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Guerra na Ucrânia
Kremlin não se compromete com plano de paz chinês mas não o rejeita
Moscovo mantém cautelas face ao plano apresentado há três dias pela China para pôr termo à guerra na Ucrânia e, consciente de que tem em Pequim um aliado de que não poderá prescindir, remete uma posição mais sólida para depois de uma análise detalhada da proposta. O plano lançado para a mesa no final da semana passada parece, entretanto, adensar o enigma do real posicionamento do gigante asiático, também ele com pretensões a territórios vizinhos.
A apresentação do plano chinês para a paz na Ucrânia coincide com a recusa por esses dias de Pequim de condenar a agressão russa, o que aconteceu no encontro do G20, e a abstenção na votação de uma resolução das Nações Unidas a exigir a retirada russa de território ucraniano.
O plano foi proposto apenas dois dias depois de o chefe da diplomacia chinesa se ter reunido com o presidente Vladimir Putin em Moscovo e mantém-se fiel à contenção que neste ano de guerra vem marcando a posição de Pequim em relação ao conflito.O gigante asiático mantém um distanciamento em relação às perspetivas que se opõem no xadrez geoestratégico que torna de momento difícil decifrar o seu real posicionamento face a esta questão.
Ciente de que, mais do que um aliado com peso global, a China representa a possibilidade de evitar o isolamento total, Moscovo não rejeita o plano apresentado na semana passada, deixando a ideia de que a solução deve ser analisada em detalhe, levando em conta os interesses de todos as partes.
A China, que antes da invasão tinha declarado uma aliança "sem limites" com a Rússia, advogou na sexta-feira um cessar-fogo abrangente na Ucrânia. Esta segunda-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, considerou dignas de atenção todas as iniciativas que apontem no sentido da paz.
"Damos toda a atenção ao plano dos nossos amigos chineses", declarou Peskov aos jornalistas, acrescentando essa nota de que "os detalhes terão de ser meticulosamente analisados, levando em conta os interesses de todos os lados. Este é um processo muito longo e intenso".
O representante do Kremlin deixou, no entanto, claro que a Rússia continua centrada na "operação militar especial" na Ucrânia – segundo os termos oficiais russos – e que por agora não vê sinais para o sucesso de uma resolução pacífica do conflito.
Esta reacção do Kremlin surge apenas três dias após uma declaração da porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, que em comunicado se congratulava com a iniciativa chinesa: “Valorizamos fortemente a sincera aspiração dos nossos amigos chineses de oferecer o seu contributo à solução do conflito na Ucrânia por meios pacíficos”.
“À semelhança dos nossos amigos chineses, consideramos ilegítima qualquer medida restritiva não aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU. São ferramentas imbuídas de competência desleal e de guerra económica”, acrescentou Maria Zakharova, assinalando que a Rússia “está disposta a trabalhar numa solução para os objetivos da operação militar especial pelas vias político-diplomáticas”.
Marcado por uma formulação genérica, o plano da China mantém um hábil distanciamento que não o cola a nenhuma das partes do conflito. Apresentado dois dias após um encontro do chefe da diplomacia chinesa com o presidente Vladimir Putin em Moscovo, o esquema de Pequim é constituído por 12 pontos que na realidade não permitem desencriptar a ambiguidade chinesa face ao conflito.
Exemplo desta ambiguidade vislumbra-se no ponto em que é sublinhado o apoio à soberania da Ucrânia ao mesmo tempo que se consideram legítimas as preocupações de segurança da Rússia, sem nunca definir um agressor e um agredido.
Pedindo um cessar-fogo imediato, o plano chinês advoga desde logo negociações de paz e o fim das sanções contra a Rússia, instando – sem nomear países – aqueles que vêm visando Moscovo a “parar de abusar das sanções unilaterais (…) e fazer a sua parte nesta crise”.
A “mentalidade de Guerra Fria” é também atacada no documento, que refere que “a segurança de uma região não deve ser alcançada pelo fortalecimento ou expansão de blocos militares”. Este será um ponto que agradará a Putin, que exigia antes da invasão o comprometimento ucraniano de que não se juntaria à NATO.
Pequim permite-se com a proposta introduzir-se como um interlocutor num processo de paz que mais tarde ou mais cedo terá de vir a acontecer e, ao mesmo tempo, evitar expor-se a investidas dos seus adversários políticos e económicos numa altura em que se desenham as linhas globais das próximas décadas. Dos Estados Unidos têm sido constantes os avisos para uma intervenção mais ativa da China, em particular com o fornecimento de armamento a Moscovo.
O plano foi proposto apenas dois dias depois de o chefe da diplomacia chinesa se ter reunido com o presidente Vladimir Putin em Moscovo e mantém-se fiel à contenção que neste ano de guerra vem marcando a posição de Pequim em relação ao conflito.O gigante asiático mantém um distanciamento em relação às perspetivas que se opõem no xadrez geoestratégico que torna de momento difícil decifrar o seu real posicionamento face a esta questão.
Ciente de que, mais do que um aliado com peso global, a China representa a possibilidade de evitar o isolamento total, Moscovo não rejeita o plano apresentado na semana passada, deixando a ideia de que a solução deve ser analisada em detalhe, levando em conta os interesses de todos as partes.
A China, que antes da invasão tinha declarado uma aliança "sem limites" com a Rússia, advogou na sexta-feira um cessar-fogo abrangente na Ucrânia. Esta segunda-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, considerou dignas de atenção todas as iniciativas que apontem no sentido da paz.
"Damos toda a atenção ao plano dos nossos amigos chineses", declarou Peskov aos jornalistas, acrescentando essa nota de que "os detalhes terão de ser meticulosamente analisados, levando em conta os interesses de todos os lados. Este é um processo muito longo e intenso".
O representante do Kremlin deixou, no entanto, claro que a Rússia continua centrada na "operação militar especial" na Ucrânia – segundo os termos oficiais russos – e que por agora não vê sinais para o sucesso de uma resolução pacífica do conflito.
Esta reacção do Kremlin surge apenas três dias após uma declaração da porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, que em comunicado se congratulava com a iniciativa chinesa: “Valorizamos fortemente a sincera aspiração dos nossos amigos chineses de oferecer o seu contributo à solução do conflito na Ucrânia por meios pacíficos”.
“À semelhança dos nossos amigos chineses, consideramos ilegítima qualquer medida restritiva não aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU. São ferramentas imbuídas de competência desleal e de guerra económica”, acrescentou Maria Zakharova, assinalando que a Rússia “está disposta a trabalhar numa solução para os objetivos da operação militar especial pelas vias político-diplomáticas”.
Um plano sem compromissos
Marcado por uma formulação genérica, o plano da China mantém um hábil distanciamento que não o cola a nenhuma das partes do conflito. Apresentado dois dias após um encontro do chefe da diplomacia chinesa com o presidente Vladimir Putin em Moscovo, o esquema de Pequim é constituído por 12 pontos que na realidade não permitem desencriptar a ambiguidade chinesa face ao conflito.
Exemplo desta ambiguidade vislumbra-se no ponto em que é sublinhado o apoio à soberania da Ucrânia ao mesmo tempo que se consideram legítimas as preocupações de segurança da Rússia, sem nunca definir um agressor e um agredido.
Pedindo um cessar-fogo imediato, o plano chinês advoga desde logo negociações de paz e o fim das sanções contra a Rússia, instando – sem nomear países – aqueles que vêm visando Moscovo a “parar de abusar das sanções unilaterais (…) e fazer a sua parte nesta crise”.
A “mentalidade de Guerra Fria” é também atacada no documento, que refere que “a segurança de uma região não deve ser alcançada pelo fortalecimento ou expansão de blocos militares”. Este será um ponto que agradará a Putin, que exigia antes da invasão o comprometimento ucraniano de que não se juntaria à NATO.
Proteção para prisioneiros de guerra e cessação de ataques a civis são outros pontos da proposta de Pequim. Acrescem dois pontos que têm preocupado os vizinhos da Ucrânia e em geral toda a comunidade internacional: a necessidade de firmar acordos para facilitar a exportação dos cereais ucranianos e a garantia da segurança das centrais nucleares do país.
Pequim permite-se com a proposta introduzir-se como um interlocutor num processo de paz que mais tarde ou mais cedo terá de vir a acontecer e, ao mesmo tempo, evitar expor-se a investidas dos seus adversários políticos e económicos numa altura em que se desenham as linhas globais das próximas décadas. Dos Estados Unidos têm sido constantes os avisos para uma intervenção mais ativa da China, em particular com o fornecimento de armamento a Moscovo.