"Lutar pela liberdade". Cidadãos de todo o mundo tentam juntar-se à luta na Ucrânia

Desde o início do conflito na Ucrânia, milhares de cidadãos de vários países têm-se voluntariado para se juntarem aos ucranianos na luta contra o inimigo russo. Ao lado de veteranos de guerra, ex-soldados e profissionais de saúde, chegam também à Ucrânia voluntários com pouca ou nenhuma experiência de combate.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Kacper Pempel - Reuters

Três dias depois do início da ofensiva russa, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, lançou um apelo aos cidadãos de países estrangeiros para se juntarem à luta contra a agressão russa, integrando uma espécie de “legião estrangeira”.

Desde então, as embaixadas ucranianas de vários países transformaram-se em centros de recrutamento para cidadãos que querem juntar-se à luta na Ucrânia contra a Rússia, mesmo apesar do desincentivo por partes dos governos.

Milhares de norte-americanos deslocaram-se à embaixada da Ucrânia em Washington para se voluntariarem. "Eles realmente sentem que esta guerra é injusta, não provocada", disse o adido militar da Ucrânia, o major-general Borys Kremenetskyi, à agência Associated Press (AP). “Eles sentem que precisam de ir e ajudar”, acrescentou.

Desde o início da invasão, a 24 de fevereiro, a embaixada ucraniana em Washington já recebeu pelo menos seis mil pedidos, a maioria de cidadãos norte-americanos. “Não são mercenários que vêm para ganhar dinheiro. São pessoas de boa vontade que vêm para ajudar a Ucrânia a lutar pela liberdade”, afirmou Kremenetskyi.

No entanto, a grande maioria dos voluntários viu o seu pedido rejeitado por não terem a experiência militar necessária, por apresentarem antecedentes criminais ou por não se enquadrarem nos limites de idade.

Foi o caso de Jamal Alkhadi, ator de 31 anos, que foi impedido de se candidatar por não ter experiência militar. “Quero lutar pela liberdade. Estou parado a assistir e isso não está correto”, afirmou. “Eu quero ajudar”, insistiu, em declarações ao Washington Post.

Segundo revelou Kremenetskyi à AP, apenas cerca de 100 norte-americanos viram o seu pedido aceite. O número inclui veteranos das guerras no Iraque e no Afeganistão, incluindo alguns pilotos de helicóptero.
Questões logísticas adiam chegada de voluntários à Ucrânia
Na semana passada, Zelensky anunciou que mais de 16 mil estrangeiros se apresentaram como voluntários, sem especificar quantos chegaram realmente à Ucrânia. Problemas logísticos têm obrigado alguns voluntários a adiar a sua chegada, como explica Anthony Capone, empresário norte-americano na área da saúde, à agência Reuters.

Capone está a prestar ajuda monetária a centenas de ex-soldados e paramédicos que querem ir para a Ucrânia, mas explicou que adiou a partida destes voluntários “para dar ao exército ucraniano mais uma semana para melhorar o processo de alistamento para aqueles que entram para o corpo de voluntários”.

Capone fez uma publicação no LinkdIn sobre a sua oferta, a achar que dez ou 15 pessoas iriam responder. "Neste momento, já recebi cerca de 1.000", disse o empresário à agência Reuters, explicando que está a prestar ajuda monetária apenas a ex-soldados cujas credenciais militares ele consiga verificar e a paramédicos que trabalham atualmente em centros de trauma. Cerca de 60 por cento dos que entraram em contacto com Capone eram norte-americanos e 30 por cento europeus. Os restantes eram naturais de países como a Colômbia, Japão e Jamaica.

A maioria dos voluntários são ex-soldados e os restantes são médicos de emergência ou enfermeiros de cuidados intensivos. Todos estão dispostos a "defender um país que nunca visitaram", disse Capone.
“Apanha-balas”
A Ucrânia – com um poder militar muito inferior ao da Rússia – poderá estar a contornar algumas das questões legais de forma a facilitar o recrutamento de combatentes, orientando os voluntários a assinarem os seus contratos e a receberem uma arma assim que cheguem ao país.

Desta forma, ao lado de veteranos de guerra, ex-soldados e profissionais de saúde, chegam também à Ucrânia voluntários de vários países com pouca ou nenhuma experiência de combate, cuja capacidade de resposta e de ajuda é limitada numa zona de guerra sob constante bombardeamento por parte das forças russas. À agência Reuters, um veterano militar britânico referiu-se a estes recrutas como "apanha-balas".

Um ex-soldado britânico explica que mesmo aqueles com experiência de combate podem ter dificuldades nas várias zonas de guerra da Ucrânia. “Se vêm para aqui como turistas de guerra, este não é o lugar certo para vocês", alertou. "As realidades da guerra, se forem para a linha da frente, serão bastante avassaladoras”, acrescentou o ex-soldado.

Muitos cidadãos voluntariam-se para a guerra mesmo contra a vontade dos governos. O executivo norte-americano, por exemplo, já deixou clara a sua desaprovação. “Temos sido muito claros há algum tempo, ao pedir aos norte-americanos na Ucrânia que saiam do país, e ao apelar aos norte-americanos que estejam a pensar viajar para lá para não o fazerem”, disse o secretário de Estado Antony Blinken aos jornalistas recentemente.

Para além das questões legais, que podem levar os voluntários a enfrentarem penalizações ou mesmo a perderem a cidadania por participaram num conflito no estrangeiro, as autoridades norte-americanas alertam para os perigos para a segurança nacional.

Os especialistas em segurança explicam que alguns dos potenciais combatentes estrangeiros podem ser supremacistas brancos, que se podem tornar ainda mais radicalizados e obter treino militar na Ucrânia, representando assim um perigo maior quando regressarem a casa.

c/agências
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