Lula da Silva, um novo mandato com velhos fantasmas

O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, venceu mais uma batalha eleitoral, mas desta vez o novo mandato de quatro anos começa já assombrado por velhos fantasmas do passado.

Agência LUSA /

O principal deles é o escândalo da compra de um dossier por elementos d a campanha de reeleição do Presidente que seria usado contra os adversários de L ula da Silva, na recta final da primeira volta da campanha eleitoral.

O facto transformou-se na questão central do debate eleitoral da segund a volta e em mais um capítulo da colecção de escândalos de corrupção do primeiro mandato de Lula da Silva, com a diferença de que poderá produzir repercussões j udiciais no segundo mandato.

Não há dúvidas de que os 1,7 milhões de reais (630 mil euros), utilizad os pelos membros do Partido dos Trabalhadores (PT) para a aquisição do dossier, têm origem "criminosa", como admitiu recentemente um dos principais deputados do próprio PT, António Carlos Biscaia.

Pela legislação brasileira, o candidato é responsável pela origem do di nheiro utilizado na sua campanha eleitoral e pode ver o seu mandato anulado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), caso seja detectada alguma ilegalidade.

Lula da Silva, portanto, terá de responder perante o TSE sobre os gasto s utilizados na sua campanha, sobretudo os recursos utilizados para a compra do dossier, supostamente de um saco azul.

Apesar da apreensão dos recursos ter acontecido a 15 de Setembro, até h oje a Polícia Federal brasileira, subordinada ao Presidente, não conseguiu ident ificar a sua origem.

As investigações da polícia e também de uma comissão parlamentar vão pr osseguir, após a segunda volta das presidenciais, prolongando assim o clima de i ncerteza política.

Na recta final da segunda volta das presidenciais, surgiram também susp eitas de que o filho do Presidente, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como "Lu linha", teria utilizado a sua influência junto ao pai para obter vantagens finan ceiras.

Sócio de uma pequena produtora de jogos electrónicos, a Gampecorp, com um capital registado de apenas 100.000 reais (37.000 euros), "Lulinha" vendeu pa rte de suas acções à Telemar, a maior operadora de telefonia fixa do país, por 5 ,2 milhões de reais (1,92 milhões de euros).

Partidos da oposição já solicitaram uma investigação especial sobre o c aso, uma vez que a Telemar é uma empresa concessionária de um serviço público e tem dinheiro público na composição de seu capital.

Até Novembro de 2003 - o pai foi eleito Presidente a 27 de Outubro de 2 002 - "Lulinha" trabalhou como estagiário num zoológico de São Paulo, com um sal ário de 600 reais (222 euros). "As circunstâncias sugerem que o objectivo (da operadora Telemar) mais óbvio seria comprar o acesso que o filho do Presidente tem a altas figuras da Re pública", escreveu uma recente reportagem da revista semanal Veja sobre o episód io. Instado a comentar o caso, Lula da Silva utilizou mais uma vez as suas metáforas futebolísticas ao comparar o sucesso repentino do seu filho com o do d esportista Ronaldinho Gaúcho, um dos mais bem pagos jogadores do Barcelona e da selecção brasileira.

"Não posso impedir que ele (Lulinha) trabalhe. Vale para o meu filho o que vale para os 190 milhões de brasileiros. Se têm alguma dúvida, accionem ele" judicialmente, disse Lula da Silva.

Outro fantasma é o facto de que, no segundo mandato, Lula da Silva não terá ao seu lado os principais ministros, auxiliares de confiança e os maiores l íderes do PT, uma vez que todos foram afastados, após envolvimento com escândalo s de corrupção, ao longo do primeiro mandato.

Nomes como os dos ex-ministros José Dirceu (Casa Civil) e António Paloc ci (Fazenda), então pilares do primeiro mandato, foram afastados por envolviment o em escândalos, o que obrigará Lula da Silva a convocar novos auxiliares para a equipa do segundo mandato.

Um recente relatório da Standard & Poor`s, a maior agência de avaliação de riscos do mundo, avançou que a sucessão de denúncias de corrupção, nos últim os anos, deixará Lula da Silva mais vulnerável no segundo mandato.

"O mercado assume que o Presidente Lula vai chegar mais enfraquecido ao poder, que o deixará mais vulnerável à falta de colaboração da oposição. Acha t ambém que ele terá que criar um suporte maior no Parlamento", disse a directora da S&P, Lisa Schineller.

Analistas políticos, por seu turno, acreditam que a oposição não dará t régua no segundo mandato de Lula da Silva, nomeadamente pelo clima de "guerra" t ravada pelos candidatos, principalmente na campanha da segunda volta.

Líderes do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), principal fo rça de oposição, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, acusaram Lula d a Silva de utilizar técnicas "nazis" na sua campanha eleitoral.

Lula da Silva e chefias do PT repetiram diversas vezes que o adversário Geraldo Alckmin, do PSDB, caso fosse eleito, venderia empresas estatais, como o Banco do Brasil e a Petrobras, e terminaria com o programa Bolsa Família.

"Não se cansam de repetir mentiras, na velha técnica nazi de mente, men te, mente que pega. E pega mesmo, porque (Adolf) Hitler foi eleito. E depois?", disse o ex-Presidente, referindo-se à estratégia atribuída ao ministro da Propag anda nazi Joseph Goebbels.

Geraldo Alckmin, por seu turno, negou que o seu plano de governo inclua a venda de empresas estatais e afirmou que não terminaria, mas ampliaria e aper feiçoaria o programa Bolsa Família. Apontado como responsável pelo triunfo eleitoral de Lula da Silva e res ultado da ampliação de programas sociais já existentes, o Bolsa Família auxilia 11,1 milhões de famílias pobres com uma quantia mensal de até 95 reais (34 euros ).

Bolívar Lamounier, um dos mais conhecidos cientistas políticos brasilei ros, classificou de "terrorismo eleitoral" as tácticas utilizadas pela campanha de Lula da Silva, na segunda volta das presidenciais.

Para o cientista político, Lula da Silva utilizou nesta campanha eleito ral a mesma arma da qual foi vítima no passado, quando os seus adversários dizia m que a eleição do líder operário representaria o caos para a economia brasileir a. Nesta eleição, Lula da Silva afastou-se do estilo "paz e amor" da campa nha de 2002, na qual prometeu o início de um novo capítulo na história política brasileira, que afastaria de vez as antigas e conhecidas práticas de corrupção.

As projecções indicam que Lula da Silva também terá dificuldades em obt er uma maioria parlamentar, tal como decorreu no primeiro mandato.

Há pouco mais de um ano, no auge do "mensalão", um dos maiores escândal os do seu governo, a oposição chegou a ensaiar os primeiros passos para afastar Lula da Silva, comparado então a Fernando Collor de Mello, o Presidente afastado por corrupção em 1992.

Com uma pequena base de apoio parlamentar, Lula da Silva fez então o qu e sabe como poucos ao buscar apoio directo dos movimentos populares e da populaç ão pobre, com o carisma de quem conhece a "alma do povo", como costuma dizer.

O esquema do "mensalão", o pagamento de uma verba do PT aos restantes p artidos em troca de apoio no parlamento, causou a mais grave crise política no B rasil e levou ao afastamento de ministros, deputados, dirigentes de empresas est atais e do PT.

Lula sobreviveu ao "mensalão", veio então a "máfia dos vampiros e dos s anguessugas", referência ao esquema de corrupção em concursos públicos para comp ra de material médico e ambulâncias e, agora, o escândalo do dossier.

Antes de vencer as presidenciais de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva nun ca tinha exercido um cargo executivo na sua vida política, apenas um mandato leg islativo de deputado federal pelo Estado de São Paulo (1986-1990).

Natural de Garanhus, pequena cidade no interior do Estado de Pernambuco , na região Nordeste, a mais pobre do Brasil, Lula da Silva nasceu em 1945, filh o de pai e mãe analfabetos.

Migrou ainda jovem para São Paulo, então o destino de muitos conterrâne os da época, onde se formou como torneiro mecânico, seu único diploma, aos 14 an os, e iniciou a carreira sindical, na década de 60.

No fim da década de 70, liderou as primeiras greves contra o regime mil itar brasileiro (1964-1985). Foi detido e perseguido.

Em 1980, liderou um grupo de sindicalistas e intelectuais na fundação d o PT, tendo sido candidato à presidência do Brasil também nas eleições de 1990, 1994, 1998 e 2002, na qual se sagrou vitorioso.

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