Lula da Silva pode vencer Bolsonaro se justiça brasileira lhe abrir o caminho

O analista Filipe Vasconcelos Romão considerou hoje que Lula da Silva é "a única personalidade" política que pode vencer Jair Bolsonaro nas presidenciais de 2022, caso a justiça brasileira venha a confirmar a anulação das condenações do antigo presidente.

Lusa /

O Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro anulou na segunda-feira todas as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Justiça Federal no Paraná, relacionadas com as investigações da operação Lava Jato.

A decisão ainda depende do coletivo do mesmo tribunal confirmar, ou não, a decisão do juiz relator dos casos da Lava Jato, Edson Fachin. A fazê-lo, e num contexto político favorável a Lula da Silva, "é difícil" que a justiça brasileira, em cerca de um ano e meio, venha a impedi-lo de concorrer contra o Presidente Jair Bolsonaro, disse em declarações à Lusa o analista do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE.

Por outro lado, o Brasil está "a atravessar uma crise enorme, fruto da pandemia, mas que já se fazia sentir nos governos de Dilma Rousseff, [Michel] Temer e no princípio do Governo de [Jair] Bolsonaro, e sabemos que o contexto económico, quando é negativo, é desfavorável ao poder político", sublinhou Romão.

"Se Lula passar uma perceção de superação de todos estes problemas [com a justiça] e conseguir ir além do discurso repetitivo que marcou os últimos cinco anos da sua ação política - excessivamente radicalizado à esquerda -, julgo, que dentro do PT, Lula é a única personalidade com capacidade para enfrentar Bolsonaro com alguma perspetiva de vitória nas eleições de 2022", considerou.

Mas fora do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, na opinião de Romão, quando se olha para o resto do panorama político, neste momento, e "apesar da popularidade de Bolsonaro ser fraca para alguém que está a pouco mais de meio do primeiro mandato como Presidente, não surge ninguém no panorama político que se faça notar nas sondagens com capacidade de derrotá-lo, seja no centro-direita, seja no centro-esquerda".

Até porque, e este é um dos corolários da decisão do STF, mesmo que não seja confirmada pelo seu coletivo, "o contexto político, manifestamente, já não é favorável à [operação] Lava Jato".

"A Lava Jato foi completamente dinamitada e esta sentença acaba por colocar uma pedra sobre a fonte de popularidade de Sérgio Moro durante uma série de tempo", frisou o investigador do Instituto Universitário de Lisboa.

Assim, e neste contexto, as hipóteses de Sérgio Moro chegar ao Palácio da Alvorada também são hoje "limitadas", disse Romão. "Moro não tem a aura que tinha e as suas decisões são questionadas. É até previsível que venha a ter que enfrentar uma ação no STF relativa à forma como atuou no caso Lula, que pode colocá-lo em maus lençóis. A sua base de apoio assentava no prestígio que granjeou enquanto líder da operação Lava Jato. E tudo isto acabou. A memória é muito curta do ponto de vista político", vincou.

"A operação desencadeada em 2013/2014, que acabou por afetar o Governo de Dilma Rousseff e que limitou durante todo este tempo a ação de uma série de atores políticos no Brasil, esse período, julgo, está fechado. Agora vivemos num momento completamente diferente", afirmou.

Em sua opinião, "os próximos meses" permitirão perceber se Lula - "que parece ser o mais bem posicionado nas sondagens" - "consegue reunir o apoio do `establishment` económico, militar e político que lhe permita construir ou reconstruir uma candidatura presidencial com hipóteses de vencer".

Será, no entanto, "muito difícil" que o ex-presidente venha a superar com sucesso esta tarefa, afirmou o investigador do ISCTE.

Filipe Vasconcelos Romão vê como previsível o cenário de "um Bolsonaro radicalizado à direita e um Lula radicalizado à esquerda, sobretudo porque não há nenhuma personalidade do centro, à direita ou à esquerda, com força" para se impor no panorama político brasileiro com capacidade de vencer as próximas presidenciais.

Não obstante, sublinhou o analista, não "parece que haja contexto para uma chegada facilitada de um Lula radicalizado ao poder".

"Lula saberá que, para derrotar Bolsonaro, terá que ganhar os eleitores moderados. É uma tarefa muito difícil, diria que talvez impossível, mas que será a única que tem para disputar com Bolsonaro a Presidência da República. Um Lula radicalizado terá muita gente contra", afirmou.

Finalmente, Romão admitiu que Luiz Inácio Lula da Silva beneficie da "memória curta" característica da política e consiga "surgir aos olhos do eleitorado como alguém que foi manifestamente prejudicado nos seus direitos políticos".

"Ele tem a carta da vitimização, julgo que sim, mas Lula sabe como chegou ao poder nas eleições anteriores. Quer-me parecer que ele saberá que é muito difícil conseguir uma vitória com um discurso à Hugo Chávez num país como o Brasil", concluiu.

A anulação do STF foi decretada na sequência da decisão de Fachin de declarar a incompetência da Justiça Federal do Paraná nos processos sobre a posse de um apartamento de luxo no Guarujá, estado de São Paulo, e de uma quinta em Atibaia, também em São Paulo, que haviam levado a duas condenações do ex-chefe de Estado brasileiro, em decisões das primeira e segunda instâncias.

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