Mundo
Guerra na Ucrânia
Kremlin debaixo de críticas após abandono do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares
O presidente russo, Vladimir Putin, assinou na quinta-feira a lei que subtrai a ratificação da Rússia ao Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares. A decisão já foi criticada pela organização que promove a adesão ao pacto de controlo de armas e pelos Estados Unidos.
Há cerca de um mês, os parlamentares russos discutiram a anulação da ratificação do tratado que proíbe testes nucleares.
A nova lei para abandonar o acordo histórico tem agora luz verde, uma semana depois de o Conselho da Federação da Câmara Alta da Rússia a ter aprovado por unanimidade.
Depois de Putin ter insinuado a possibilidade de voltar aos ensaios, o abandono do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBT), carimbado na quinta-feira, é uma decisão que a comunidade internacional esperava e vem comprovar a crise das relações entre a Rússia e os Estados Unidos.Washington já manifestou preocupação com a decisão da Rússia, considerando-a um passo na direção errada.
“A ação da Rússia servirá apenas para diminuir a confiança no regime internacional de controlo de armas”, afirmou o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, em comunicado.
Por sua vez, Moscovo argumentou que o abandono do CTBT visa meramente alinhar a Rússia com os Estados Unidos, cujo Senado nunca ratificou o tratado. Porém, os Estados Unidos dizem cumprir uma moratória sobre os testes de armas nucleares.A Rússia deixa claro que não retomará os testes nucleares a menos que Washington o faça, segundo diplomatas de Moscovo.
O vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, advertiu Washington: “Como disse o nosso presidente, devemos estar em alerta e, se os Estados Unidos avançarem para o início dos testes nucleares, teremos de responder aqui da mesma forma”.
Tal como Washington, Moscovo continua a ser signatária do tratado. Por isso, alega que irá manter informada a comunidade internacional sobre as atividades nucleares em solo russo.
A aprovação da lei que retira a ratificação foi publicada num site do Governo, que afirmou que a decisão entra em vigor imediatamente.
Há uma semana, horas depois de a câmara alta do Parlamento ter votado pela revogação da ratificação do tratado, os militares russos conduziram um exercício de ataque nuclear de retaliação “em massa”.
Putin assistiu ao exercício que envolveu o ensaio de lançamento de mísseis a partir de um silo terrestre, de um submarino nuclear e de aviões bombardeiros de longo alcance.
”Sabemos onde termina este caminho"Putin assistiu ao exercício que envolveu o ensaio de lançamento de mísseis a partir de um silo terrestre, de um submarino nuclear e de aviões bombardeiros de longo alcance.
Robert Floyd, chefe da Organização do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares - cuja função é promover o reconhecimento do documento e constituir medidas de verificação para garantir que nenhum teste nuclear passe despercebido - condenou a medida da Rússia.
“A decisão da Federação Russa revogar a ratificação do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares é muito dececionante e profundamente lamentável”, sublinhou Floyd.
Diversos especialistas ocidentais em controlo de armas estão preocupados com a possibilidade de a Rússia estar a preparar-se para fazer ensaios nucleares.
Andrey Baklitskiy, investigador do Instituto das Nações Unidas para Pesquisa sobre Desarmamento, disse que o abandono da ratificação do CTBT é parte de uma "ladeira escorregadia" para a retomada dos testes.
“Não sabemos que passos se seguirão e quando, mas sabemos onde termina este caminho. E não queremos ir para lá”, alertou Baklitskiy.
Desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Putin e outras autoridades russas têm frequentemente chamado a atenção para o arsenal nuclear do país - o maior do mundo, numa tentativa de dissuadir outros países de ajudar a Ucrânia a resistir à invasão.A França, um dos signatários originais do tratado, disse “deplorar” a decisão da Rússia de revogar a ratificação, numa reação citada pela Al Jazeera.
Esta intimidação e possível regresso a testes desenvolvidos por uma superpotência nuclear desencadearia um rombo no caminho da não-proliferação trilhado desde a Guerra Fria.
O CTBT de 1996 foi assinado por 187 países e ratificado por 178, mas não pode entrar em vigor até que os restantes oito países resistentes o tenham assinado e ratificado.
China, Egito, Irão e Israel assinaram, mas não ratificaram. Coreia do Norte, Índia e Paquistão não assinaram.
China, Egito, Irão e Israel assinaram, mas não ratificaram. Coreia do Norte, Índia e Paquistão não assinaram.
c/ Reuters