Macron ameaça reforçar sanções contra não vacinados em França

O presidente francês garantiu que está determinado em "chatear" os não vacinados contra a covid-19 "até ao fim" limitando-lhes, tanto quanto possível, o acesso a atividades sociais. Sem poder prender ou vacinar à força, Emmanuel Macron referiu que a partir de 15 de janeiro esta faixa da população deixará de poder ir a restaurantes, cafés, teatros ou cinemas. As declarações do chefe de Estado estão a gerar críticas entre os partidos, com o candidato à presidência Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, a classificá-las como "terríveis".

RTP /
Macron ameaça reforçar sanções contra não vacinados em França Nicolas Tucat /Pool via REUTERS

Em entrevista ao jornal Le Parisien, o chefe de Estado de França salientou ainda que pretende ser candidato à reeleição dentro de três meses, apesar de não estar “esclarecido sobre o assunto” devido à situação pandémica vivida no país, que foi novamente o principal foco das suas declarações.

“Não pretendo irritar o povo francês”, começou por dizer, referindo-se as restrições dos não-vacinados.

“Quero realmente irritar os não vacinados. E assim vamos continuar a fazê-lo até ao fim. É essa a estratégia”, frisou Macron, numa altura em que as medidas do governo contra a covid-19 deram origem a um debate acesso na Assembleia Nacional.

O Governo anunciou recentemente a transformação do passe sanitário em passe vacinal, limitando assim a vida das pessoas não vacinadas contra a covid-19. E, no próximo verão, será necessário para aceder a qualquer espaço público fechado do país e para viajar de comboio ou avião.
Pequena maioria de não vacinados com liberdades limitadas

Em resposta a uma pergunta de um leitor do jornal, que sublinhou que os não vacinados “representam 85 por cento dos internamentos” o que leva ao adiamento de cirurgias, Emmanuel Macron salientou que aquela observação “é o melhor argumento” para a estratégia do Governo.

“Numa democracia, o pior inimigo são as mentiras e a estupidez. Quase todas as pessoas, mais de 90 por cento, aderiram à vacinação e é uma minoria muito pequena que é resistente”, acrescentou.

“Como podemos reduzir essa minoria? Nós reduzimos - desculpe a expressão - irritando-os ainda mais”.

Ainda sobre a estratégia contra os não vacinados, Macron referiu que, sem os poder prender ou vacinar à força, a partir de 15 de janeiro estes deixarão de poder ir a restaurantes, cafés, teatros ou cinemas.

“Quando as minhas liberdades ameaçam as dos outros, torno-me irresponsável. Alguém irresponsável não é um cidadão”, acrescentou.
Oposição critica declarações de Macron
A entrevista a Emmanuel Macron ocorreu numa altura em que o Parlamento francês debate uma possível legislação que, se for aprovada, permite apenas aos vacinados ter um passe vacinal e deixa de ser permitido entrar na maioria dos espaços públicos apenas com teste negativo. Para os opositores políticos do chefe de Estado, estas declarações ao jornal parisiense são “terríveis”.

"A OMS fala em convencer em vez de coagir e ele?", questionou, em tom de crítica, o candidato à presidência Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical através do Twitter.

“É óbvio que a aprovação da vacina é uma punição coletiva contra as liberdades individuais”, acrescentou noutra publicação.



Já a candidata presidencial Marine Le Pen, do partido de extrema-direita União Nacional, salientou que "um presidente não deve falar assim".

"O garante da unidade da nação persiste em dividi-la e assume querer fazer dos não vacinados cidadãos de segunda. Emmanuel Macron é indigno da sua função"
, apontou.

Para Bruno Retailleau, representante dos republicanos de direita, “nenhuma emergência de saúde justifica tais palavras”.

“Emmanuel Macron diz que aprendeu a amar os franceses, mas parece que gosta especialmente de desprezá-los”
, disse ainda.

A candidata presidencial republicana, Valérie Pécresse, expressou estar "indignada com as palavras do Presidente da República" , em entrevista ao CNews na manhã desta quarta-feira.

“Ele também disse que os não vacinados não eram cidadãos. No entanto, não cabe ao Presidente da República separar os bons e os maus franceses. Tem que aceitá-los como são, liderá-los, juntá-los, sem insultá-los”, disse, acrescentando que Macron mostrou "uma terrível falta de empatia nesta entrevista para todos aqueles que não podem ser vacinados" .

“Há alguns que recusam por convicção pessoal e há outros que não o podem fazer. Eles também serão privados das suas liberdades. Não precisamos de dividir a França, para dividir os franceses. Este país deve ser reparado”.

A cerca de três meses das presidenciais francesas, o atual presidente abordou com cautela a sua recandidatura: “Quero. Assim que existirem condições sanitárias que permitam que esclareça o assunto e este esteja esclarecido para mim mesmo, direi como será”, garantiu.


C/agências
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