Karzai com crise devido a muçulmano convertido

A crise diplomática e religiosa desencadeada pelo julgamento de um muçulmano convertido ao cristianismo ameaça atingir o Presidente afegão, pressionado pelos Estados Unidos e pela ira dos teólogos do seu país.

Agência LUSA /

A última esperança do Executivo do Afeganistão parece ser a de que Abdul Rahman, que abjurou o islamismo para se tornar cristão, seja considerado louco pelo tribunal, o que lhe permitirá escapar à pena de morte prevista na lei afegã (baseada na sharia, a lei religiosa) para quem renega o islamismo.

O Chefe de Estado norte-americano, George W. Bush, já se afirmou "perturbado" pela situação, tendo a sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, telefonado directamente a Karzai para que este reconheça o direito de culto.

"Pensamos que é importante que estas questões sobre a liberdade de culto e a liberdade de expressão, que são parte importante da Constituição afegã, sejam reafirmadas", declarou à imprensa o porta-voz do departamento de Estado, Sean McCormack.

Rice já tinha feito saber do "descontentamento" norte- americano ao seu homólogo afegão, Abdullah Abdullah - entretanto, afastado do cargo pelo Presidente Karzai no âmbito de uma remodelação do Executivo -, na quarta-feira durante um encontro em Washington.

Segundo Scott McClellan, porta-voz da Casa Branca, "este julgamento constitui uma verdadeira violação das liberdades universais partilhadas pelas democracias do mundo, e viola a constituição afegã que garante o direito de um indivíduo de escolher a sua religião".

Para os altos membros do clero afegão, Abdul Rahman tem de ser executado por ter renegado o Islão e se Karzai ceder às pressões internacionais, os religiosos ameaçam incitar o povo a fazer justiça pelas suas próprias mãos, "reduzindo a pedaços" o corpo do muçulmano convertido.

"Rejeitar o Islão é insultar Deus. Não permitiremos que Deus seja insultado. Este homem tem de morrer", afirmou Abdul Raulf, responsável religioso considerado moderado e que esteve três meses detido por oposição ao regime talibã antes da invasão dos aliados em 2001.

Para Abdullah - que soube da sua destituição na capital norte- americana onde se encontra em visita oficial -, o Afeganistão tem de encontrar uma solução "viável" para este problema, que não pode passar, com certeza, pela morte de Abdul Rahman.

"Penso que é do interesse da segurança nacional do Afeganistão encontrar uma solução viável para que sejam respeitados os valores da nossa Constituição, não atentando contra a nossa vontade e os apoios que o Afeganistão tem no mundo para se tornar um país democrático, estável e próspero", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros afegão.

Também as Nações Unidas se estão a mover no sentido de encontrar uma solução adequada para esta crise.

O enviado-especial da organização para o Afeganistão, o alemão Tom Koenigs, mostrou-se hoje optimista em relação ao assunto.

"Penso que vamos conseguir resolver este caso no quadro de um procedimento judicial normal", disse Koenigs à Deutschlandradiokultur (rádio alemã).

Abdul Rahman, de 41 anos, abjurou há 16 anos, convertendo-se ao cristianismo numa altura em que trabalhava para uma organização não- governamental cristã em Peshawar, no Paquistão, tendo posteriormente vivido nove anos na Alemanha, para só regressar ao seu país em 2005.

Uma das possibilidades encontradas pelo tribunal que o está a julgar é concluir que Rahman sofre de perturbações mentais, tal como explicou ao jornal alemão Koelner Stadt-Anzeiger o ministro da Economia afegão, Amin Farhang.

"Um juiz concluiu que Rahman tinha alguns problemas mentais, que prestava declarações contraditórias e tinha exercido pressão sobre toda a sua família para que se convertesse ao cristianismo", acrescentou o ministro num comunicado divulgado hoje.

"A situação jurídica do Islão exige também que um acusado deve gozar de todas as suas faculdades. Tal não é o caso de Rahman. É, por isso, que ele deve ser submetido a um tratamento psiquiátrico", acrescentou Farhang.

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