João Paulo II foi beatificado no Vaticano

Um milhão de pessoas assistiu, na Praça de São Pedro, no Vaticano, à cerimónia de beatificação de João Paulo II, presidida pelo seu sucessor Bento XVI. Karol Wojtyla foi declarado “servo de Deus”, na sequência do mais rápido processo de beatificação de que há registo. Entre os que se deslocaram ao Vaticano encontram-se a religiosa francesa Marie Simon-Pierre, cuja cura da Doença de Parkinson encerrou o processo de beatificação.

RTP /
A declaração de beatificação foi saudada com palmas e gritos de alegria na Praça de São Pedro Jacek Bednarczyk, EPA

Acolhendo o desejo “da diocese de Roma, de muitos irmãos no episcopado e de numerosos fiéis, aprovas ter recebido o parecer da Congregação para a Causa dos Santos (…) aceitamos que o venerável servo de Deus, João Paulo II, papa, possa ser de ora em diante chamado beato”, declarou Bento XVI.

A cerimónia constitui uma reafirmação da Igreja católica, apesar das acusações de pedofilia que têm vindo a público. As associações de vítimas consideram que João Paulo II, Papa entre 1978 e 2005, tomou a defesa da Igreja ao não reagir com força ou mesmo fechando os olhos ao problema.

O vigário-geral para a diocese de Roma, apresentou o pedido de beatificação e destacou a "rica personalidade" de Karol Wojtyla (1920-2005), bem como o tempo como "operário" sob o regime nazi, entre 1940 e 1944".

O cardeal Agostino Vallini referiu-se a João Paulo II como um papa capaz de "escutar e dialogar" não só com os católicos, mas também com as "Igrejas cristãs", os "crentes no único Deus" e os "homens de boa vontade".

A cerimónia de beatificação inclui a colocação das relíquias - uma ampola com sangue de João Paulo II - junto ao altar, por duas religiosas, a irmã Tobiana, assistente pessoal de João Paulo II, e a irmã Marie Simon-Pierre, cuja cura da doença de Parkinson, considerada miraculosa, encerrou o processo de beatificação.

Um novo momento específico de beatificação voltou a verificar-se no final da missa, quando o Papa e os cardeais veneraram, dentro da Basílica, em frente ao altar principal, a urna de João Paulo II.

Os restos mortais do antigo Papa serão sepultados no andar principal da basílica, numa cerimónia privada, na capela de São Sebastião, na nave da basílica do Vaticano, junto à 'Pietà' de Miguel Ângelo.

Bento XVI destaca atitude de antecessor frente a “sistemas políticos e económicos”
A beatificação de João Paulo II, seis anos depois da sua morte, "chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor", declarou Bento XVI durante a homilia.

No entender do sucessor, o novo beato enfrentou "sistemas políticos e económicos", incluindo o "marxismo e a ideologia do progresso", para cumprir o seu desafio de viver a fé sem "medo".

“Subiu à sede de Pedro trazendo consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem", disse o sucessor de João Paulo II, na homilia da missa da sua beatificação.

Bento XVI evocou as "palavras memoráveis" de João Paulo II na missa de início de pontificado, em outubro de 1978: "Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!".

João Paulo II "começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e económicos, invertendo, com a força de um gigante - força que lhe vinha de Deus -, uma tendência que parecia irreversível", prosseguiu.

Sobre a herança de João Paulo II, Bento XVI defende que "se deve viver na história com um espírito de 'advento', numa existência pessoal e comunitária orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas expetativas de justiça e de paz".

Bento XVI também destacou o "testemunho de fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande sensibilidade humana" do novo beato da Igreja.

O Papa mencionou ainda a sua "experiência de colaboração pessoal", com João Paulo II, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. "Durante 23 anos pude permanecer junto dele crescendo cada vez mais a minha veneração pela sua pessoa", declarou, destacando a "humildade profunda" do seu predecessor que lhe permitiu "continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam".

Cerimónia com cerca de 90 delegações oficiais
Os peregrinos começaram a chegar no início do dia, incluindo jovens de uma centena de países, com particular incidência da Polónia (cerca de 80 mil pessoas), mas também de Itália, França, Espanha e Portugal. As autoridades italianas consideram que mais de um milhão de peregrinos acompanha as celebrações na Praça de São Pedro.

A cerimónia de beatificação de João Paulo II foi presenciada por 86 delegações estrangeiras, incluindo 16 chefes de Estado e seis de Governo, bem como representantes das famílias reais de Espanha, Reino Unido, Bélgica, Liechtenstein e Mónaco.

A celebração litúrgica, presidida por Bento XVI, foi concelebrada por 800 padres que deram a comunhão aos milhares de peregrinos na Praça de São Pedro. O recinto foi pequeno para albergar todos os que pretendiam ali ver a cerimónia, apesar das transmissões em direto para todo o mundo. Foram colocados 14 ecrãs gigantes em Roma, para que os que não couberam na Praça pudessem assistir.

Os responsáveis pela operação de segurança em Roma apelaram aos peregrinos para que não se aproximem da zona adjacente ao Vaticano e a seguirem a beatificação através dos ecrãs gigantes.

A chanceler Angela Merkel, os presidentes mexicano e polaco e o primeiro-ministro húngaro estiveram presentes. Vários presidentes e primeiros-ministros dos Balcãs, os embaixadores dos Estados Unidos e da Rússia representaram os seus países. Também Robert Mugabe, presidente do Zimbabué, participou nas celebrações no Vaticano.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, representa o Executivo português na cerimónia de beatificação de João Paulo II, acompanhado pelo embaixador de Portugal junto da Santa Sé, Manuel Tomás Fernandes Pereira.

Na segunda-feira, às 10h30, será celebrada uma eucaristia no Vaticano em honra do novo beato, presidida pelo cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.
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