Mundo
Guerra na Ucrânia
Lealdade de igrejas ortodoxas na Ucrânia questionada com invasão russa
No contexto da invasão russa da Ucrânia, as questões religiosas e as divisões entre fiéis deixam em dúvida a lealdade de algumas igrejas ortodoxas no país. A guerra com a Rússia acentuou não só as diferenças de ideologia política como também de caráter religioso, principalmente numa altura em que muitos mosteiros servem de abrigo a refugiados.
No início da ofensiva russa, soldados ucranianos aperceberam-se de que a base aérea onde estavam, na cidade de Kolomyia, era o alvo de um ponteiro de laser e tentaram descobrir a origem. A ameaça vinha de um edifício religioso, desta zona da Ucrânia Ocidental, gerido por monges ortodoxos leais a Moscovo. No mosteiro, os tropas encontraram ainda comida armazenada em quantidade suficiente para alimentar dezenas de pessoas durante bastante tempo. E armamento.
“É muito, muito surpreendente, porque era um mosteiro”, disse ao Guardian o padre Mykhailo Arsenich, capelão do exército da unidade que revistou a igreja. “Havia um grande stock de alimentos, embalados para uso militar, suficiente para manter de 60 a 65 pessoas durante muito tempo”.
“Encontrámos duas pistolas e uma espingarda de caça, que foi convertida de uma Kalashnikov de combate. Não nos explicaram por que razão os padres precisavam de armas”.
“É muito, muito surpreendente, porque era um mosteiro”, disse ao Guardian o padre Mykhailo Arsenich, capelão do exército da unidade que revistou a igreja. “Havia um grande stock de alimentos, embalados para uso militar, suficiente para manter de 60 a 65 pessoas durante muito tempo”.
“Encontrámos duas pistolas e uma espingarda de caça, que foi convertida de uma Kalashnikov de combate. Não nos explicaram por que razão os padres precisavam de armas”.
A disputa religiosa na Ucrânia não é de agora, mas intensificou-se desde a invasão. A Igreja Ortodoxa ucraniana separou-se, oficialmente, da liderança russa em 2019, mas muitas igrejas e mosteiros mantiveram-se leais à Igreja Ortodoxa da Rússia, tanto na prática religiosa como na fidelidade política.
Milhares de ucranianos têm fugido da guerra e das zonas sob ameaça russa. Durante os bombardeamentos, os civis abrigam-se em bunkers improvisados, em estações de metro, estacionamentos subterrâneos e em edifícios mais robustos. Mas as ligações de algumas igrejas e mosteiros ortodoxos à Rússia deixam muitos cidadãos em dúvida quanto a estes abrigos, por suspeitarem que sejam potenciais bases militares russas ou armazéns de uma força invasora.
Lealdade religiosa ou fidelidade política
A Rússia e a Ucrânia estão dividas há anos tanto por questões políticas como religiosas. Segundo o Times of Israel, a grande maioria da população da Ucrânia é ortodoxa, com uma minoria significativa de católicos ucranianos e ainda grupos menores de protestantes, judeus e muçulmanos.
Em 2019, o atual Patriarca Ecuménico Bartolomeu reconheceu a Igreja Ortodoxa da Ucrânia como independente do patriarca de Moscovo. Mas, na verdade, muitos mosteiros e paróquias permanecem sob o patriarca russo.
“A independência da nossa igreja faz parte das nossas políticas pró-europeias e pró-ucranianas”, afirmou em 2018 o então presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko.
Mas Volodymr Zelensky, atual presidente, é judeu e não apela da mesma forma ao nacionalismo religioso, tendo já conversado com líderes ortodoxos, assim como com os principais representantes católicos, muçulmanos e judeus.
“Todos os líderes rezam pelas almas dos defensores que deram a sua vida pela Ucrânia e pela nossa unidade e vitória. E isso é muito importante”, disse quando começou a invasão.
Já Vladimir Putin, num discurso a 21 de fevereiro, tentou justificar a iminente invasão à Ucrânia com uma narrativa na qual afirmava, sem provas, que Kiev estava a preparar-se para a “destruição” da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo.
A Rússia e a Ucrânia estão dividas há anos tanto por questões políticas como religiosas. Segundo o Times of Israel, a grande maioria da população da Ucrânia é ortodoxa, com uma minoria significativa de católicos ucranianos e ainda grupos menores de protestantes, judeus e muçulmanos.
Em 2019, o atual Patriarca Ecuménico Bartolomeu reconheceu a Igreja Ortodoxa da Ucrânia como independente do patriarca de Moscovo. Mas, na verdade, muitos mosteiros e paróquias permanecem sob o patriarca russo.
“A independência da nossa igreja faz parte das nossas políticas pró-europeias e pró-ucranianas”, afirmou em 2018 o então presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko.
Mas Volodymr Zelensky, atual presidente, é judeu e não apela da mesma forma ao nacionalismo religioso, tendo já conversado com líderes ortodoxos, assim como com os principais representantes católicos, muçulmanos e judeus.
“Todos os líderes rezam pelas almas dos defensores que deram a sua vida pela Ucrânia e pela nossa unidade e vitória. E isso é muito importante”, disse quando começou a invasão.
Já Vladimir Putin, num discurso a 21 de fevereiro, tentou justificar a iminente invasão à Ucrânia com uma narrativa na qual afirmava, sem provas, que Kiev estava a preparar-se para a “destruição” da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo.
Pochayiv Lavra, por exemplo, é um local de culto na Ucrânia há séculos e um mosteiro da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo. Com um conjunto de capelas antigas e subterrâneas e um campanário histórico, o monumento religioso recebe milhares de peregrinos todos os anos. Mas agora, apesar das condições para se tornar um abrigo para os cidadãos, está fechado e praticamente sem fiéis.
A população de Pochayiv, no território ocidental ucraniano, suspeita das posições políticas e religiosas dos monges do mosteiro, que respondem ao patriarca russo Cirilo I de Moscovo (próximo de Putin) e receia que apoiem a invasão russa.
A população de Pochayiv, no território ocidental ucraniano, suspeita das posições políticas e religiosas dos monges do mosteiro, que respondem ao patriarca russo Cirilo I de Moscovo (próximo de Putin) e receia que apoiem a invasão russa.
Mosteiros ucranianos podem ser bases militares russas
Como relata o Guardian, alguns ucranianos afastaram-se de Pochayiv Lavra por temerem que seja considerado um símbolo de Moscovo, outros por não saberem se não é usado como base militar da Rússia e outros tantos por se quererem distanciar de qualquer ligação russa.
“Temo que haja um ataque”, disse ao jornal a gerente de um albergue para peregrinos a algumas centenas de metros do local.
A igreja está fechada para visitantes fora das horas de culto “por causa da situação” no país, explicou um monge.
As armas de fogo encontradas em Kolomyia estavam registadas, ou seja não eram ilegais. Mas a descoberta acentuou as preocupações da região ocidenta de que as tropas russas podem estar a planear usar o mosteiro, a apenas 300 metros do aeródromo, como uma base militar.
“Não encontrámos o ponteiro laser, mas encontramos o local onde achamos que foi usado. Um buraco na parede, virado para o lado certo”, disse Arsenich. “Não tenho dúvidas, se os para-quedistas russos pousarem lá, vão usar a igreja como base”.
Para alguns ucranianos, o patriarca russo “é um membro do FSB e apoia todas as agressões contra a Ucrânia”. As suspeitas das intenções de Cirilo I de Moscovo vêm desde que, em 2014, o patriarca ortodoxo apoiou a anexação da Crimeia por Vladimir Putin, mas acentuaram-se depois de um sermão, nos últimos dia, a alertar contra “as forças do mal” que pretendem destruir a unidade histórica da Rússia e da Ucrânia.
Como relata o Guardian, alguns ucranianos afastaram-se de Pochayiv Lavra por temerem que seja considerado um símbolo de Moscovo, outros por não saberem se não é usado como base militar da Rússia e outros tantos por se quererem distanciar de qualquer ligação russa.
“Temo que haja um ataque”, disse ao jornal a gerente de um albergue para peregrinos a algumas centenas de metros do local.
A igreja está fechada para visitantes fora das horas de culto “por causa da situação” no país, explicou um monge.
As armas de fogo encontradas em Kolomyia estavam registadas, ou seja não eram ilegais. Mas a descoberta acentuou as preocupações da região ocidenta de que as tropas russas podem estar a planear usar o mosteiro, a apenas 300 metros do aeródromo, como uma base militar.
“Não encontrámos o ponteiro laser, mas encontramos o local onde achamos que foi usado. Um buraco na parede, virado para o lado certo”, disse Arsenich. “Não tenho dúvidas, se os para-quedistas russos pousarem lá, vão usar a igreja como base”.
Para alguns ucranianos, o patriarca russo “é um membro do FSB e apoia todas as agressões contra a Ucrânia”. As suspeitas das intenções de Cirilo I de Moscovo vêm desde que, em 2014, o patriarca ortodoxo apoiou a anexação da Crimeia por Vladimir Putin, mas acentuaram-se depois de um sermão, nos últimos dia, a alertar contra “as forças do mal” que pretendem destruir a unidade histórica da Rússia e da Ucrânia.