Junta militar de Myanmar responsabilizada pelas mortes de mais de 160 crianças

A junta militar de Myanmar é acusada pelo governo de unidade nacional no exílio de ter causado as mortes de 165 crianças durante o ano de 2022. Muitas terão sido submetidas a torturas e mantidas como reféns até que os pais se entregassem.

Carla Quirino - RTP /
UNICEF Myanmar

Os dados do relatório divulgado esta quinta-feira pelo jornal britânico The Guardian apontam para um aumento de 78 por cento de vítimas em relação ao ano passado.

Em causa estão pelo menos 165 crianças alegadamente mortas às mãos do regime que usurpou a governação eleita da antiga Birmânia, no golpe de 2021.

Thomas Kean, consultor em Myanmar para o International Crisis Group, explica que os relatórios geralmente são acompanhados de provas, por isso “o número do NUG parece crível”, afirma.

Os ataques de artilharia contra as forças resistentes à junta terão sido a principal causa das mortes, uma vez que o uso de poder aéreo é mais indiscriminado, sublinha Kean.

De acordo com um porta-voz do Ministério de Mulheres, Jovens e Crianças do governo exilado, o regime militar está a intensificar os bombardeamentos e ataques aéreos e os alvos são escolas em zonas conotadas com o executivo de unidade.

Kean acredita que a crescente dependência da artilharia e do poder aéreo funciona como punição coletiva para as comunidades consideradas oposição à junta militar.  “Isso encaixa-se no padrão de como se conduz a guerra, os civis são, geralmente, alvos deliberados”. E acrescenta que o incêndio de casas e a destruição de aldeias são frequentes.


Thomas Andrews, relator especial da ONU sobre a situação dos Direitos Humanos em Myanmar afirmou, em junho, que havia relatos de crianças espancadas, cortadas, esfaqueadas, queimadas com cigarros e com unhas arrancadas.

Os rapazes terão sido “expostos a pressões ou submetidos a simulações de execuções”, enquanto que "as raparigas foram agredidas sexualmente”, descreveu Andrews.

O relatório da ONU avançou que o número de crianças torturadas desde o golpe seria 142, somando-se mais de 1.400 detidas arbitrariamente.

A UNICEF denunciava em setembro a morte de pelo menos “11 crianças num ataque aéreo indiscriminado a áreas civis, incluindo uma escola no município de Tabayin, região de Sagaing, em Myanmar”.

A Comissão da ONU sobre os Direitos da Criança já pediu que os perpetradores sejam responsabilizados e que a assistência seja prestada com segurança às crianças de Myanmar, onde se estima que 5,6 milhões de crianças necessitem de assistência humanitária.

A 27 de dezembro, a Associação de Assistência aos Presos Políticos listava um total de 2.660 pessoas assassinadas desde o início do golpe.
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