Kremlin vê "mão visível" dos EUA nos protestos da Geórgia

O Governo russo avisou antigos e atuais aliados e países vizinhos para os perigos de alinharem com os interesses norte-americanos na região. Denunciou ainda os recentes protestos na Geórgia como uma tentativa de “criar irritações junto à fronteira russa”.

Graça Andrade Ramos - RTP /
O ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, em Moscovo Reuters

O Kremlin colocou dois altos responsáveis a falar com os jornalistas para explicar a sua teoria.

À cabeça, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, que denunciou na televisão pública russa uma “tentativa de fazer cair o Governo” da Geórgia, sem contudo fornecer quaisquer provas da acusação. Três dias de protestos violentos nas ruas de Tbilissi, a capital do país, forçaram o Governo a recuar numa nova legislação que iria considerar organizações-não-governamentais como “agentes externos” à semelhança de uma lei russa.

Lavrov considerou estas manifestações como uma “desculpa para iniciar uma tentativa de mudar o executivo pela força”.

“Muito parecido com o que sucedeu na Ucrânia com a Revolução da Praça Maidan”, em 2014, lembrou, deixando nas entrelinhas que esse foi o princípio do azedar de relações entre Kiev e Moscovo, alegadamente patrocinado por Washington, que culminou com a invasão russa em fevereiro de 2022.

“Parece-me que todos os países em torno da Federação Russa deveriam retirar as suas próprias conclusões sobre os perigos de escolher um caminho de alinhamento com a zona de interesses, de responsabilidade, dos Estados Unidos”, aconselhou o ministro russo.
"Mão visível"
Cenários ecoados, em conferência de imprensa em Moscovo, pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que viu na Geórgia uma mão “visível” de “alguém que está diligentemente a tentar integrar aqui elementos anti Rússia”.

“A situação que provocou estes protestos populares não tem nada a ver com a Federação Russa”, acrescentou. “Ao mesmo tempo vemos que a mão de alguém não é ‘invisível’, é mesmo visível”.

A insinuação referente aos Estados Unidos ficou mais clara quando Peskov lembrou que foi a partir daquele país que o Presidente da Geórgia falou ao seu povo.

O porta-voz russo viu ainda riscos de desestabilização na Abkhazia e na Ossétia do Sul, dois estados vizinhos da Geórgia e criticou as restrições colocadas por Yerevan, Arménia, à entrada de deputados russos e gestores de comunicação.
Lavrov denuncia hipocrisia do Ocidente
Para o Kremlin, esta sucessão de acontecimentos denota tentativas para isolar Moscovo a partir de países regionais. Lavrov falou em “irritações”, mas preferiu assestar mais as baterias a Bruxelas do que a Washington.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia falou em “hipocrisia óbvia” da União Europeia na Geórgia, defendendo que a legislação proposta na Geórgia é “semelhante” à que existe nos Estados Unidos, em França, na Índia e em Israel.

O Alto Representante da União Europeia para os assuntos externos, Josep Borrell, afirmou apesar disso que ela seria um “entrave” à entrada da Geórgia na União Europeia, criticou o ministro russo.

Lavrov comparou ainda o apoio de Bruxelas aos “violentos” manifestantes em Tbilissi, face aos ataques às recentes manifestações “pacíficas” em Chisinau, na Moldávia. A União Europeia defendeu ali apenas os seus interesses, acusou o responsável pela diplomacia russa. O governo moldavo, pró-europeu, afirmou que tudo não passou de uma tentativa de golpe de Estado de inspiração russa.
Nervosismo russo
O Ocidente, acrescentou esta sexta-feira Lavrov, está a tentar ainda opor a China e a Índia, apesar da “Federação Russa ser a prioridade do momento”.

“Os indianos dizem-nos francamente que se apercebem destas tentativas, vêm os verdadeiros objetivos da NATO, incluindo a expansão da sua “área de responsabilidade” do Euro-Atlântico para a região da Ásia-Pacífico”, afirmou Lavrov.

Observadores ocidentais consideraram as acusações de Lavrov como prova do crescente “nervosismo” russo face ao enfraquecimento da sua autoridade, da Arménia, ao Azerbaijão, no sul do Cáucaso, até ao Kazaquistão e Tajiquistão, na Ásia Central.

Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa, tem-se referido à guerra na Ucrânia como uma batalha existencial com o Ocidente sobre o futuro tanto da Rússia como dos países abrangidos pela influência imperial russa e soviética, os quais têm sido cortejados pelo Ocidente e pela China, desde o fim da União Soviética.

Brxuelas e NATO afirmam que estão apenas a estabelecer laços legítimos com países independentes e receosos do poder do seu vizinho russo.
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