Jacob Zuma apela a comunidade portuguesa para «ajudar a fazer um país cada vez melhor»

Joanesburgo, África do Sul, 16 Set (Lusa) - O presidente do Congresso Nacional Africano (ANC, no poder desde 1994), Jacob Zuma, apelou na noite de segunda-feira às comunidades de origem portuguesa, italiana e grega para que ajudem a fazer da África do Sul "um país cada vez melhor".

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Falando às três comunidades no pavilhão da União Cultural Recreativa e Desportiva Portuguesa, no bairro de Rosettenville, no sul de Joanesburgo, Zuma sublinhou que o seu partido se mantém fiel aos princípios estabelecidos na Carta da Liberdade (Freedom Charter no original, um documento, aprovado em 1955, que estabelece o programa político do movimento de libertação), segundo os quais "a África do Sul pertence a todos os que nela vivem, sejam eles brancos ou negros".

Num discurso que abrangeu uma enorme variedade de temas, o provável futuro candidato do ANC à chefia Estado e do Governo nas eleições de 2009 admitiu que o combate à criminalidade é uma das prioridades do partido e do Governo, exortando a polícia e os tribunais a levarem a cabo um combate sem tréguas contra os elementos criminosos da sociedade.

"Temos estratégias definidas para esse combate, mas a verdade é que o país vive sob uma pesada herança do regime do apartheid, que dedicou vastos recursos a reprimir aqueles que lutavam pelos seus direitos políticos e aspirações em vez de os utilizar no combate ao crime", disse Zuma a dado passo do seu discurso, perante três comunidades profundamente afectadas pela criminalidade.

Sugerindo a adopção de novas ferramentas contra o crime, como os comités de rua e os fóruns de cidadãos, o presidente do ANC rejeitou a percepção existente em muitos sectores de que os criminosos gozam de mais direitos do que as vítimas do crime.

Zuma afirmou que o ANC tem grande orgulho na sua política de defesa dos direitos humanos, mas que "ela não tem como beneficiários os criminosos".

Jacob Zuma mobilizou cerca de um milhar de pessoas das três comunidades representadas na organização que promoveu o encontro, a HIP Alliance (Aliança Helénica, Italiana e Portuguesa), fundada por membros das três comunidades com laços com o Congresso Nacional Africano e que serve de ponte entre o partido no poder e as bases comunitárias.

A política oficial de acção afirmativa (ou discriminação positiva), uma das preocupações das comunidades de origem europeia porque limita o acesso ao ensino e ao mercado de trabalho aos cidadãos de raça branca ao mesmo tempo que dificulta às empresas a contratação de quadros técnicos de raça branca uma vez que impõe quotas raciais no tecido humano das empresas, foi explicada por Jacob Zuma como "uma necessidade que deriva da exigência de rectificar as injustiças do passado que não tem prazo-limite nesta altura".

"Ainda não atingimos a fase em que podemos pensar em abandonar a política de acção afirmativa porque aqueles que no passado foram vítimas da infame política de reserva de empregos ainda não beneficiaram em grandes números da nova realidade política", disse Zuma em resposta a preocupações colocadas pelos oradores italiano e grego da HIP Alliance nesta matéria.

Jacob Zuma exortou as três comunidades a "encorajar os seus países de origem a investir na África do Sul e a apostar na formação técnica dos empregados das suas empresas".

"Temos de perceber que muitos dos desempregados do nosso país (a taxa de desemprego situa-se acima dos 30 por cento) o são por falta de habilitações técnicas e formação profissional", recordou o presidente do ANC, que esclareceu que a educação é uma das principais prioridades definidas pelo partido na conferência nacional de Polokwane, em Dezembro do ano passado, que o elegeu presidente do ANC.

Sem responder a perguntas directas da assistência, Zuma dissertou ainda sobre o papel da comunicação social na democracia sul-africana, exortando os media a noticiarem com equilíbrio e sentido de justiça.

Elogiando a independência do sistema judicial, depois de um tribunal de Pietermaritzburg ter anulado as acusações contra si levantadas pela Procuradoria por suspeita de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro, Jacob Zuma lançou várias "indirectas" ao Presidente da República, criticando aqueles que utilizam o poder para condenar os mais fracos nos tribunais.

"A nossa confiança no sistema saiu reforçada quando vimos que os juízes conseguem interpretar as leis sem preconceitos nem parcialidade e sem ceder aos abusos das pessoas que detêm o poder", referiu Zuma.

José do Nascimento, um advogado de origem madeirense que desempenha funções directivas na HIP Alliance, falou na abertura da sessão sobre os desejos e aspirações dos portugueses e luso-descendentes residentes na África do Sul, destacando o grande sentido humanitário da comunidade e a excelência de muitos dos seus membros nas áreas técnica, artística e da solidariedade social.

AP.


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