Mundo
Irmão de Merah no centro das investigações francesas
O debate sobre a atuação das forças de segurança francesas em todo o caso de Mohamed Merah está ao rubro. As investigações anti-terroristas prosseguem, centradas agora no irmão do suspeito, para tentar determinar se os dois homens integravam uma célula terrorista ou se tinham apoios.
"O irmão dele está no centro da investigação para reconstituir o
percurso de Mohamed Merah e tentar determinar se existe ou não uma
estrutura por detrás deles", afirmou um fonte próxima do inquérito.
Abdelkader Merah, de 29 anos, reconheceu apenas ter assistido ao roubo da scooter usada por Mohamed nos ataques e afirmou-se "orgulhoso" do irmão. Mas garante que nada sabia dos planos do irmão mais novo e as buscas à sua residência e aos seus computadores nada revelaram de incriminatório.
Transferidos
A polícia já sabia que o e-mail que aparentemente preparou uma emboscada à primeira vítima, um soldado paraquedista, foi enviado do computador de Abdelkader. E terá sido ele a sustentar Mohammed, bem acima das possibilidades materiais do jovem.
Detidos preventivamente desde quarta-feira, Abdelkader e a companheira foram transferidos este sábado para a sede da subdireção anti-terrorista de França, em Levallois-Perret, perto de Paris.
A mãe dos dois suspeitos, detida igualmente há vários dias, foi libertada sexta-feira à noite e afirma-se mesmo "envergonhada e cheia de culpa."Estado "escarlate" levantado
As autoridades francesas deram ao início da tarde por terminado o plano de segurança terrorista, colocado ao nível excecional "escarlate" (o mais grave) na região de Toulouse desde segunda-feira passada.
Horas antes o Presidente Nicolas Sarkozy reuniu os mais altos responsáveis pela segurança do país para perceber o que poderia ter sido feito de forma diferente.
Os irmãos Merah já estavam referenciados como radicais islâmicos pelas autoridades francesas, sobretudo Mohamed, a quem se conhecia um perfil agitador. Abdelkader é considerado ainda mais severo religiosamente do que o atirador.
Agora, pergunta-se porque nada foi feito para os vigiar e controlar mais de perto.
Antecendentes radicais
O ministro do Interior de França já tinha caracterizado Mohamed, de 23 anos, como um "pequeno delinquente" radicalizado no seio de "um grupo de ideologia salafista" de Toulouse, mas que as autoridades não consideravam suspeito de projetos criminosos.
Abdelkader foi investigado em 2007 como "implicado" numa cadeia de encaminhamento de jihadistas para o Iraque, embora não tenha sido acusado, afirmara já quarta-feira o procurador da república francês François Molins.
O pai de um dos homens, então detidos na Síria, tinha ligações familiares à mãe dos irmãos Merah. E todos frequentaram igualmente um imã franco-sírio, Olivier Corel, de 65 anos, em Ariége, no sudoeste de França.
20.000 euros pelas armas
Mohamed espalhou o terror em Toulouse entre os dias 11 e 19 de março, tendo assassinado sete pessoas, em três ataques a tiro à queima-roupa. Os alvos foram judeus e soldados paraquedistas franceses oriundos no norte de África e das Antilhas.
Aos negociadores da sua rendição Mohamed afirmou que tinha agido sozinho. Disse ainda que tinha adquirido as armas "graças a assaltos e roubos à mão-armada, que fazia para conseguir dinheiro," afirmou o coordenador geral dos serviços de informação, Ange Mancini, na televisão BFM-TV.
Mohamed disse ainda que "pagou cerca de 20.000 euros" pelas armas, acrescentou Mancini que garantiu que "as armas vão também falar por elas mesmas. Teremos a pouco e pouco elementos que vão dar crédito ou desmentir estas declarações."
A polícia já identificou a arma usada nos três ataques, uma pistola automática Colt 45, encontrada nas buscas a um automóvel de pequena cilindrada.
Criticas severas à operação do RAID
Outras críticas analisam também as razões que levaram ao cerco, a duração deste e finalmente o assalto final, que resultou na morte do suspeito e nos ferimentos de vários agentes.
Há quem defenda que o RAID, um grupo de intervenção de elite, deveria ter armado uma ratoeira a Mohammed Mareh, tentando apanha-lo fora do apartamento. O resultado desse primeiro erro foram dois polícias feridos, segundo Christian Prouteau, criador do Grupo de Intervenção da Polícia Nacional francesa.
Pior, segundo os críticos, face a esta reação do suspeito, foi dada ordem de retirada e de cerco com negociações para rendição.
A pergunta que faz um antigo líder da unidade de intervenção israelita, Alik Ron, é porque se esperaram 32 horas para o assalto final, "dado que não havia reféns"? Alik Ron não hesita em classificar toda a operação como "semelhante a uma demonstração de estupidez."
Exposição mediática
O tempo que demorou o cerco deu várias vantagens a Mohamed Merah, sublinham diversos críticos. Deu-lhe tempo para se organizar de forma a enfrentar um assalto cada vez mais certo. Ganhou ainda tempo para eventuais cúmplices puderem fugir ou, pelo menos, destruírem provas.
Por outro lado, o assassino obteve exposição mediática e conseguiu, através de um jogo de promessas de rendição e de garantias de que não queria morrer, enganar as autoridades. No final, morreu, como queria, de armas na mão e a disparar, ferindo mais três agentes. É necessário perceber agora se a sua figura não poderá tornar-se inspiradora para outros jovens radicais.
Não é só a polícia que é criticada mas também a gestão política da operação. Terá sido ordenado aos agentes para "capturarem vivo" o suspeito no assalto final. No seu blog no jornal Le Monde, George Moréas, Comissário principal honorário da polícia de Paris, nota que a ordem é "quase um insulto", já que os polícias do RAID, o organismo responsável pela operação em Toulouse, não são "assassinos", mas sim "treinados para neutralizar suspeitos." E suficientemente treinados para, em caso de disparar, não atingirem zonas vitais, acrescenta.
Moréas afirma que o próprio chefe do RAID reconheceu ter dado aos seus homens armas não letais. "O que lhes terá complicado seriamente a missão quando se viram sob fogo cerrado," afirma o analista. "Com ou sem ordem, a resposta foi severa. Não me lembro de uma intervenção em que tantos cartuchos tenham sido usados num espaço tão pequeno," conclui Moréat.
Abdelkader Merah, de 29 anos, reconheceu apenas ter assistido ao roubo da scooter usada por Mohamed nos ataques e afirmou-se "orgulhoso" do irmão. Mas garante que nada sabia dos planos do irmão mais novo e as buscas à sua residência e aos seus computadores nada revelaram de incriminatório.
Transferidos
A polícia já sabia que o e-mail que aparentemente preparou uma emboscada à primeira vítima, um soldado paraquedista, foi enviado do computador de Abdelkader. E terá sido ele a sustentar Mohammed, bem acima das possibilidades materiais do jovem.
Detidos preventivamente desde quarta-feira, Abdelkader e a companheira foram transferidos este sábado para a sede da subdireção anti-terrorista de França, em Levallois-Perret, perto de Paris.
A mãe dos dois suspeitos, detida igualmente há vários dias, foi libertada sexta-feira à noite e afirma-se mesmo "envergonhada e cheia de culpa."Estado "escarlate" levantado
As autoridades francesas deram ao início da tarde por terminado o plano de segurança terrorista, colocado ao nível excecional "escarlate" (o mais grave) na região de Toulouse desde segunda-feira passada.
Horas antes o Presidente Nicolas Sarkozy reuniu os mais altos responsáveis pela segurança do país para perceber o que poderia ter sido feito de forma diferente.
Os irmãos Merah já estavam referenciados como radicais islâmicos pelas autoridades francesas, sobretudo Mohamed, a quem se conhecia um perfil agitador. Abdelkader é considerado ainda mais severo religiosamente do que o atirador.
Agora, pergunta-se porque nada foi feito para os vigiar e controlar mais de perto.
Antecendentes radicais
O ministro do Interior de França já tinha caracterizado Mohamed, de 23 anos, como um "pequeno delinquente" radicalizado no seio de "um grupo de ideologia salafista" de Toulouse, mas que as autoridades não consideravam suspeito de projetos criminosos.
Abdelkader foi investigado em 2007 como "implicado" numa cadeia de encaminhamento de jihadistas para o Iraque, embora não tenha sido acusado, afirmara já quarta-feira o procurador da república francês François Molins.
O pai de um dos homens, então detidos na Síria, tinha ligações familiares à mãe dos irmãos Merah. E todos frequentaram igualmente um imã franco-sírio, Olivier Corel, de 65 anos, em Ariége, no sudoeste de França.
20.000 euros pelas armas
Mohamed espalhou o terror em Toulouse entre os dias 11 e 19 de março, tendo assassinado sete pessoas, em três ataques a tiro à queima-roupa. Os alvos foram judeus e soldados paraquedistas franceses oriundos no norte de África e das Antilhas.
Aos negociadores da sua rendição Mohamed afirmou que tinha agido sozinho. Disse ainda que tinha adquirido as armas "graças a assaltos e roubos à mão-armada, que fazia para conseguir dinheiro," afirmou o coordenador geral dos serviços de informação, Ange Mancini, na televisão BFM-TV.
Mohamed disse ainda que "pagou cerca de 20.000 euros" pelas armas, acrescentou Mancini que garantiu que "as armas vão também falar por elas mesmas. Teremos a pouco e pouco elementos que vão dar crédito ou desmentir estas declarações."
A polícia já identificou a arma usada nos três ataques, uma pistola automática Colt 45, encontrada nas buscas a um automóvel de pequena cilindrada.
Criticas severas à operação do RAID
Outras críticas analisam também as razões que levaram ao cerco, a duração deste e finalmente o assalto final, que resultou na morte do suspeito e nos ferimentos de vários agentes.
Há quem defenda que o RAID, um grupo de intervenção de elite, deveria ter armado uma ratoeira a Mohammed Mareh, tentando apanha-lo fora do apartamento. O resultado desse primeiro erro foram dois polícias feridos, segundo Christian Prouteau, criador do Grupo de Intervenção da Polícia Nacional francesa.
Pior, segundo os críticos, face a esta reação do suspeito, foi dada ordem de retirada e de cerco com negociações para rendição.
A pergunta que faz um antigo líder da unidade de intervenção israelita, Alik Ron, é porque se esperaram 32 horas para o assalto final, "dado que não havia reféns"? Alik Ron não hesita em classificar toda a operação como "semelhante a uma demonstração de estupidez."
Exposição mediática
O tempo que demorou o cerco deu várias vantagens a Mohamed Merah, sublinham diversos críticos. Deu-lhe tempo para se organizar de forma a enfrentar um assalto cada vez mais certo. Ganhou ainda tempo para eventuais cúmplices puderem fugir ou, pelo menos, destruírem provas.
Por outro lado, o assassino obteve exposição mediática e conseguiu, através de um jogo de promessas de rendição e de garantias de que não queria morrer, enganar as autoridades. No final, morreu, como queria, de armas na mão e a disparar, ferindo mais três agentes. É necessário perceber agora se a sua figura não poderá tornar-se inspiradora para outros jovens radicais.
Não é só a polícia que é criticada mas também a gestão política da operação. Terá sido ordenado aos agentes para "capturarem vivo" o suspeito no assalto final. No seu blog no jornal Le Monde, George Moréas, Comissário principal honorário da polícia de Paris, nota que a ordem é "quase um insulto", já que os polícias do RAID, o organismo responsável pela operação em Toulouse, não são "assassinos", mas sim "treinados para neutralizar suspeitos." E suficientemente treinados para, em caso de disparar, não atingirem zonas vitais, acrescenta.
Moréas afirma que o próprio chefe do RAID reconheceu ter dado aos seus homens armas não letais. "O que lhes terá complicado seriamente a missão quando se viram sob fogo cerrado," afirma o analista. "Com ou sem ordem, a resposta foi severa. Não me lembro de uma intervenção em que tantos cartuchos tenham sido usados num espaço tão pequeno," conclui Moréat.