"Jamaika" falha, Alemanha vai continuar sem governo

por RTP

Não foi porque se tivessem precipitado: os negociadores dos quatro partidos que fariam uma coligação com as cores da bandeira jamaicana levaram quatro semanas a negociar esse inédito da história política alemã. No final, a montanha pariu um rato e o país vai continuar sem governo para o futuro previsível.

"Jamaika", se tivesse visto a luz do dia, seria uma coligação tricolor: negra para o bloco conservador social-cristão e democrata-cristão (CSU e CDU);  amarela para os liberais (FDP); e verde para o partido com o nome da cor. Seria inédita, porque os Verdes tinham nascido nos anos 1980 como partido de esquerda, e porque a viragem à direita, mesmo assim dramática, que se tinham mostrado capazes de fazer a nível federal fora, até aqui, com os social-democratas (SPD).
Jamaika a nível regional

Sob a liderança do democrata-cristão Klaus Schlie, há uma coligação "Jamaika" no land Schleswig-Holstein.

Essa viragem tinha levado os Verdes a subscreverem na primeira década do século o pacote de medidas neo-liberais conhecido por Agenda 2010 e tinha levado o seu líder, Joshka Fischer, a tornar-se um pivot internacional da política da NATO.

No cargo de MNE, Fischer rompeu um tabu alemão que só um partido com pergaminhos pacifistas podia dar-se ao luxo de romper: adoptar uma política de guerra sempre que a NATO a tinha na agenda.

Faltava ver os Verdes a fazerem, a nível federal, uma política de direita com a direita. E para isso fizeram nas negociações com Merkel cedências que ninguém antes julgara possíveis, tais como a de aceitarem o limite máximo de 200.000 refugiados a acolher por ano, e a classificação de Argélia, Marrocos e Tunísia como países seguros, para onde deportar os refugiados - ambas propostas da CDU. Durante quatro semanas, pareceu que seria possível. Mas não será desta vez.

Na verdade, não foram os Verdes o "elo fraco" por onde se quebrou a cadeia de delegações negociadoras e anunciou solenemente o fim das conversações. Na sua confissão de fracasso, a chanceler cessante, Angela Merkel, apontou claramente o dedo ao liberal FDP. O grão de areia que fez parar a engrenagem não veio dos Verdes, dispostos a quase tudo para se coligarem com a direita.

Sintomaticamente, o jovem líder dos liberais, Christian Lindner, afirmou na sua declaração que a atitude do FDP mostra a fidelidade do partido ao programa que era seu compromisso com o eleitorado e a sua indisponibilidade para abdicar dele.

Bem longe da opção que teria consistido em afirmar que fizera tudo para chegar a um acordo, Lindner sublinhava a sua intransigência em abdicar da posição partidária, como quem não confiou nunca no resultado das negociações e apostou sempre no programa eleitoral, para agitar em nova campanha. A concluir a sua curta alocução, Lindner afirmou, significativamente: "Mais vale não governar do que governar mal".

O líder dos Verdes, Cem Özdemir, pelo contrário, afirmou que o seu partido se envolvera plenamente nas negociações, que mostrara uma vontade de compromisso para além de todas as expectativas dos interlocutores, que fizera concessões e continuara a negociar, mesmo quando já parecia impossível fazer novas cedências. As negociações, concluiu, falharam porque faltou do outro lado um parceiro.

A alusão era nitidamente dirigida aos liberais, que se tinham agarrado a declarações de um outro dirigente verde, Jürgen Trittin, numa simples entrevista ao Bild am Sonntag. Aí afirmara Trittin que constatava intransigência do FDP na questão dos refugiados. Tratava-se de um subtema dessa questão, a do reagrupamento familiar.

Os primeiros comentários na opinião publicada faziam-se eco da acusação do verde Konstantin von Notz aos liberais, atribuindo-lhes a construção de um pretexto para a ruptura, utilizando para o efeito essa inócua intervenção de Trittin.

Os pontos que geraram maior controvérsia nas negociações e que, de conjunto, acabaram por não ficar resolvidos diziam respeito à política para as alterações climáticas (redução das emissões de CO2), à política externa, à política de reagrupamento familiar dos refugiados, à abolição da "sobretaxa de solidariedade" que vem sendo justificada principalmente com o financiamento da unidade alemã.