Líbano - Uma história de conflitos e de influência síria

Minado por conflitos internos desde o seu reconhecimento internacional, o Líbano viveu 29 anos sob ocupação síria, desde que Damasco enviou tropas para evitar que os cristãos maronitas ganhassem a guerra civil.

Agência LUSA /

O "país do cedro" foi formado em 1920 pelos franceses, sob mandato da Sociedade das Nações, antecessora da ONU, a partir dos despojos do Império Otomano. Paris traçou a fronteira sírio-libanesa de forma a satisfazer as ambições dos cristãos maronitas e enfraquecer os movimentos pan-sírios.

Os maronitas acabaram por ver comprometida a sua pretensão, a partir do momento em que o território incluiu regiões de maioria muçulmana. Os xiitas e sunitas favoreciam uma Grande Síria, projecto de federação previsto no Protocolo de Damasco de 1916.

A Síria nunca reconheceu as fronteiras do Líbano, considerando a separação contra-natura, até porque o traçado lhe reduziu o acesso ao Mediterrâneo.

Em 1976, data da intervenção síria na guerra civil libanesa (1975-90), o Presidente sírio Hafez al-Assad declarou: "A Síria e o Líbano são um único e mesmo povo".

Durante o mandato francês, ao proceder-se à distribuição de poderes no país, coube aos cristãos escolher o Presidente e o primeiro- ministro mas, em 1933, para amenizar as tensões com a comunidade muçulmana, o Presidente Emile Eddé nomeou um sunita para a chefia do executivo.

Em Novembro de 1943, um pacto nacional não-escrito, destinado a completar a Constituição de Março do mesmo ano e baseado num recenseamento de 1932 (o único efectuado até hoje), ficou estabelecido que o Presidente seria maronita, o primeiro-ministro sunita e o presidente do Parlamento xiita.

A 22 de Novembro, o Líbano tornava-se independente, mas as tensões mantinham-se. Em 1958, duas tentativas de assassínio do Presidente Camille Chamun por activistas muçulmanos levou os Estados Unidos a enviar uma força militar.

A entrada de palestinianos em território libanês - primeiro, em 1948, após a criação do Estado de Israel (140 mil), depois, em 1970, vindos da Jordânia (entre 250 mil e 500 mil) - provocou um maior desequilíbrio na sociedade libanesa.

A influência da Organização de Libertação da Palestina, de Yasser Arafat, foi crescendo, com ajuda dos campos de refugiados, na prática, bases de treino para a resistência palestiniana.

Kamal Jumblatt, líder do Movimento Nacional Libanês, composto por grupos islâmicos e marxistas-leninistas, aliou-se a Arafat e quase provocava uma revolução no sistema confessional no Líbano. Só a intervenção de Hafez al-Assad, que o via como uma ameaça ao seu regime alauita minoritário na Síria, impediu a transformação.

A 13 de Abril de 1975, o massacre de 27 palestinianos por cristãos maronitas desencadearia a guerra civil que duraria 15 anos.

No início de 1976, Arafat e Jumblatt (pai de Walid, actual líder dos drusos) lançaram uma ofensiva no Monte Líbano com o intuito de levar à demissão do Presidente Suleiman Franjieh (cristão pró-sírio). Foi o pretexto para que, a 31 de Maio, cerca de dois mil soldados sírios, com blindados e carros de combate, entrassem no Líbano.

Os Estados Unidos aprovaram o pedido de ajuda à Síria feito pelo Presidente Franjieh, e o próprio Kissinger negociou os contornos do acordo entre a Síria e Israel.

Kamal Jumblatt seria assassinado em Março de 1977, num atentado cuja autoria foi imputada a Damasco.

Depois das invasões israelitas de 1978 e 1982, os cristãos deixaram de ser os aliados dos sírios, preferindo Damasco dar o apoio aos muçulmanos, sobretudo às duas formações xiitas libanesas - Amal e Hezbollah.

O general maronita Michel Aun, comandante do exército libanês, combateu os aliados da Síria no Líbano até que, em Outubro de 1990, as tropas sírias intervieram na batalha entre cristãos, obrigando o general ao exílio em França.

Aun foi uma das vozes mais discordantes do Acordo de Taif que colocou fim à guerra civil em 1990. Para o general as bases da paz reduziam os privilégios da comunidade cristã do Líbano.

O acordo estabelecia que as tropas sírias deviam deixar Beirute em 1992, recuando até às montanhas do centro do país e o vale de Bekaa numa primeira fase, antecedendo a retirada total.

Damasco não fez caso e nesse mesmo ano ajudou a eleger, como primeiro-ministro, o multimilionário sunita Rafic Hariri.

Em Maio de 2000, as tropas israelitas retiraram do sul do Líbano. No ano seguinte, a Síria procedeu à retirada de uma parte substancial dos seus militares, mantendo, no entanto, a influência na política libanesa.

Em Setembro de 2004, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 1559, promovida por Estados Unidos e França, exigindo à Síria que retirasse as suas tropas e os agentes dos serviços secretos.

Em Outubro, Hariri demitiu-se da chefia do Governo como protesto contra as alterações da Constituição impostas por Damasco, prolongando até 2007 o mandato do Presidente Emile Lahud.

O seu assassínio, a 14 de Fevereiro deste ano, num violento atentado cuja autoria foi atribuída à Síria, desencadeou manifestações contra a presença de militares sírios no Líbano, levando mesmo a oposição a unir-se para exigir a retirada.

O Presidente sírio, Bashar al-Assad, comprometeu-se a retirar os seus soldados o que ficou concluído esta semana, como comprovaram as Nações Unidas.

No anúncio da retirada, Al-Assad aproveitou para deixar a advertência: "A retirada síria não significa que o seu papel desaparecerá. Pelo contrário, estaremos mais livres para a nossa cooperação com o Líbano".

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