Jogo de tabuleiro ajuda a debater obstáculos das raparigas na escola em Moçambique
Os obstáculos das raparigas moçambicanas no acesso escolar, num país em que metade abandona a escola na puberdade, passaram a um jogo tabuleiro gigante, apresentado hoje e que vai chegar também a Angola, para permitir discutir o problema.
Apresentado em Maputo e inspirado no tradicional jogo da Glória português, o denominado "Linha da Vida" foi construído com base num estudo de diagnóstico conduzido por investigadores do Centro de Estudos Internacionais (CEI)do ISCTE, e no trabalho de campo da Helpo, uma Organização Não-Governamental de Desenvolvimento (ONGD).
"É um projeto que pretende identificar e criar estratégias para mitigar as barreiras que existem para a igualdade de género, através de um conjunto de ações que vão ser desenvolvidas aos vários níveis, tanto ao nível das comunidades como aos níveis superiores das instituições e etc", disse Ricardo Falcão, gestor do projeto.
Os organizadores explicaram que o jogo de tabuleiro será distribuído nas escolas, em Portugal, Angola e Moçambique. A ideia é que os rapazes joguem como meninas e vice-versa, para que os rapazes sintam na pele o que estas passam no acesso à educação.
O rapaz urbano tem um dado normal seis e a rapariga quatro. O rapaz urbano tem o dado três e a rural tem dois e um, ou seja os dados estão viciados à partida.
"Através de uma abordagem lúdica, menos formal, como seria numa palestra, acho que conseguimos chegar mais às crianças (...) já com consciência de que há um número de problemas que afetam mais as raparigas", acrescentou Ricardo Falcão.
A iniciativa faz parte do projeto "Marias Meninas", que visa combater desigualdades na educação, executada pela Helpo, Fundação Fé e Cooperação, CEI-ISCTE, e tem financiamento do instituto Camões e da petrolífera Galp.
De acordo com o gestor do projeto, há necessidade de avisar as gerações vindouras sobre a problemática, por exemplo, da falta do pequeno-almoço, sobre as uniões prematuras, gravidezes precoces e outros fatores que "influenciam grandemente" a presença das meninas na escola.
O grupo realizou uma discussão para perceber quais são realmente os fatores que mais interessam cada comunidade em particular, com finalidade de mapear as especificidades.
"Com isso, tivemos também a oportunidade com estas pessoas de tentar propor soluções e vamos também criar um documento de recomendações que vamos levar às autoridades, que nos permitirão posteriormente, em conjunto com as escolas, com os diretores, com os pontos focais de agenda, criar estratégias de apresentação do jogo", referiu.
A diretora nacional do Género do Ministério da Educação e Cultura, Seana Daúd, reconheceu o problema: "Estima-se que perto de 50%, principalmente de meninas, (...) terminaram o ensino primário, atingem a puberdade, principalmente nas regiões norte e centro de Moçambique, e são convidadas a abandonarem as escolas. Infelizmente ainda acontece, estamos no século XXI e ainda acontece isto no nosso país. Isso acontece no meio rural".
Seana Daúd acrescentou que o Governo está a trabalhar para mitigar as assimetrias do acesso à educação por parte das raparigas e rapazes do meio rural, em comparação com os urbanos.
"Nós precisamos trabalhar também, para além de trabalhar com os líderes comunitários, também chegar aos próprios pais e mães, para que eles vejam, para que eles entendam e interiorizem que, levando ou enviando a criança para a escola, estamos a garantir que esta criança tenha um futuro, evolua na sociedade e que este ser, esta criança, seja menina ou menino, tenha um papel transformador social", referiu.
No meio urbano a discussão tem a ver com a locomoção, sobrelotação das salas, por vezes influenciada pelo êxodo rural à procura de melhores condições, explicou a responsável.