Lusos e crioulos unidos no domingo de Ramos de Chacao

Caracas, 05 Abr (Lusa) - Centenas de portugueses uniram-se hoje a um grande número de venezuelanos em Chacao, a leste de Caracas, na cerimónia de bênção das palmas (ramos de palmeiras) que depois são distribuídas pelos fieis evocando a chegada de Jesus a Jerusalém.

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"Há milhares de anos as pessoas cortavam ramos de árvores e faziam tapetes para que os reis passassem. As palmas abençoadas, quando se colocam na porta de casa, afugentam os maus espíritos e a má sorte", disse Idalina Martins, uma das fiéis que vive intensamente o domingo de Ramos e a chegada da Quaresma.

Idalina Ramos explicou à agência Lusa que as palmas são para guardar depois da cerimónia e têm usos diferentes. Como com o incenso, a mirra e o alecrim, queimar um pouco de uma rama "ajuda a elevar o pensamento e a encontrar soluções para as angústias".

A tradição anual de bênção das palmas tem características particulares na localidade de Chacao. Começa na quinta-feira anterior ao domingo de Ramos com a subida de 600 palmeiros até à montanha de El Ávila (que rodeia Caracas pelo norte), onde passam três dias cortando as palmas e podando o miolo para que voltem a crescer num ano.

De diferentes idades, alguns deles ainda adolescentes, os palmeiros passam três dias na montanha, descendo depois "em procissão" até às portas da Igreja de Chacao onde depositam as palmas que vão ser abençoadas e distribuídas pelos fiéis.

A tradição, segundo os mais velhos, começou em 1776 e passou de família em família. Os venezuelanos sofriam com a peste negra e a febre amarela. O padre de Chacao, José António Mohedano prometeu então nas suas preces procurar as folhas de palmas, abençoá-las e distribuir pelos católicos.

Os males desapareceram e donos e trabalhadores das explorações agrícolas de La Castellana e Altamira ajudaram o padre a cumprir, fazendo nascer uma tradição que hoje em dia atrai milhares de crentes, dando a origem a organismos como a Associação Civil Ecológica Palmeiros de Chacao.

Um fenómeno recente é a dos "palmeritos", crianças e adolescentes que atraídos pela tradição e a quem os mais velhos, depois de negar durante anos, lhes permitiram participar em todas as etapas da tradição.

Segundo os residentes, em cada sector existe pelo menos um "palmerito", que tem também a missão de participar em acções de reflorestação de palmeiras destruídas por incêndios.

A fé destas crianças e adultos é tanta que dizem ser protegidos, na subida à montanha e na descida, pelo espírito de outros palmeiros falecidos, cuja presença só se sente pelos iniciados na tradição .

Há quem diga por isso que "os palmeiros quando morrem não sobem aos céus, sobem a El Ávila".

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