Lula da Silva associa reeleição indefinida de Chávez a "aperfeiçoamento do processo democrático"
Caracas, 16 Jan (Lusa) - O Presidente do Brasil associou hoje a realização de um referendo para emendar a Constituição venezuelana, com vista à reeleição de Hugo Chávez, a um "aperfeiçoamento do processo democrático venezuelano" e à "liberdade política" no país.
Lula da Silva falava aos jornalistas, junto ao seu homólogo venezuelano, durante uma visita a uma plantação agrícola, no Estado venezuelano de Zúlia (800 quilómetros a oeste de Caracas).
"Eu aprendi uma coisa nestes anos de política: essa pergunta é feita para os candidatos de esquerda com mais força", disse o Presidente brasileira respondendo a uma questão sobre eventuais pretensões de permanência indeterminada no poder de chefes de Estado na América do Sul.
"Uribe (Álvaro, Colômbia) estava querendo um terceiro mandato e ninguém perguntava porquê", continuou Lula da Silva, vincando que Margaret Thatcher, Felipe Gonzáles e outros governantes permaneceram longo tempo no poder.
O Presidente brasileiro explicou que é importante "aprender a respeitar a cultura de cada pais, a vontade de cada povo" e entender que o processo democrático "não é um cidadão não poder concorrer mais", mas "garantir a todos o direito de participar".
No seu entender "o Brasil é um país que tem um processo de construção democrático muito novo", disse Lula da Silva.,
"Estamos num processo de construção, de fortalecimento das instituições" e isso, prosseguiu, "não impede que daqui a algum tempo apareça um partido político, um conjunto de deputados, que proponha mudar a lei, que permite apenas uma reeleição".
"Na hora que você tiver instituições consolidadas e liberdade política isso vai acontecer", disse.
Lula da Silva frisou ainda que tem sido criticado muitas vezes no Brasil por defender o "processo" venezuelano, e que o faz porque sabe a quantas eleições e referendos Hugo Chávez já se submeteu: "É o exercício da democracia", declarou.
"No dia que o povo não quiser mais ele (Hugo Chávez), vai votar noutro e vai ter a mesma Constituição que vai permitir que possa ter mais de um mandato, mais de dois, mais de três mandatos", enfatizou.
Lula da Silva frisou que "não se pode fazer uma comparação entre o Brasil e a Venezuela, a Bolívia e o Brasil, porque cada país tem que viver o seu processo".
"Eu aprendi a respeitar essa diversidade cultural na política, o que importa para mim é que o sistema de disputa seja democrático", disse o Presidente do Brasil, que fez referência a ter visto na televisão "a disputa do referendo (na Venezuela), muita gente fazendo propaganda pelo sim e muita gente fazendo propaganda pelo não, em passeata pelo sim e em passeata pelo não".
O chefe de Estado brasileiro reafirmou ainda que não está interessado em mudar as leis brasileiras para permitir a sua reeleição.
"Eu não quero reeleição, o Brasil tem muito pouco tempo de experiência democrática consolidada, agora obviamente que eu vou trabalhar para o meu sucessor, para ter continuidade no programa que nós estamos fazendo", disse.
Segundo Lula da Silva, "a Venezuela já é rica em petróleo", mas "nenhum país que é rico em petróleo pode ficar só em petróleo, é preciso industrializar, ter uma agriculta forte".
"O que eu estou vendo aqui é um sonho que eu tenho para a Venezuela e para outros países da América Latina. A segurança alimentar é condição básica para a soberania de uma nação. A política industrial é condição básica para o avanço tecnológico de um país e essas coisas o Chávez está fazendo com mestria e em parceria com o Brasil", considerou.
"É justo que o povo seja convocado a dizer se quer ou não quer. A 15 de Fevereiro o povo vai para a rua dizer eu quero (a alteração da Constituição venezuela para permitir a reeleição indeterminada do chefe de Estado e todos os cargos políticos eleitos) ou não e será o que diga o povo", concluiu.
FPG.
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