Já antes de Cristo os romanos usavam tintas metálicas para escrever

Ler das cinzas foi literalmente o que um grupo de cientistas fez, através de um acelerador de partículas, quando usou esta técnica num conjunto de pergaminhos carbonizados pelo Vesúvio no ano 79 a.C.. A descoberta só foi possível porque os romanos, nessa altura, já usavam tinta metálica para escrever.

Nuno Patrício - RTP /
Fragmento do pergaminho romano carbonizado. Foto: Emmanuel Brun/Direitos Reservados

A história da escrita remonta aos primórdios da humanidade quando os primeiros hominídeos utilizaram uma espécie de proto-escrita ao desenharem cenas da vida quotidiana nas paredes das cavernas.

Mais tarde, e com a necessidade de uma ferramenta útil quer na economia quer na sociedade, surgem os primeiros escritos, por volta de 3000 a.C. na região da Mesopotâmia, através dos sumérios - uma escrita baseada na fala adotada mais tarde pelos acádios e que leva a criação dos signos alfabéticos.



Mas a história, reflexo do passado, continua a ser escrita, e agora através de letras, escritas em pergaminho registadas por uma tinta com vestígios metálicos. A surpresa deste achado não existiria se, na história da escrita, a utilização da tinta metálica não estivesse até agora relacionada com a Idade Média.

Ora estas letras agora analisadas remetem-nos para um período bem mais antigo: 79 a.CCinzas do Vesúvio “preservam” pergaminhos até aos nossos dias
Corria o dia 24 de agosto do ano 79 antes de Cristo (a.C.) quando um dos maiores vulcões europeus entrou em erupção riscando do mapa Pompeia e Herculano, bem como milhares de habitantes que viviam nestas duas cidades romanas.

Durante anos, vários investigadores e historiadores recolheram milhares de dados e achados desta região italiana. Entre os vários objetos recolhidos, encontra-se um conjunto de pergaminhos, provenientes da cidade de Herculano, que foram literalmente enterrados e carbonizados pelo potente calor e cinzas provenientes da erupção.

Estes preciosos documentos históricos, descobertos no século XVIII, encontravam-se resguardados devido a um fator que impedia os investigadores de trabalharem sobre tais materiais.

Os pergaminhos eram tão frágeis que qualquer tentativa de os desenrolar e lê-los implicava o sério risco de transformá-los em cinzas.



Agora e através das novas tecnologias, os investigadores usaram uma ferramenta desenvolvida para experiências de física de alta energia - um acelerador de partículas- existente em Grenoble, França.

Com este método os pergaminhos carbonizados foram analisados com recurso a raios x, e qual não foi o espanto quando surgiram algumas letras nas primeiras imagens reveladas.



Após novas análises, os novos resultados mostraram não só as formas das letras, mas também que elas tinham sido escritas com tinta contendo chumbo - uma inovação que se pensava originária de vários séculos mais tarde, na Idade Média, de acordo com um artigo publicado esta quarta feira no Proceedings of National Academy of Sciences e na publicação online Nature.com.Tinta com uma solução com base metálica foi primeiramente usada pelos romanos
Segundo os arqueólogos, os romanos usavam, na elaboração dos seus documentos escritos, tinta à base de carbono proveniente do carvão vegetal.

Mas, com esta descoberta nos pergaminhos de Herculano, outros documentos escritos com tinta de chumbo poderiam fornecer novos dados e dar a conhecer o que estaria escrito em tais preciosidades.



Segundo revelam no artigo publicado os investigadores Vito Mocella e Emmanuel Brun, "a crença comum era que nenhum metal estaria presente em tintas greco-romanas".

Os investigadores dizem mais e explicam que, "neste trabalho, mostramos que o chumbo está presente na tinta de dois fragmentos de papiro de Herculano e a concentração encontrada tão alta que não pode ser explicada apenas pela contaminação. O metal encontrado nestes fragmentos modifica profundamente os nossos conhecimentos dos registos gregos e latim, escritos na antiguidade."
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