Japão. Mulheres têm taxa de aprovação superior aos homens para a Faculdade de Medicina

Em 2018, a Faculdade de Medicina da Universidade de Tóquio assumiu que adulterava os resultados nas provas de admissão para que entrassem mais homens do que mulheres, alegando que, quando exercem, uma grande parte das profissionais de saúde do género feminino deixa a carreira quando constitui família. Agora, quatro anos depois, a taxa de aprovação nos exames para entrar no curso foi superior nas mulheres.

Inês Moreira Santos - RTP /
Emily Elconin - Reuters

É a primeira vez, desde que foi revelado o escândalo de discriminação de género, que as mulheres a candidatarem-se a Medicina nas várias instituições japonesas superam os homens. A conclusão é de um relatório do Ministério da Educação do Japão, citado pelo Guardian, que analisou as admissões nos cursos académico do ano letivo que começou em abril de 2021.

De acordo com estes novos dados do Governo, 13,6 por cento das candidatas do sexo feminino passaram nos exames em 81 faculdades de Medicina na primavera passada. Nas mesmas provas, passaram 13,51 por cento dos homens. É, portanto, a primeira vez que as candidatas do género feminino tem, oficialmente, melhores resultados do que os do género masculino – pelo menos desde que se começou a registar estes dados, em 2013.

“Percebe-se que a taxa de admissão não será baixa apenas para candidatas do sexo feminino”
, afirmou um funcionário do Ministério da Educação japonês à agência de notícias Kyodo.

Segundo os resultados apresentados nos últimos anos, a taxa de aprovação entre os homens superava sempre a das mulheres em até 2,05 pontos percentuais.
Discriminação de género
Os resultados agora divulgados, e que revelam que as mulheres se saíram ligeiramente melhor do que os homens nas provas de acesso à faculdade, surgem quatro anos depois de se ter denunciado que a Universidade de Tóquio manipulava as notas, baixando as das candidatas do sexo feminino sistematicamente, durante anos, para limitar o acesso destas e aumentar o número de médicos do sexo masculino.

Quando a investigação surgiu, em 2018, descobriu-se que desde 2011 a instituição de Ensino Superior reduzia as pontuações das candidatas nas provas de acesso, para conseguir manter apenas 30 por cento de estudantes do sexo feminino, depois de ter havido um aumento de aspirantes a médicas a conseguirem matricular-se no ano anterior.

O que terá levado ao início da investigação foi o facto de, entre os anos letivos de 2013 e 2018, várias faculdades de Medicina terem as mesmas práticas e taxas de admissão semelhantes, tendo sido admitidos, em média, a nível nacional 11,25 por cento dos homens e 9,55 por cento das mulheres. Além disso, a Universidade de Medicina de Tóquio foi acusada de ter oferecido um lugar ao filho de um alto funcionário do Ministério da Educação.

Na altura, dez das faculdades mais prestigiadas do país admitiram ter discriminado sistematicamente as mulheres para garantirem a admissão de um número suficiente de homens. A justificação da generalidade das instituições era o facto de as mulheres, muitas vezes, abandonarem a profissão quando decidem constituir família. O jornal japonês Yomiuri Shimbun citou fontes académicas, na época, que alegavam que a manipulação de resultados se devia a “forte consenso na escola” de que muitas mulheres desistem da carreira de medicina, depois de se formarem, para “casarem e terem filhos”.

Depois de descoberto isto, as taxas de aprovação dos exames alterou-se nos últimos anos. Mas em 2021, foi a primeira vez que as mulheres voltaram a superar os homens.

No útlimo ano, havia 62.325 candidatos do sexo masculino em todo o país e 8.421 foram aprovados. Foram também aprovadas 5.880 das 43.243 candidatas.

Das dez escolas que adulteravam os valores no exame de admissão, seis, incluindo a Nihon University, a Tokyo University e a Iwate Medical University, tiveram uma taxa de aprovação superior nas mulheres do que nos homens.

O primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, tem feito da criação de uma sociedade “onde as mulheres podem brilhar” uma prioridade, mas as cidadãs japonesas ainda enfrentam dificuldades no acesso a empregos, podendo ainda ficar desempregadas depois de terem filhos.

Segundo um relatório do Ministério da Saúde, apenas 21,9 por cento dos médicos eram mulheres, a menor proporção entre os países pertencentes à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico, nos quais a média foi de 46 por cento em 2015.

PUB