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Junta militar de Myanmar reclama vitória em eleições contestadas

Junta militar de Myanmar reclama vitória em eleições contestadas

O partido criado pela junta militar que governa a antiga Birmânia mostrou-se hoje imune às vozes críticas do Ocidente, congratulando-se por ter cilindrado nas urnas a Oposição democrática. Enquanto o regime reivindica “80 por cento dos assentos” no Parlamento e nas assembleias regionais, milhares de birmaneses do Leste do país procuram refúgio na Tailândia, ameaçados por combates entre tropas do Governo e rebeldes da etnia Karen.

RTP /
Civis birmaneses deixam Myawaddy, no Leste de Myanmar, e cruzam o Rio Moei à procura de refúgio na vizinha Tailândia EPA

O Presidente dos Estados Unidos, em pleno périplo pela Ásia, condenou ontem o “roubo” do primeiro escrutínio a ter lugar em Myanmar desde 1990, quando a Liga Nacional para a Democracia, da Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, foi impedida de assumir o poder, apesar da vitória nas eleições. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, juntou-se a Barack Obama nas críticas a um acto eleitoral “insuficientemente transparente, aberto e pluralista”. E apenas a China e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) encararam o processo montado pelo regime birmanês como “um importante passo em frente”. Sem se deter nos críticos, a junta militar congratula-se.

Ouvido pela agência France Presse, um quadro do Partido da Solidariedade e do Desenvolvimento da União (USDP), formado há alguns meses para representar a junta nos boletins de voto, reivindicou a conquista de “cerca de 80 por cento dos assentos” nas duas câmaras do Parlamento nacional e nas 14 assembleias regionais do país. A mesma fonte situou a participação do eleitorado em 70 por cento, num acréscimo de dez pontos percentuais aos números ontem propagados.

Só o partido do regime apresentou 1.112 candidatos aos 1.159 assentos sufragados no domingo. A Força Democrática Nacional (NDF), o maior partido da Oposição, candidatou-se a 164 lugares. À semelhança da NDF, liderada por antigos militantes da Liga Nacional para a Democracia, o Partido Democrata queixa-se da desigualdade do processo eleitoral e de várias irregularidades no momento da recolha dos votos, antes mesmo da contagem. Desta feita, o eleitorado não pôde votar no partido de Aung San Suu Kyi, dissolvido pela junta depois se ter recusado a participar no escrutínio. Há 20 anos, o resultado da Liga rondou os 82 por cento. A somar aos obstáculos no caminho da Oposição democrática, a Constituição sancionada pelo regime atribui 25 por cento dos assentos parlamentares a militares no activo.

“Mistura das urnas”
No seu discurso oficial, o regime militar que controla a antiga Birmânia há quase cinco décadas descreve as eleições do passado fim-de-semana como parte de um processo de transição para um sistema de governação civil. Um retrato que encontra pouca ou nenhuma sustentação nas queixas dos partidos e demais vozes oposicionistas. Than Nyen, o líder da NDF, garante que dispõe de “provas” das irregularidades cometidas antes e durante a contagem de sufrágios, ao passo que o presidente do PD, Thu Wai, denuncia a ausência de representantes da Oposição em boa parte das assembleias de voto.

Win Min, um analista birmanês exilado nos Estados Unidos, vaticina, em declarações à France Presse, que o partido da junta venha a reclamar “mais de 82 por cento dos assentos para bater o recorde da LND em 1990”. Min afirma mesmo que o USDP se terá apropriado dos resultados de “várias circunscrições conquistadas pela NDF”, após “uma mistura das urnas por parte da Comissão Eleitoral”.

O verdadeiro alcance da transição que o regime garante querer operar deve tornar-se ainda mais claro quando for anunciada uma decisão sobre o futuro próximo de Aung San Suu Kyi. O prazo da detenção domiciliária da Prémio Nobel da Paz deve expirar no sábado, mas a junta militar continua a guardar silêncio sobre o processo.

Êxodo para a Tailândia
Entretanto, o regime de Myanmar continua a mover um combate sem tréguas a grupos de rebeldes da etnia Karen ao longo da fronteira oriental com a Tailândia. Os confrontos entre a guerrilha e as tropas governamentais levaram, nas últimas horas, 20 mil birmaneses a procurar refúgio no país vizinho. Quinze mil escaparam para a cidade tailandesa de Mae Sot. Outros cinco mil cruzaram a fronteira 150 quilómetros a Sul daquela região.

Várias organizações de defesa dos Direitos Humanos vieram já alertar para uma possível guerra civil, numa altura em que o Governo insiste em obrigar os grupos étnicos do país a aceitarem um texto constitucional fortemente limitador da sua autonomia. É o caso da Burma Campaign UK, que deixa um aviso: “Se a ditadura mantiver os planos para atacar todos os grupos armados que recusam render-se, os combates actuais serão o equivalente a uma primeira pequena escaramuça”.

Os últimos confrontos entre as tropas regulares e o Exército Budista Democrático Karen (DKBA) começaram ontem na mancha florestal em redor da cidade de Myawaddy. Testemunhas citadas pelas agências internacionais afiançam que os combates prosseguem.
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