Liga Guineense dos Direitos Humanos descreve "perseguição total" no país

Lisboa, 22 out (Lusa) -- O clima na Guiné-Bissau é de "perseguição total" e "medo generalizado", descreve o presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, defendendo uma "peritagem isenta" aos incidentes da madrugada de domingo, em Bissau, que resultaram em seis mortos.

Lusa /

"Temos seguido com atenção as perseguições que estão sendo levadas a cabo internamente, no país", disse Luís Vaz Martins, à agência Lusa, em Lisboa, onde se encontra.

"Temos estado a receber, a cada minuto, chamadas de pessoas apavoradas, que estão a buscar refúgio para se resguardarem e não serem atacadas por indivíduos armados", indicou, questionado sobre uma eventual "caça ao homem" em curso. "Há uma perseguição total, vive-se num clima de medo generalizado", confirmou.

"Segundo as nossas fontes no terreno, indivíduos ligados à Frenagolpe [frente nacional antigolpe de Estado desencadeado a 12 de abril] e ao PAIGC [Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, no poder até ao golpe de 12 de abril] estão sendo perseguidos", adiantou o presidente da Liga.

Já "terão sido efetuadas algumas detenções", o que "não abona ao bom nome da Guiné-Bissau, nem ajuda este processo de transição em curso", considera Luís Vaz Martins, recordando que cabe aos tribunais deterem e julgarem pessoas.

Na madrugada de domingo, um grupo de homens armados tentou tomar pela força o quartel dos paracomandos, uma unidade de elite das forças armadas da Guiné-Bissau, do que resultaram seis mortos, todos do grupo assaltante.

Sem se pronunciar sobre se os seis mortos terão resultado de confrontos ou de execuções premeditadas, o presidente da Liga realçou que "era bom que houvesse uma investigação independente para se apurar aquilo que aconteceu".

Apelando "à ponderação, ao diálogo", a Liga "condena qualquer tipo de ato violento e que atente contra a integridade física dos cidadãos", frisou, destacando que "não será por esta via que a Guiné-Bissau irá encontrar o melhor caminho para a resolução do problema".

Defendendo uma "concertação" de posições entre diferentes entidades internas e diferentes instituições internacionais, a Liga Guineense dos Direitos Humanos voltou a reivindicar que as Nações Unidas tomem "a liderança" do processo de transição em curso, integrando "outras forças", como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a União Africana.

"A monopolização deste processo pela CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental] vai levar-nos a uma crise mais profunda", sustenta.

Na opinião de Luís Vaz Martins, a CEDEAO, única entidade internacional que reconheceu o golpe de Estado de 12 de abril, que depôs o Presidente interino e o Governo guineenses eleitos, tem "absolutamente" sido mais um problema do que uma solução.

"A outra parte [que se opõe às autoridades de transição impostas pelos golpistas] nem sequer reconhece a CEDEAO como uma parte isenta para buscar uma solução duradoira para a nossa crise", recorda.

Segundo a informação prestada pelo Governo de transição, os incidentes da madrugada de domingo são da responsabilidade de um grupo comandado pelo capitão Pansau N´Tchama. Os golpistas acusam Portugal, a CPLP e o primeiro-ministro guineense deposto, Carlos Gomes Júnior, de envolvimento no ataque.

"Em tempo de crise, o mais importante é ter a serenidade para, conjuntamente, encontrar uma solução de saída", frisou o presidente da Liga, rejeitando que "qualquer uma das partes tente culpabilizar ou responsabilizar a contraparte".

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