"Isolamento total" e um período de incubação de 45 dias: assim será a quarentena dos espanhóis do navio de cruzeiro

"Isolamento total" e um período de incubação de 45 dias: assim será a quarentena dos espanhóis do navio de cruzeiro

Os protocolos de repatriamento dos passageiros são rigorosos e o risco global de contágio é baixo. Na ausência de tratamento, os "cuidados atempados" e um rápido acesso a Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) são fundamentais.

Um Olhar Europeu com RTVE /
Michel Van Bergen / AFP



As Ilhas Canárias enfrentam uma situação sanitária excecional com a chegada a Tenerife, nos próximos dias, do MV Hondius, o navio de cruzeiro afetado por um surto de hantavírus que causou três mortos de um total de oito casos. 

Todas as pessoas com sintomas já foram evacuadas, pelo que as cerca de 140 pessoas a bordo estão assintomáticas e de boa saúde, disse a ministra da Saúde, Mónica García, numa conferência de imprensa.

A partir de Tenerife, e após uma primeira avaliação médica, os passageiros serão repatriados para os países de origem, entre os quais os 14 espanhóis a bordo, que ficarão em quarentena no Hospital Gómez Ulla, em Madrid. 

Quais são os passos seguintes? Durante quanto tempo terão de permanecer isoladas as pessoas afetadas? Existe algum risco para a população espanhola? 

A RTVE Notícias analisa a situação com a ajuda de especialistas.
Quarentena de 45 dias
Os passageiros vão ser internados na Unidade de Isolamento e Tratamento de Alto Nível (UATAN) de uma unidade de saúde do Ministério da Defesa, criada após a crise sanitária do Ébola em 2014. 

Não se sabe exatamente quanto tempo ali vão permanencer, mas o período de incubação deste vírus é de cerca de 45 dias, explica a presidente da Sociedade Espanhola de Epidemiologia, Maria João Forjaz, um número também citado por Mónica García.

Será necessário determinar a partir de que dia começa este período, uma vez que, de acordo com as informações da OMS, a doença apareceu no navio entre 6 e 28 de abril.

Alguns especialistas apontaram a possibilidade de reduzir este tempo através da realização de testes serológicos em pessoas assintomáticas para determinar se têm anticorpos e, por conseguinte, se já não estão em risco por terem ultrapassado a doença. No entanto, Forjaz esclarece que tal não é possível, uma vez que "as pessoas sem sintomas não têm qualquer indicador serológico de que a doença se desenvolveu".

A única forma de verificar se tem ou não a doença é, portanto, "monitorizar os sintomas" continuamente"Cuidados atempados", a única curaÉ importante que os passageiros, mesmo que não apresentem sintomas, sejam admitidos num centro de referência como o Hospital Gómez Ulla, onde poderão ser tratados rapidamente e transferidos para os cuidados intensivos, se necessário.

Inicialmente, o doente apresenta sintomas semelhantes aos da gripe, como febre e mal-estar, que podem ser acompanhados de "sintomas gástricos, diarreia ou dores abdominais". 

Nos casos mais graves, há "envolvimento pulmonar", o que obriga a que a pessoa seja tratada numa UCI. O tempo é fundamental: podem decorrer entre três a seis dias desde o aparecimento dos primeiros sintomas até ao desenvolvimento dos mais graves.

Como não há vacina nem cura, o "tratamento atempado" é essencial. Na UCI, é o próprio organismo que combate o vírus e, se o paciente for tratado rapidamente, a taxa de letalidade, que pode chegar a 50%, cai consideravelmente.Qual é o risco para a população?Se não houver novos casos sintomáticos, os passageiros passarão um curto período em Tenerife e todo o processo de repatriamento "não representará qualquer risco para a população das Ilhas Canárias ou para a atividade económica", afirmou a ministra da Saúde na resposta às dúvidas manifestadas pelo Governo Autónomo das Ilhas Canárias.

Serão seguidos protocolos de segurança rigorosos "para minimizar todos os riscos", a começar pela própria escolha do navio para atracar no porto de Granadilla, que é pequeno e tem pouco tráfego, explica a presidente da Sociedade Espanhola de Epidemiologia (SEE), Maria João Forjaz.

Os profissionais de saúde encarregues de atender os passageiros têm os procedimentos habituais, com equipamento de proteção individual completo e "um protocolo para colocar e retirar o equipamento para não se contaminarem e eliminarem tudo corretamente", disse José Gallego Braun, presidente da Associação Espanhola de Médicos de Saúde Estrangeiros (AMSE), ao canal de notícias Canal 24 Hora.

Mesmo que houvesse pessoas infetadas a bordo, o que está excluído por enquanto, o risco de transmissão entre humanos é "extremamente baixo" e limitado apenas à variante dos Andes, que é precisamente a que afetou o navio, de acordo com Nacho de Blas, professor de Patologia Animal na Universidade de Saragoça, em declarações à RTVE Noticias.

No caso da transmissão entre seres humanos, esta ocorre através de um contacto muito próximo, como entre pessoas que vivem juntas ou de um doente para o pessoal de saúde que o assiste, o que é provavelmente o que aconteceu no navio de cruzeiro. Circunstâncias como a deste navio, em que mais de 100 pessoas partilharam pequenos espaços fechados durante mais de um mês, são especiais", diz a presidente da SEE.

Além disso, "há poucos surtos em que se tenha mantido a transmissão terciária, ou seja, em que um caso infetou outra pessoa e essa pessoa infetou outra", adianta Adrian Hugo Aginagalde, porta-voz da Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, Saúde Pública e Gestão da Saúde, ao portal científico Science Media Centre.Roedores podem estar em risco?A OMS já avançou que não há roedores no navio, pelo que é provável que o casal que morreu tenha sido infetado na Argentina antes do navio zarpar. Mas, caso houvesse ratos, seriam eliminados numa eventual exterminação de ratos e, mesmo que isso não acontecesse, tratar-se-ia, em todo o caso, de uma espécie "específica" da Argentina que "não se adaptaria à Europa", segundo De Blas.

Forjaz, por seu lado, salienta que os roedores que transmitem esta doença são ratos selvagens e não as ratazanas comuns que vemos nas nossas cidades.
O que fazer com o barco?
As autoridades espanholas não esclareceram que tipo de ação será tomada com o navio quando estiver vazio. A epidemiologista Maria João Forjaz acredita que a desinfeção pode ser feita por "limpeza húmida", o que é "relativamente simples", após o que o navio de cruzeiro pode retomar as operações em segurança."Não se trata do coronavírus ou do Ébola"Não se trata do coronavírus ou do Ébola, é um vírus conhecido, cujo modo de transmissão é conhecido, e é muito improvável que haja mais contágios", afirma o investigador do Instituto de Saúde Carlos III.

Quando a COVID-19 surgiu, nada se sabia sobre a forma como era transmitida ou qual a população mais vulnerável. O hantavírus, por outro lado, foi identificado há meio século e os casos são monitorizados regularmente.

Trata-se de "um vírus muito letal, mas pouco contagioso", afirma Nacho de Blas. O risco de contágio para a população é muito baixo e, segundo Forjaz, "não há hipótese de termos uma epidemia de hantavírus em Espanha".

Álvaro Caballero 7 maio 2026 06:09 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
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