John Bercow. Speaker do Parlamento britânico vai cessar funções

Ficou conhecido mundialmente pelo seu estilo irreverente na forma de se dirigir aos deputados britânicos e pelas suas gravatas.

Graça Andrade Ramos - RTP /
John Bercow a 3 de abril de 2019, à frente da Cãmara dos Comuns do Reino Unido Reuters

O conservador John Bercow tornou popular o próprio cargo de speaker da Câmara dos Comuns, em Westminster, sobretudo devido aos debates sobre o Brexit e pelos seus sonoros apelos à ordem no plenário.

Bercow irá cessar funções a 31 de outubro, data prevista para o Reino Unido deixar a União Europeia, a não ser que sejam convocadas eleições antecipadas.

Bercow anunciou a sua decisão esta segunda-feira, último dia de sessão parlamentar antes da suspensão da Câmara dos Comuns ordenada pelo primeiro-ministro até 14 de outubro. 
  
Apesar da sua popularidade internacional, adquirida desde os debates sobre o Brexit, para muitos britânicos o speaker era intragável, pomposo, convencido, pouco profissional, parcial, barulhento e prejudicial à dignidade do cargo.

Outros consideraram-no um defensor da democracia e do Parlamento, admirando a sua ironia e segurança, assim como a destreza com que utilizava a língua inglesa para expressar opiniões ou pôr na ordem os deputados, muitas vezes humilhando-os perante os seus pares.

Controverso, Bercow deixa um legado inesquecível e dividido, expresso nas redes sociais nas reações, entre o aplauso ao "herói" e o "já vais tarde". 
Incerteza para já
"Nas eleições de 2017, prometi à minha mulher e filhos que seria o meu último mandato. Esta é uma promessa que pretendo manter", disse Bercow no início do seu anúncio durante o plenário esta tarde.

"Se a Câmara votar hoje à noite para eleições legislativas antecipadas, o meu mandato como Presidente e deputado terminará quando este Parlamento terminar", garantiu ainda na sua declaração.

Bercow acrescentou ainda que, se a assembleia não votar nesse sentido, entende que "o menos perturbador e mais democrático" será cessar funções no encerramento da sessão 31 de outubro, data prevista para a saída do Reino Unido da União Europeia.

"O menos perturbador, porque essa data acontecerá logo após as votações ao Discurso da Rainha esperadas nos dias 21 e 22 de outubro, e a semana seguinte também poderá ser bastante animada e será melhor ter uma figura experiente na presidência", justificou.
Comovido
Bercow, um conservador, foi escolhido pelos pares para a posição em 2009, tornando-se no mais jovem detentor do título.

"Durante o meu tempo como speaker, procurei aumentar a relativa autoridade desta legislatura, facto pelo qual não pedirei qualquer tipo de desculpa, a ninguém, em lugar algum e em tempo algum", garantiu.

Ao longo dos últimos três anos, desde que o Reino Unido votou pela saída da UE, John Bercow tornou-se uma pílula amarga para os seus colegas conservadores no Governo, por deixar os deputados assumirem o controlo da agenda parlamentar, para influenciar o curso do Brexit.

Bercow afirmou que procurou simplesmente cumprir as suas funções de deixar o Parlamento ter a sua palavra, acrescentando que sempre "procurou ser o backstop dos deputados", agradecendo o apoio aos líderes de bancada, à sua equipa parlamentar, aos seus constituintes e à sua mulher e filhos.

Ao pronunciar o nome destes, Oliver, Freddie e Jemmima, e olhando para cima, onde a mulher, Sally, assistia ao plenário, Bercow emocionou-se e deixou o aplauso dos deputados expressar o seu agradecimento, expresso "do fundo do meu coração".

"Este é um lugar maravilhoso", acrescentou, referindo-se aos deputados, "passados e presentes", que liderou. "Um lugar cheio predominantemente de pessoas motivadas pela sua noção do interesse nacional, pela sua percepção do bem comum e pelo seu dever".
Um grande risco
Num aparente recado ao primeiro-ministro, Boris Johnson, acusado de tentar calar os protestos dos deputados face à hipótese de um Brexit sem acordo, Bercow referiu os perigos de descartar a representatividade parlamentar.

"Degradamos este Parlamento por nossa conta e risco", avisou.

"Como membro do Parlamento durante 22 anos e como speaker nos últimos 10, este tem sido, deixem-me ser explícito, o maior previlégio e honra da minha vida profissional, pela qual estarei eternamente grato", acrescentou.

John Bercow terminou desejando ao seu sucessor na principal cadeira da Câmara dos Comuns, "as maiores felicidades na defesa dos direitos dos honoráveis membros, individualmente, e pelo Parlamento, institucionalmente, como speaker da Câmara dos Comuns."


O discurso de Bercow foi de imediato aplaudido de pé pelos deputados da bancada da oposição, tendo sido os conservadores mais lentos e mais relutantes em levantar-se. Apenas um ou dois o fizeram e os restantes aplausos foram de circunstância.

Nas cadeiras reservadas ao executivo, ninguém se levantou ou sequer aplaudiu o discurso. Uma atitude que de imediato provocou críticas generalizadas.

John Bercow entrou nas últimas semanas em rota de colisão com o primeiro-ministro, Boris Johnson, prometendo enquanto speaker, fazer tudo para o impedir de suspender o Parlamento a poucos dias da data de saída da UE.
Processos por abusos
Ao longo dos anos, Bercow foi-se aproximando da ala esquerda do Partido Conservador, levando muitos observadores a preverem que, no final desta legislatura, o speaker demissionário se irá inscrever no Partido Trabalhista - que apoiou a sua eleição em 2009.

Jeremy Corbyn, líder trabalhista presente na Câmara durante o anúncio de Bercow, agradeceu-lhe todo o seu trabalho "em defesa da democracia" e de um "Parlamento forte que exija contas ao executivo".

"Este Parlamento, esta democracia é mais forte pelo seu período como speaker", afirmou Corbyn num tributo.

O anúncio de Bercow está também a ser considerado uma jogada brilhante, ao impedir a sua eventual expulsão do Partido Conservador e a retirada do apoio político dos conservadores.

Outros lembram que diversos processos abertos contra Bercow por elementos femininos do pessoal administrativo de Westminster, devido ao estilo abusivo que o tornou popular nas intervenções transmitidas pela televisão, poderão agora ser arquivados sem fazer ondas.

c/Lusa
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