Líder dos republicanos no Senado tira tapete a Trump ao reconhecer vitória de Biden

O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, quebrou o silêncio e congratulou na terça-feira o Presidente eleito, Joe Biden. Ao reconhecer a vitória do democrata, McConnell está na prática a destruir a última esperança do seu aliado Donald Trump, que procurava conseguir uma reviravolta na reunião do Congresso dos EUA, a 6 de janeiro.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Reuters

Um dia depois de o Colégio Eleitoral ter confirmado a vitória de Joe Biden (que reuniu o apoio de 306 delegados contra 232 de Trump) e 38 dias após ter sido anunciado como 46.º Presidente dos Estados Unidos, o líder dos republicanos decidiu finalmente quebrar o silêncio e tirou o tapete debaixo de Trump ao congratular o democrata pela sua vitória nas eleições.

"Muitos de nós esperávamos que a eleição presidencial produzisse um resultado diferente. Mas o nosso sistema político tem os seus processos para determinar quem será empossado em 20 de janeiro. O Colégio Eleitoral pronunciou-se", disse Mitch McConnell num discurso no Senado.

McConnell também congratulou a vice-presidente eleita, Kamala Harris: “Todos os americanos podem orgulhar-se por a nossa nação ter uma vice-presidente eleita pela primeira vez”. Em resposta aos comentários do líder republicano no Senado, Kamala Harris afirmou que “teria sido melhor se tivesse sido antes, mas aconteceu, e isso é o mais importante. Vamos seguir em frente”.

Momentos depois, Biden anunciou que contactou McConnell para lhe agradecer as felicitações e que os dois concordaram em se encontrar “mais cedo ou mais tarde”.

As declarações de McConnall contrastam com o silêncio dos republicanos até agora ou mesmo com declarações em sentido contrário, quando muitos apoiantes de Trump se recusavam a assumir a vitória de Biden, alinhando com as acusações de "fraude eleitoral" que continuam a ser evocadas pelo Presidente cessante.
Fim de linha para Trump?
O reconhecimento do líder da maioria republicana no Senado é um passo importante para Biden, dado que nenhuma lei pode ser aprovada nos Estados Unidos sem passar pela câmara alta, que também tem o poder de aprovar as nomeações do Presidente, incluindo os responsáveis dos departamentos, os juízes e embaixadores.

Por outro lado, o gesto de McConnell vem alterar o plano da última manobra de Trump para invalidar a vitória de Biden. O ainda Presidente dos EUA poderia conseguir uma reviravolta no dia 6 de janeiro, altura em que o Congresso vai contar e retificar os votos enviados pelo Colégio Eleitoral antes da tomada de posse do Presidente, a 20 de janeiro.

Normalmente, este é apenas um processo formal, dado que o Presidente eleito foi já confirmado pela contagem feita pelo Colégio Eleitoral. No entanto, se existirem objeções ou se, de alguma forma, alguns delegados não votarem conforme o previsto e nenhum candidato obtiver os 270 delegados necessários, será o Congresso – formado pela Câmara dos Representantes e pelo Senado – a nomear o próximo Presidente e vice-presidente. E é aqui que Donald Trump poderia usar o seu trunfo.

É, porém, um plano de difícil execução. Mesmo que a vitória de Biden não tivesse recebido o reconhecimento de McConnell, o plano seria já difícil de colocar em prática. A Constituição americana permite a contestação do resultado nessa data, mas existem algumas exigências: a objeção tem de ser colocada por escrito e assinada por, pelo menos, um deputado e um senador e, posteriormente, tem de ser votada e aprovada tanto na Câmara dos Representantes (de maioria democrata), como no Senado (atualmente de maioria republicana).

Apesar de alguns deputados do Partido Republicano já terem anunciado que vão contestar os votos de alguns Estados, a maioria democrata na Câmara dos Representantes não irá aprovar tal contestação e parece agora pouco provável de obter igualmente aprovação no Senado.
Eleições para o Senado
Um dia antes da reunião do Congresso realizam-se as eleições para o Senado – uma data importante para Biden, que procura o apoio de ambas as câmaras.

Os republicanos estão a um lugar de garantir maioria. Têm atualmente 50 lugares no Senado, contra 48 dos democratas, quando faltam ainda definir duas das 100 cadeiras da câmara alta do Congresso, que serão disputadas numa segunda volta, a 5 de janeiro, no Estado conservador da Geórgia, onde Biden conseguiu vantagem sobre Trump com apenas 14 mil votos.

Assim, para darem mais margem de manobra política ao Presidente eleito, os democratas precisam de ganhar esses dois lugares, que lhes daria um empate em termos de senadores (50-50), que nas votações seria resolvido pela vice-Presidente Kamala Harris.

Caso os democratas consigam a maioria no Senado, passam a controlar as duas câmaras e o plano de Trump de uma eventual reviravolta na liderança da Casa Branca estará, definitivamente, condenado. Se os republicanos conseguirem manter a maioria e McConnell permanecer no seu cargo, continua a ser pouco provável que a manobra do ainda Presidente dos EUA consiga seguir em frente, dado que o líder dos republicanos no Senado já apelou aos seus parceiros na câmara alta a não contestarem os resultados do Colégio Eleitoral na reunião que decorre a 6 de janeiro.

No entanto, para Biden e para o seu plano legislativo, a conservação da maioria republicana no Senado será um obstáculo para a sua liderança, dado que nada terá uma aprovação fácil no Congresso se o líder da maioria mantiver a sua posição atual.

Para além de McConnell, esta semana vários outras figuras relevantes do Partido Republicano começaram a admitir a vitória de Biden - depois de várias semanas de silêncio sobre o resultado das eleições presidenciais, cujo resultado Donald Trump ainda contesta, falando em "fraude eleitoral" -- e assumindo a transição de poder.

"Em algum momento, temos de enfrentar a música", disse John Thune, senador republicano pelo Dakota do Sul, explicando que "é hora de todos seguirmos em frente".

Também o senador republicano Roy Blunt, do Missouri, presidente da comissão inaugural, disse que a sua equipa no Congresso passar a tratar Biden como Presidente eleito, até à tomada de posse.

Após a confirmação da vitória de Biden na segunda-feira, três líderes mundiais quebraram também o silêncio ao felicitar o Presidente eleito na terça-feira: Vladimir Putin, da Rússia, Jair Bolsonaro, do Brasil, e Andrés Manuel López Obrador, do México.

c/ agências
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