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Karzai favorito em escrutínio ameaçado pela insegurança no Afeganistão

Karzai favorito em escrutínio ameaçado pela insegurança no Afeganistão

Os afegãos votam sábado nas primeiras eleições presidenciais directas da história do país, um escrutínio ameaçado pela insegurança, mas também pelo elevado analfabetismo e pela tradição afegã que confere aos líderes tribais uma influência quase ilimitada.

Agência LUSA /

O actual presidente, Hamid Karzai, 46 anos, é de longe o candidato favorito, com os analistas a preverem uma vitória à primeira volta com 51 por cento dos votos ou mais.

Karzai, oriundo da etnia maioritária (pastune), é um dos poucos candidatos sem ligações às barbáries cometidas na guerra civil de 1992-1996, tem o discurso mais pluralista dos 18 candidatos e beneficia do pragmatismo dos afegãos, que sabem que o apoio ocidental de que goza é o maior garante da continuação da ajuda internacional ao país.

O segundo nome mais bem colocado é Iunis Qannoni, um tajique de 47 anos, o único candidato com um percurso político, dedicado desde o fim dos anos 70 à representação no estrangeiro da Aliança do Norte, a coligação de movimentos que combateu o domínio soviético, primeiro, e os talibãs, depois.

Nestas eleições, Qannoni reuniu os apoios dos actuais ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, Mohammed Fahim e Abdullah Abdullah, também oriundos da Aliança do Norte, e da quase totalidade dos chefes tribais tajiques - a segunda maior etnia do país, que representa um terço dos 24 milhões de afegãos -, de vários hazaras (terceira etnia) e mesmo de alguns pastunes.

Um dos mais temidos "senhores de guerra" afegãos, o uzbeque Abdul Rashid Dostum, de 49 anos, está também na corrida, mas as suas hipóteses, assentes no apoio da etnia a que pertence e que representa apenas 5 por cento da população, são consideradas muito escassas pelos analistas.

E do rol destaca-se ainda, mais por ser mulher do que pelas fracas possibilidades de ser eleita, Massuda Jalal, uma médica pediatra de 41 anos proveniente da elite instruída afegã, que poucos apoios conseguiu reunir e nas acções de campanha pelo país suscitou mais curiosidade do que interesse político ou hostilidade.

Numa sociedade islâmica, tribal e conservadora, Massuda Jalal fez campanha pela igualdade entre os sexos e pelo primado da competência e regozijou-se com os mais de quatro milhões de mulheres inscritas nos cadernos eleitorais. Mas não deixou de dizer: "Espero que os maridos as deixem votar".

Os talibãs ameaçaram repetidamente atacar quem quer que esteja ligado ao processo eleitoral ou tente votar, mas esta advertência não impediu mais de um terço dos 28 milhões de afegãos de se recensearem para, pela primeira vez na história do país, eleger um presidente por sufrágio directo.

Cerca de 1,3 milhões de refugiados afegãos no Paquistão e no Irão, que no panorama actual podem representar até 10 por cento do total de votos, estão igualmente recenseados.

As mais altas figuras do Estado, incluindo o próprio Karzai, dizem-se confiantes na determinação dos afegãos em votar e mostram reservas quanto à real capacidade dos talibãs para boicotar o escrutínio, uma avaliação subscrita por vários analistas.

Também o chefe da missão da ONU no país, Jean Arnault, diz que a situação "é favorável a uma eleição livre e justa" que, aposta, vai pôr termo à +lei das armas+ que vigora no país.

Uns e outros não negam, todavia, que a segurança em torno das cerca de 5.000 assembleias de voto instaladas por todo o país é a principal preocupação.

Em Cabul e arredores, controlados pela Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF, 9.500 homens comandados pela NATO), a situação é de "relativo controlo e tranquilidade", segundo declarações de um porta-voz dois dias antes da votação.

Mas, no resto do país, cuja área é mais ou menos sete vezes a de Portugal, dominam os "senhores da guerra" em pelo menos um terço do território e sucedem-se os ataques e confrontos com alegados membros da Al-Qaida e dos talibãs, que só nas imediações do antigo bastião de Kandahar (sul) os serviços de informações afegãos estimam serem mais de 2.000.

A principal responsável pela segurança dos eleitores vai ser a polícia nacional afegã (46.000 homens), mas os cerca de 18.000 soldados norte-americanos no país e os 14.000 mal armados efectivos do exército nacional afegão também vão estar em estado de alerta.

Do outro lado, estão as milícias armadas dos vários "senhores da guerra" afegãos, que o programa de desarmamento da ONU praticamente não conseguiu desmobilizar - os últimos números apontam para 15 mil armas entregues - e cujo número os analistas mais contidos estimam, no total, em cinco milicianos para cada soldado do exército nacional afegão.

Num balanço a dois dias das eleições, o chefe da missão da ONU considerou que o vencedor das eleições terá toda a legitimidade para dirigir a nação, apesar das limitações ao processo eleitoral.

"Um fracasso da segurança em todo o país permitiria naturalmente questionar a legitimidade das eleições. Mas não acreditamos que isso possa acontecer", disse.

Mas pelo menos cinco dos candidatos a presidente têm milícias privadas, entre os quais o tajique Iunis Qanooni, cuja milícia foi encarregada da segurança em centenas de assembleias de voto, e o uzbeque Abdul Rashid Dostum, que prometeu desarmar as dezenas de milhar de homens que comanda, mas até agora não o fez.

A política de intimidação não poupa sequer o popular Karzai:

segundo organizações no terreno, na província de Khost (leste), um grupo de anciãos da tribo Terezay ameaçou incendiar as casas de quem não votar no actual presidente.

Além disso, organizações como a Human Rights Watch acusam Karzai de comprar o voto de "senhores da guerra" prometendo-lhes cargos num futuro governo, uma manobra de que o actual presidente já foi acusado quando formou o seu primeiro governo, após a Loya Jirgah (assembleia tradicional) de emergência de Junho de 2002.

O outro grande desafio à transparência destas eleições é a elevada taxa de analfabetismo aliada à tradição afegã de respeitar as orientações dos líderes tribais, por sua vez leais aos "senhores da guerra".

Fora da capital, mais de 60 por cento dos homens e 90 por cento das mulheres são analfabetos, a circulação de jornais é muito reduzida e a televisão estatal só é vista em 15 das 29 províncias e apenas nos intervalos dos frequentes cortes de electricidade.

Um inquérito de rua feito esta semana em Cabul por um instituto internacional de apoio ao jornalismo independente em zonas de conflito, o Institute for War & Peace Reporting, com sede em Londres, concluiu que a maioria dos eleitores só conhece três ou quatro candidatos.

Mas perante cópias dos boletins de voto, que mostram a fotografia de cada candidato junto do respectivo nome, quase todos reconhecem Hamid Karzai.

Uma das inquiridas, Nazeefa, de 24 anos, resumiu assim o tal pragmatismo dos afegãos que deverá dar a vitória ao actual presidente:

SKarzai enganou toda a gente e sabe como lidar com todos. Enganou os mullah com a sua capa, os mujaidines com a sua barba, as populações das províncias do sul com o seu chapéu e os europeus com o seu inglês".

Nazeefa demorou dois minutos a identificar Karzai no boletim.

Depois, apontando para a fotografia do Presidente, disse que é nele que vai votar.

MDR.


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