Luta armada em Angola acabou por reconhecimento político dos Ovimbundos
Quase 35 anos de luta armada pelo reconhecimento do estatuto e peso político dos Ovimbundus, a mais numerosa das minorias do mosaico étnico angolano, soçobraram com a morte, faz quinta-feira cinco anos, do seu principal intérprete, Jonas Savimbi.
Líder histórico da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Jonas Savimbi estava há cerca de cinco anos confinado a uma pequena parcela de Angola, território de que, ao longo da luta armada que encetou em meados da década de 60, chegou a dominar mais de dois terços.
Para Jaime Nogueira Pinto, professor universitário, "Savimbi procurou, numa conjuntura de Guerra Fria, e partindo da sua `nação ovimbundu` reclamar para ele um estatuto de peso e dignidade. Não conseguiu. Em última análise, a sua morte encerrou o conflito".
Personagem que faz parte da história de Angola, "goste-se ou não", como sintetiza o dirigente socialista João Soares, a morte de Savimbi contribuiu decisivamente para o final da guerra civil angolana.
"Não há dúvida nenhuma de que a sua morte teve como resultado imediato o fim da guerra. Na minha opinião, ele travou uma guerra alimentada pela sua ambição de poder. Não havia motivos políticos, senão, os seus seguidores teriam prosseguido o conflito", defende o jornalista João Paulo Guerra, autor da biografia "Savimbi, Vida e Morte", publicada menos de um mês após a morte do líder da UNITA.
"Chegou a dominar dois terços do território de Angola, e acabou a comandar uma fuga trágica para a morte", acentua João Paulo Guerra.
Controverso, pelas características que imprimiu à liderança da UNITA, à condução da luta armada e às alianças que conjunturalmente adoptou, Jonas Savimbi, tem contudo lugar reservado na galeria dos nacionalistas do continente africano.
Se João Soares o considera como "o último dos grandes combatentes da liberdade em África", um líder que "nunca cedeu e que nunca quis fazer parte do cenário autocrático que vigorava e ainda vigora em Angola, rejeitando sempre os exílios dourados que lhe ofereceram", João Paulo Guerra faz uma leitura diferente.
"Esteve sempre associado às piores causas de Angola. Foi um instrumento do apartheid sul-africano, que o financiou e armou", critica.
"Não querendo ser o segundo da hierarquia do poder, convencido que já não tinha hipótese de recomeçar do zero, Savimbi inicia, nos finais de 2001, a sua última etapa e viagem. Caminha para a morte. Ele não quer ser preso, nem julgado, nem humilhado. Prefere morrer. Deixa-se morrer", explica Jaime Nogueira Pinto.
Teimoso e obcecado em impor a Angola um destino que ia contra a evolução geo-estratégica de África, face à nova relação entre Washington e Moscovo sobre a resolução dos conflitos regionais, Savimbi sempre teve dificuldade em acompanhar a realidade angolana que era feita a partir do exterior.
Jaime Nogueira Pinto recorda, a este respeito, uma história que testemunhou em 1991, nas vésperas da assinatura do Acordo de Bicesse, que conduziria à realização das primeiras e únicas eleições multipartidárias em Angola.
"Conheci Walter Kansteiner, que foi secretário de Estado Adjunto norte-americano para os Assuntos Africanos, pouco antes da assinatura dos acordos de Bicesse, nas áreas controladas pela UNITA", recorda.
"Nessa ocasião Walter Kansteiner, então `desk officer` África do Conselho Nacional de Segurança norte- americano, era portador de uma mensagem de James Baker (secretário de Estado) para Jonas Savimbi, para que se preparasse para assinar Bicesse, pois os Estados Unidos estavam a acabar com a União Soviética, com os conflitos periféricos da Guerra Fria", prosseguiu.
"Kansteiner estava um pouco embaraçado, por transmitir essa mensagem, pensando numa má reacção de Savimbi. Mas não houve problema. Savimbi não acreditou", disse.