4 de agosto de 2020. Como está o porto de Beirute dois anos após a explosão?

Passados dois anos da explosão no porto de Beirute, a carcaça dos silos avança para o colapso. A fermentação dos cereais terá estado na origem de um incêndio no interior. A investigação libanesa sobre a segurança do material perigoso armazenado no porto, que despoletou o acidente, está suspensa desde dezembro de 2021.

Carla Quirino - RTP /
Issam Abdallah - Reuters

A 4 de agosto de 2020 o porto de Beirute pulverizou-se com uma explosão de toneladas de nitrato armazenadas no local. Uma das maiores explosões não nucleares da história matou pelo menos 218 pessoas, feriu outras sete mil e deixou um rasto de destruição pela capital do Líbano.

Os silos construídos há 50 anos, com 48 metros de altura, resistiram ao impacto da explosão, mas nas vésperas de se assinalar os dois anos do acidente parte do complexo ruiu. O novo estrondo avivou ainda mais a memória da explosão.

Tatiana Hasrouty perdeu o pai no desastre do porto de Beirute e culpa os políticos pela situação no porto, incluindo aqueles que sabiam que o nitrato de amónio combustível estava armazenado.

 
Famílias das vítimas assinalam os dois anos da tragédia nas ruas de Beirute | Mohamed Azakir - Reuters

"Precisamos de saber a verdade. Precisamos saber quem nos fez isto e responsabilizá-los. Quando responsabilizarmos alguém, não acontecerão mais crimes como este", declarou Hasrouty à Al Jazeera.
Memória versus colapso
Em abril deste ano, o Governo libanês decidiu demolir os silos, mas suspendeu posteriormente a medida. As famílias das vítimas e sobreviventes da explosão protestaram alegando que os silos podem conter dados úteis para a investigação judicial e que devem servir de memorial para o trágico incidente.

Entretanto, há várias semanas os cereais que ainda estão nos silos do bloco norte incendiaram-se. Muitas pessoas acreditam que o fogo foi intencional ou não foi apagado deliberadamente. As autoridades argumentaram que o calor do verão incendiou os cereais em fermentação, a apodrecerem no interior da estrutura.

Divina Abojaoude, engenheira e representante das famílias das vítimas, acredita que, "se o Governo quisesse, poderia ter contido o fogo".

"Mas suspeitamos que eles queriam que os silos caíssem"
, contrapôs.

Citado pela Reuters, o ministro libanês da Economia, Amin Salam, referiu dificuldades para extinguir o fogo, incluindo o risco de os silos ruírem ou de o incêndio se espalhar como resultado da pressão do ar gerada por helicópteros do exército.

O desmoronamento de 31 de julho levantou poeira espessa em redor do porto, enfurecendo a população.

Fadi Hussein, morador de Karantina, disse acreditar que o colapso foi intencional, para remover "qualquer vestígio de 4 de agosto".

Para Mariana Fodoulian, que perdeu a irmã de 29 anos na explosão, tanto o colapso como a tentativa do Governo de demolir todos os silos fazem parte da cultura endémica de impunidade do país, constituindo uma tentativa de apagar a memória.

"Se nenhum silo for deixado de pé no final, quando as gerações futuras crescerem, ninguém poderá dizer o que aconteceu",
realça Fodoulian.
Armazenamento de nitrato de amónio
A explosão resultou da detonação de toneladas de nitrato de amónio, um composto químico combustível normalmente usado na agricultura como fertilizante com alto teor de nitrato, embora também possa ser usado para fabricar explosivos.


Silos colapsados | Issam Abdallah - Reuters

A carga de nitrato de amónio entrou no porto de Beirute num navio de bandeira moldava, o Rhosus , em novembro de 2013, e foi descarregada no hangar 12 a 23 e a 24 de outubro de 2014. Foi esse armazém onde se fazia o manuseio de 2.750 toneladas de nitrato de amónio que se incenciou, provocando a explosão.
Investigação 

Um relatório independente da organização Human Rights Watch, divulgado há um ano, aponta que "múltiplas autoridades libanesas foram, no mínimo, criminalmente negligentes sob a lei libanesa".

Na sequência da notícia, a investigação libanesa revelou que destacados funcionários do Governo e de segurança tinham conhecimento do material perigoso armazenado no porto. Mas ninguém foi até agora condenado. Os funcionários implicados apresentaram contestações legais contra o juiz que lidera o processo. A investigação está suspensa desde dezembro.

Elie Hasrouty perdeu o pai de 59 anos, que trabalhava nos silos no momento da explosão. À Time, Hasrouty diz-se desesperada com o impasse: "Cada dia que passa, com a paralisação da investigação e a disposição do Governo de demolir os silos, é uma continuação do crime de 4 de agosto".
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