Liga Árabe critica al-Assad por falta de proteção dos observadores
Onze monitores da Liga Árabe ficaram ligeiramente feridos a semana passada quando os veículos em que seguiam foram atacados na cidade portuária de Latakia. O incidente está a suscitar críticas severas à Síria por parte de vários dirigentes da Liga Árabe, que exigem a Damasco que proteja os observadores, numa aparente resposta às críticas proferidas por Assad no seu recente discurso, contra a Liga Árabe.
A notícia do ataque, ocorrido a semana passada, foi dada pelo responsável da sede operacional da Liga Árabe, no Cairo.
Segundo Adnan al-Khodheir os atacantes em Latakia seriam opositores mas, o incidente não afetou a missão. “Não foram disparados tiros”, assegurou al-Khodheir. Os ferimentos causados foram “muito ligeiros” e ninguém teve de ser hospitalizado, acrescentou.
Críticas Árabes
Horas depois o líder da Liga Árabe, Nabil al-Arabi, denunciou o ataque e criticou fortemente o regime sírio.
“A Liga Árabe denuncia as ações irresponsáveis e os atos de violência contra os observadores” lê-se num comunicado, onde al-Arabi acrescenta que considera o “governo sírio como plenamente responsável pela proteção da missão.”
Discurso ao ataque
Os violentos ataques de al-Arabi e de al-Nahyane contra
Damasco são uma aparente resposta ao tom desafiador assumido pelo presidente Bashar
al-Assad, no seu discurso na televisão síria, proferido há poucas horas.
Falando à nação, Bashar al-Assad, perguntou que direito têm
os outros governos árabes, incluindo as monarquias absolutas do Golfo, de dar
lições à Síria sobre democracia e reformas.
“A situação deles é semelhante à de
um médico fumador que aconselha o seu paciente a deixar de fumar, enquanto ele
mesmo, médico, tem um cigarro na boca”, considerou al-Assad.
O Presidente sírio acrescentou que, o seu país não irá “fechar
as portas” a uma solução elaborada pela Liga Árabe que ponha fim aos 10 meses
de revolta, desde que respeite a soberania síria.
Al-Assad afirmou ainda que foi sua a ideia da missão de observadores, “para que apurassem a verdade”. E acusou “conspiradores
internacionais” de “desestabilizar” a Síria, garantindo ainda que não foram
dadas ordens às forças de segurança para abrirem fogo sobre civis.
“Por lei,
ninguém pode abrir fogo, exceto em autodefesa”, afirmou al-Assad.
Outros governos árabes criticaram igualmente Damasco, alegando
que nem todos os ataques aos monitores vieram da oposição.
“O trabalho dos monitores está tornar-se cada vez mais difícil (…) e não vemos nenhuma preocupação do lado sírio para lhes assegurar” o cumprimento da sua missão, afirmou o sheik Abdallah ben Zayed al-Nahyane, ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emirados Árabes Unidos.
Al-Nahyane acrescentou “infelizmente houve ataques contra eles [os monitores] que não vieram da oposição, o que é um mau sinal”.
O ministro sírio dos Negócios estrangeiros garantiu logo depois em comunicado que o governo se mantém disposto a cooperar com a Liga Árabe e que Síria irá “continuar a assumir a sua responsabilidade na segurança e proteção dos monitores.”
Reforma constitucional e eleições
No seu discurso de hora e meia, proferido na Universidade de Damasco, al-Assad disse que mantém o apoio do povo sírio e que “quando abandonar o cargo, será pela vontade do povo”.
O Presidente sírio prometeu de novo reformas, entre elas um referendo possivelmente “em março” sobre a nova constituição, a que se seguiriam em poucos meses, provavelmente em maio, eleições multipartidárias que abrissem o governo a representantes de todos os partidos.
Em tom de desafio, Assad apelou aos seus apoiantes para se manterem “firmes”, dizendo-lhes que “a vitória está próxima” e que as forças externas foram incapazes de “encontrar o apoio que esperavam na revolução”.
Prometeu ainda atacar alegados terroristas responsáveis por atentados bombistas em Damasco e por espalhar a violência.
“Incitação à violência”
"Novo Massacre"
A missão dos observadores é garantir que Damasco está a
cumprir as exigências da Liga Árabe, entre elas a libertação de prisioneiros e o fim
da repressão armada da revolta.
Damasco libertou milhares de pessoas e retirou equipamento
militar pesado das ruas de algumas cidades mas a violência continua.
Há poucas horas o
Observatório sírio dos Direitos Humanos denunciou mais “um massacre”.
Numa manifestação em
Deir Ezzor, dez civis foram mortos e mais quarenta feridos por forças de
segurança que atiraram sobre manifestantes que
protestavam pacificamente, denunciou a organização. A oposição síria reagiu ao discurso dizendo que “incitou à
violência”, pressagiando um “comportamento ainda mais criminoso” por parte do
regime de Damasco.
“Há incitação à violência, incitação à guerra civil, palavras a propósito da divisão confessional que o regime ele próprio fomenta e encoraja”, declarou em conferência de imprensa em Istambul, Turquia, Bassma Qodmani, membro do CNS, que agrupa a maioria dos grupos de oposição.
Já segunda-feira, o primeiro ministro turco Recep Tayyp Erdogan, prevenira que a escalada da crise síria “se encaminha para uma guerra religiosa, sectária e racial, e isto tem de ser evitado”.
“A Turquia tem de assumir a liderança aqui, pois a situação atual representa uma ameaça à Turquia”, acrescentou Erdogan.
A crise síria vai ser de novo debatida pelo Conselho de Segurança da ONU esta tarde.