra o plano de austeridade imposto pelo Governo para obter o auxílio do fundo da União Europeia e do FMI (UE-FMI). Lamentam que tenham de suportar os riscos assumidos pelos bancos. Esta será a primeira de muitas iniciativas de protesto, garantem os líderes da marcha. Os ministros das Finanças dos 27 reúnem-se domingo, em Bruxelas, para aprovar os 85 mil milhões de euros para Dublin.

RTP /
A Irlanda mergulhou teve que pedir a intervenção da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional Enda Doran, EPA

Cerca de 50 mil irlandeses enfrentaram o frio e a neve para, na tarde de sábado, protestar contra as medidas de austeridade. Estes são os números da polícia, mas nas contas dos sindicatos, que foram os promotores do protesto, aderiram 100 mil pessoas.

Desde o cais do Rio Liffey até ao General Post Office, no centro de Dublin, onde em 1916 foi lida a declaração de independência, contestaram o plano de cortes anunciado. Segundo o presidente do principal sindicato irlandês, as medidas anunciadas pelo Governo de Brian Cowen são "uma declaração de guerra contra os trabalhadores menos bem pagos".

Marian Hamilton, uma irlandesa de 57 anos, exprimia as principais preocupações de quem aderiu ao protesto. "Os cortes orçamentais não são necessários. Salvamos os bancos, não salvamos a Irlanda. Os bancos é que deviam sofrer, devíamos deixá-los cair", afirmava, enquanto marchava com receio de ver reduzido o seu subsídio por deficiência e com a guarda de um neto.

“É preciso mudar de governo", enviar "uma mensagem clara" ao primeiro-ministro, acrescentava por seu lado um outro manifestante, funcionário da câmara municipal de Dublin. "Os meus rendimentos baixaram vários milhares de euros em dois anos, já não me chegam para viver", queixava-se.

Durante o desfile, os manifestantes entoaram as palavras de ordem "Nós somos o povo, nós temos os votos" e empunhavam cartazes onde se lia "Há um caminho mais justo" ou "A Irlanda não está à venda, não ao FMI".

Governo quer cortar 15 mil milhões em quatro anos
O governo irlandês apresentou quarta-feira um plano para uma redução orçamental de 15 mil milhões de euros até 2014. O objectivo é reduzir o défice irlandês, actualmente em 32 por cento do PIB, para três por cento.

Entre as medidas anunciadas incluem-se uma subida dos impostos, cortes no subsídio de desemprego e abono de família, nas pensões e no salário mínimo. Cerca de 25 mil funcionários públicos vão ser despedidos.

A imprensa irlandesa refere que o empréstimo da UE-FMI poderá ter uma taxa de juro de 6,7 por cento. Em Maio, foi aplicada à Grécia uma taxa de 5,2 por cento pelo empréstimo de 100 mil milhões.

Números entretanto rejeitados pelo ministro irlandês das Comunicações. "Penso que esse número é incorrecto. E foi infeliz, porque assustou muita gente", disse Eamon Ryan à rádio RTE, sem avançar um valor para a taxa de juro a ser cobrada à Irlanda. Sejam quais forem as condições acordadas, "têm de fazer sentido para a Irlanda, para que possa pagar" o empréstimo", acrescentou o ministro.

Ajuda à Irlanda pode ser aprovada domingo
Os ministros das Finanças dos 27 reúnem-se de emergência, amanhã, em Bruxelas, por causa do plano de auxílio à Irlanda. Na agenda de trabalho está a aprovação dos 85 mil milhões de euros e definir as condições a impôr à Irlanda em troca do pacote de ajuda.

Uma agenda confirmada pelo ministro irlandês das Comunicações. Afirma Eamon Ryan que as partes envolvidas nas negociações, que tiveram início há 10 dias, querem fechar pelo menos "as linhas gerais de um acordo". As condições do empréstimo da UE-FMI deverão ser divulgadas antes da reabertura dos mercados na segunda-feira.

A decisão de pedir ajuda internacional e as medidas de austeridade anunciadas no início da semana levaram à queda do actual Governo.

O primeiro-ministro Brian Cowen afirmava terça-feira que só se demite após fazer aprovar o Orçamento do Estado, mas já anunciou a intenção de “proceder depois à dissolução do parlamento para permitir às pessoas determinar em quem querem confiar a responsabilidade do governo para o difícil período que se segue".
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