Livro revela cumplicidades do Reino Unido em crimes de guerra no Nepal

O escritor britânico Thomas Bell publicou, no livro "Kathmandu", uma detalhada investigação sobre a cumplicidade dos serviços secretos de Sua Majestade com a ditadura nepalesa recentemente derrubada. As organizações de direitos humanos querem agora responsabilizar os autores de torturas, sequestros e assassínios, mas o próprio Governo maoista vencedor da guerra civil tem-se oposto a esse desígnio.

RTP /
Thomas Bell, no lançamento do livro "Kathmandu" DR

No pico da guerra civil nepalesa, o MI6 (serviço secreto britânico) lançou no Nepal a chamada "Operação Mustang", que iria durar quatro anos, de 2002 a 2006. Nesse lapso de tempo, o MI6 ajudou a organizar a agência de espionagem nepalesa National Investigation Department (NID), instalou casas seguras para operações secretas da ditadura do rei Gianendra, treinou tropas nepalesas em missões de vigilância e contra-insurgência.Um livro incómodo para o Reino UnidoBell levou a cabo a sua investigação enquanto trabalhava para o South China Morning Post e depois, durante dois anos, em Bangkok, para o Daily Telegraph. Ele cita fontes do Exército nepalês, dizendo que "a ajuda britânica reforçou grandemente a capacidade [do Exército nepalês e do NID] e levou a cerca de 100 detenções". E acrescenta: "É difícil fazer uma estimativa exacta, mas certa parte dos detidos foram torturados e desapareceram".

Um dos comandantes da insurgência maoista, Sadhuram Devkota, foi detido no âmbito da "Operação Mustang", em Novembro de 2004, e seis semanas depois apareceu enforcado na sua cela, alegadamente por "suicídio".

O livro de Bell baseia-se numa investigação exaustiva, em que realizou vinte entrevistas com fontes altamente colocadas. Entre as declarações que recolheu conta-se a de uma porta-voz do Foreign Office: "Não comentamos assuntos dos serviços secretos, mas várias vezes deixámos claro que o Reino Unido não participa, solicita, encoraja ou cauciona o uso de torturas ou de tratamentos ou castigos cruéis, desumanos e degradantes".

Num excerto do livro publicado no Hindustan Times, Bell apresenta uma outra visão do papel do MI6: "Não há dúvida que os britânicos sabiam como o Exército tratava os prisioneiros. O embaixador britânico protestou fortemente junto do chefe de Estado Maior do Exército no início de 2002, quando um homem que ia receber a pensão de reforma de Gurka do seu pai foi detido no Centro de Assistência aos Gurkas Britânicos, levado para um campo do Exército e sumariamente abatido"

E acrescenta: "O relatório da ONU sobre a tortura e desaparecimento no Batalhão de Bhairabnath no final de 2003 veio a público em Maio de 2006, e cinco meses depois a 'Operação Mustang' foi encerrada". Segundo o relatório, em 2003 o Nepal era em todo o mundo o país com mais desaparecidos, e quase todos os desaparecimentos eram causados pelas forças governamentais.

Na verdade, quando a "Operação Mustang" foi encerrada isso não se deveu apenas às revelações da ONU, mas também ao tiro no pé que deu o rei Gianendra, com o golpe de Estado de Fevereiro de 2005, que acelerou exponencialmente a degradação da relação de forças em seu desfavor e que tornou inevitável a vitória maoista na guerra civil.As decepções pós-revolucionáriasA publicação do livro de Bell estimulou organizações de direitos humanos e familiares dos desaparecidos a reclamarem justiça e, concretamente, a reclamarem que o Reino Unido assuma as suas próprias responsabilidades na "guerra suja". A televisão qatariana Al Jazeera cita declarações de Ram Bhandari, fundador da Rede Nacional de Famílias dos Desaparecidos, afirmando: "É uma vergonha que o Reino Unido tenha ajudado as forças de segurança nepalesas a cometerem crimes contra a humanidade, e o seu Governo decida permanecer em silêncio sobre isso (...) O Governo do Reino Unido deve uma explicação às famílias dos desaparecidos".

Bell, por sua vez, apoia a exigência dos familiares dos desaparecidos e considera que os responsáveis do Governo britânico "deveriam responder sobre o que fizeram, por que é que o fizeram, o que aconteceu com as vítimas, e o que sabem sobre as violações de direitos humanos durante esse perído".

Mas a contestação dos activistas de direitos humanos e familiares dos desaparecidos não visa apenas o Reino Unido. Também o primeiro ministro maoista Baburam Bhattarai recebe fortes críticas por ter, em 2012, promovido o coronel Raju Basnet, considerado pela ONU como responsável de pelo menos 49 desaparecimentos.
Tópicos
PUB