Jane Goodall e a pandemia. "Criámos condições para que fosse mais fácil"

Jane Goodall, célebre primatóloga britânica, é uma das protagonistas de um novo documentário, no qual adverte que a sobreexploração da natureza conduz ao desastre. Na opinião da especialista em primatas, o ser humano, com o seu “desrespeito à natureza e animais”, é responsável “por ter criado condições” para que a transmissão da Covid-19 fosse mais fácil.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Goodall faz parte do elenco de um novo documentário da Netflix que sublinha a importância da relação dos jovens com o meio ambiente Christian Hartmann - Reuters

Ao longo das últimas seis décadas, Jane Goodall dedicou a carreira a estudar o comportamento dos chimpanzés, tendo contribuído para o avanço dos conhecimentos sobre a aprendizagem social, o raciocínio e a cultura destes animais selvagens. A sua longa carreira e dedicação aos chimpanzés fez de Goodall uma das mais célebres primatólogas em todo o mundo.

Agora, aos 86 anos, Goodall faz parte do elenco de um novo documentário da Netflix que sublinha a importância da relação dos jovens com o meio ambiente, numa altura em que a pandemia de Covid-19 veio privar as pessoas dos espaços ao ar livre. A primatóloga apela a que os jovens lutem pelo planeta, advertindo que a sobreexploração da natureza conduz ao desastre, dando o exemplo da atual pandemia.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, Goodall relembra que a Covid-19 é uma “doença zoonótica, em que o vírus saltou de um animal para um humano”, e as pessoas são responsáveis “por terem criado condições para que isso fosse mais fácil, destruindo o meio ambiente e colocando os animais selvagens em contacto próximo com as pessoas, comendo-os, traficando-os, invadindo o seu habitat, vendendo-as nos mercados de carne de animais selvagens africanos. Nestas situações, é fácil a transmissão de uma doença”.

O “desrespeito” do ser humano pela natureza e animais traduz-se na “tragédia da pandemia que trouxemos para nós mesmos”,
afirma a especialista em primatas à revista brasileira Veja. “Enquanto destruímos o mundo natural, aproximamo-nos dos animais e novas doenças podem surgir. As espécies perdem o seu habitat e fica mais fácil para um vírus ou uma bactéria infetar um humano”, explica Goodall, que em 2017 passou por Lisboa onde falou com centenas de alunos sobre a sobrevivência dos animais selvagens em vias de extinção.

A especialista sublinha, por isso, que a pandemia é uma boa oportunidade para repensar a relação do ser humano com a natureza: “É como as alterações climáticas. Temos que reconhecer a ameaça e agir de acordo, todos juntos, e acabar com a ideia maluca de que pode haver crescimento económico ilimitado num planeta de recursos limitados”.
Apelo aos mais jovens
Goodall apela, por isso, a que os jovens lutem pela natureza, defendendo que as crianças devem poder usufruir plenamente da natureza como forma indispensável para moldar o seu carácter e também como um direito inalienável, pois é essencial para a sua saúde física e emocional.

No documentário “O Começo da Vida 2: Lá Fora”, disponível na Netflix, Goodall e outras figuras mediáticas abordam o impacto da natureza no desenvolvimento das crianças, explorando como as relações entre os mais novos e a natureza podem revolucionar o nosso futuro, ao mesmo tempo em que se questiona até que ponto esse contacto é possível em cidades sobrelotadas e poluídas. Para além disso, o documentário destaca ainda como a chegada da pandemia acentuou as consequências da privação de espaços ao ar livre da vida de grande parte das crianças e mostra a urgência de se reconstruir essa relação de uma forma mais saudável e adaptada com o planeta.

“Conheci muitos jovens que pareciam ter perdido a esperança, uns aborrecidos, outros deprimidos, todos como se não se importassem nada”, explica Goodall no documentário. “Quando questionados sobre os motivos da sua atitude, eles dizem: ‘Vocês estão a arruinar o nosso futuro e não vemos outra solução’”.

“Passei grande parte da minha vida a trabalhar com crianças e a natureza”, disse a primatóloga a El País. “Considero muito importante que os jovens se conectem ou se voltem a conectar com o ambiente, como forma de valorizá-lo e entender que ele deve ser protegido. O problema é que muitos Governos apostaram nos últimos tempos no desenvolvimento económico ilimitado que conduz ao desastre, por isso é fundamental mudar o nosso modelo de relacionamento com a natureza se queremos ter um futuro e dá-lo aos jovens”, conclui Goodall.

“É importante percebermos o que fizemos de errado. Desrespeitámos a natureza”, disse a primatóloga à revista Veja. “Cada um de nós pode ser um fator de mudança. Comer menos carne, proteger florestas. Entre os jovens, há quem queira resolver todos os problemas que temos e eu já não consigo fazer mais isso”, concluiu Goodall.
Tópicos
PUB