Livro sobre história de São Tomé desmonta mito de que Amador era rei dos angolares

Um livro sobre a história de São Tomé e Príncipe desconstrói a ideia de que o herói são-tomense Amador, que se autointitulou rei de São Tomé, seria apenas rei dos angolares, atribuindo o mito ao poder colonial.

Lusa /

"Amador, que foi um negro escravo que se revoltou contra o poder instituído em finais do século XVI, (...) não foi rei dos angolares, ele intitulou-se rei da ilha de São Tomé e não rei de um grupo", explicou à Lusa Armindo de Ceita do Espírito Santo, autor do livro "História de São Tomé e Príncipe", que será lançado na segunda-feira em Lisboa.

Os angolares constituem um grupo de nativos de São Tomé e Príncipe, "mas ele não era rei daquele grupo, ele intitulou-se rei de todos da ilha de São Tomé", explicou o investigador, acrescentando: "Portanto foi um mito que se criou".

Amador, que em 1595 chefiou uma das mais importantes revoltas na ilha de São Tomé, foi escolhido como um dos heróis nacionais pelo primeiro governo pós-independência, que tentou assim contrariar a teoria de que os são-tomenses nada teriam feito pela independência, tendo-a recebido "de bandeja", conta o livro.

Apesar de numerosos, os seus homens, maioritariamente escravos revoltados com a situação em que viviam, estavam mal preparados e mal armados e foram dizimados pelos militares do regime colonial português, acabando Amador por ser preso, morto e esquartejado.

Segundo o livro de Armindo do Espírito Santo, o mito de que Amador seria rei dos angolares terá sido criado pelo regime colonial, que assim reduzia "a importância da revolta que ele liderou naquele período" e impunha "a sua característica divisionista aos são-tomenses".

Outro mito que o livro desmonta é o de que a ilha de São Tomé já seria habitada antes da chegada dos portugueses, em 1943.

"O livro explica claramente que não há elementos que mostrem que ela tivesse sido habitada quando os portugueses lá chegaram", esclarece o autor.

Segundo o livro, com Álvaro de Caminha, que fez o povoamento das ilhas a partir de 1493, chegaram ao arquipélago, os primeiros povoadores, como degredados, escravizados africanos e muitas crianças judias, meninas e meninos com menos de oito anos, que tinham sido retiradas aos pais após a sua conversão ao catolicismo.

Autores admitem que tenham chegado a São Tomé até 2.000 destas crianças, mas em 1506 já só haveria 600, o que poderá explicar-se, segundo o investigador, com as doenças tropicais, a dureza do clima e a falta de cuidados adequados, na ausência dos pais.

O livro contraria ainda a tradição oral segundo a qual os angolares, um importante grupo étnico na ilha de São Tomé, seriam descendentes dos sobreviventes de um navio negreiro que teria naufragado na parte sul da ilha no século XVI.

Segundo Armindo do Espírito Santo, estudos mostram que eles são provavelmente descendentes dos primeiros escravos negros provenientes de Angola que, depois de desembarcarem em São Tomé e de se fixarem nas plantações e nos engenhos de açúcar, fugiram e se refugiaram no mato.

Desde o início da ocupação da ilha que os escravizados fugiam, isoladamente ou em pequenos grupos, dos castigos dos europeus para o mato, onde permaneceram durante séculos, vindo a ser chamados de angolares a partir do século XIX, conclui o autor.

O livro, que o autor decidiu escrever por considerar que havia um vazio na divulgação da história do seu país, é o primeiro de três e foca a história do arquipélago de São Tomé e Príncipe desde a descoberta até meados do século XIX, devendo a história posterior ser tratada nos próximos volumes.

Armindo do Espírito Santo é economista e investigador do Centro de Estudos sobre África e desenvolvimento (CEsA) do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa (ISEG-UL), sendo autor de vários sobre economia, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde.

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