Líderes europeus pedem urgência na formação de governo na Grécia

Rapidez na formação de um governo de coligação com robustez parlamentar, que leve por diante a receita de austeridade desenhada pela troika, é o que as instituições europeias e credores da Grécia esperam da Nova Democracia, o partido que venceu com uma vantagem curta as eleições legislativas de domingo. O líder dos conservadores gregos, Antonis Samaras, parte para as conversações a prometer esforçar-se por dotar o país de um executivo de “salvação nacional”. E a garantir que “não haverá novas aventuras”. Mas as negociações podem ser, uma vez mais, complexas. A coligação Syriza, segunda força mais votada, já fez saber que vai ser oposição. Os socialistas do PASOK, em terceiro lugar, querem ver a esquerda radical no novo elenco de ministros.

RTP /
"Não haverá novas aventuras. Não haverá contestação ao lugar da Grécia na Europa", declarou o líder da Nova Democracia, Antonis Samaras Alexandros Vlachos, EPA

Ao alívio segue-se a expectativa. Os líderes da Europa comunitária e da moeda única estenderam a mão a Atenas depois da confirmação da vitória dos conservadores sobre a esquerda dita radical nas legislativas gregas. Um resultado que afasta, para já, a perspectiva de abandono do programa de resgate financeiro suportado pela troika do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia. Mas a distribuição de lugares no Parlamento deixa também antever a possibilidade de negociações difíceis e, no limite, de um novo impasse.“Imperativo categórico”

Esta manhã o Presidente grego afirmou haver “um imperativo categórico” para a obtenção de progressos nas negociações políticas já esta segunda-feira.

Carolos Papoulias falava pouco antes de confiar ao líder da Nova Democracia o mandato “exploratório” com vista à formação de um governo.

Antonis Samaras tem agora três dias para conseguir um acordo de coligação. Se o não fizer, o mandato reverte para o líder da esquerda radical Alexis Tsipras.

Após a audiência com o Presidente da República, Samaras estimou também que deve ser formado “imediatamente” um governo de “consenso nacional”: “O consenso nacional é um imperativo reclamado por toda a gente. É preciso resolver a questão imediatamente”.

“Vou começar a reunir-me com os dirigentes dos outros partidos e creio que há margem para o conseguir”, antecipou o líder da Nova Democracia.


Quando estavam apurados 99,95 por cento dos votos, o partido conservador Nova Democracia obtinha 29,66 por cento, garantindo 129 dos 300 assentos parlamentares em jogo. Em segundo lugar, a coligação Syriza obtinha 26,89 por cento dos sufrágios e 71 assentos parlamentares. A terceira posição é do PASOK, com 12,28 por cento dos votos e 33 assentos.

Segue-se a formação de direita nacionalista Gregos Independentes (7,51 por cento e 20 assentos parlamentares), o partido de extrema-direita Aurora Dourada (6,92 por cento e 18 assentos), a formação de esquerda Dimar (6,26 por cento e 17 assentos) e os comunistas do KKE (4,5 por cento e 12 assentos parlamentares).

No momento de reclamar vitória, o líder da Nova Democracia apressou-se a propor a formação de um governo de “salvação nacional” que garanta o respeito pelas “assinaturas do país” nos sucessivos memorandos celebrados com a troika.

“O povo grego votou pelo mercado europeu e pela nossa manutenção no euro. Votou por políticas que gerem empregos, crescimento e justiça para o cidadão grego. Não haverá novas aventuras. Não haverá contestação ao lugar da Grécia na Europa”, declarou Antonis Samaras, para depois convidar “todas as forças que partilham estes objetivos a participarem num governo de salvação nacional”.
“Não há um dia a perder”
O apelo de Samaras encontra desde já uma porta fechada. A da coligação Syriza, cujo líder prometera rasgar o programa de resgate financeiro da troika. Num discurso perante apoiantes reunidos em Atenas, Alexis Tsipras, o homem que alarmou as instituições europeias ao projetar medidas como a nacionalização de bancos, a anulação dos planos para o corte de 150 mil postos de trabalho na Função Pública e a revalorização de salários e pensões de reforma, quis clarificar de imediato que a sua formação estaria “presente nos desenvolvimentos” dos próximos dias como “a principal oposição”.

Do PASOK emanam sinais de que haverá finca-pé na necessidade de alargamento do novo governo à esquerda radical. Por motivos que podem ser meramente táticos. Ou seja, mostrar Tsipras à opinião pública como um responsável político que é incapaz de desempenhar um papel construtivo.

Colocando a tónica na urgência, o líder socialista, Evangelos Venizelos, sugeria ontem uma coligação que abarcasse Nova Democracia, Syriza, PASOK e Dimar (Esquerda Democrática): “Não há um dia a perder. Não há espaço para jogos partidários. Se queremos que a Grécia permaneça realmente no euro e saia da crise para benefício de todas as famílias gregas, teremos de conseguir um governo amanhã”.

Por outro lado, PASOK e conservadores terão de afinar posições em matéria de resgate financeiro. Embora faça a apologia da austeridade, Antonis Samaras já avisou que qualquer coligação que resulte destas eleições deverá renegociar as condições do programa de resgate financeiro em vigor – o segundo desde maio de 2010 -, alargando o prazo de ajustamento de 2014 para 2016. O seu adversário socialista prefere ver o calendário estendido até 2017. Qualquer destes cenários é fonte de inquietação para os credores internacionais do país.
“O povo grego falou”
A agitação da noite eleitoral grega ainda não tinha arrefecido quando os ministros das Finanças dos países-membros da Zona Euro fizeram publicar um comunicado a manifestar a esperança num célere processo político em Atenas. Reafirmando o seu compromisso para com a assistência financeira à Grécia, o Eurogrupo sublinhou a expectativa de que a missão do Fundo Monetário Internacional, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia possa regressar à capital grega “assim que um novo governo esteja em funções”.

No mesmo sentido, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, e o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, manifestaram a “esperança de que os resultados das eleições permitam que seja formado rapidamente um governo”. “O povo grego falou e respeitamos integralmente a sua escolha democrática”, ressalvaram os dois responsáveis numa nota conjunta.

Entre os primeiros dirigentes que felicitaram Antonis Samaras esteve Angela Merkel. A chanceler alemã telefonou ao líder da Nova Democracia para o cumprimentar pelo “bom resultado”. Mas sobretudo para sinalizar que Berlim “parte do princípio de que a Grécia vai respeitar os seus compromissos europeus”. O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, aplaudiu “a decisão dos eleitores gregos de prosseguir a implementação de profundas reformas económicas e fiscais”.

Na estância turística mexicana de Los Cabos, onde hoje tem início a cimeira do G20, o chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy, revelou que os dirigentes europeus que integram os trabalhos conversaram ao telefone no domingo, tendo acertado a intenção de “transmitir uma mensagem de confiança no euro”. Rajoy foi ao ponto de estimar que os eleitores gregos “acertaram” e que os resultados das legislativas constituíram uma “notícia muito boa para a Grécia, para a União Europeia, para o euro e também para Espanha”, país a braços com as ondas de choque do pedido de resgate da banca.
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