Maiores protestos da Síria nos últimos meses
Centenas de milhares de pessoas responderam ao desafio da oposição síria e invadiram as ruas de várias cidades. Foram as maiores manifestações dos últimos meses no país. Enormes multidões quiseram demonstrar aos observadores da Liga Árabe a extensão da revolta no país, contra o regime do Presidente Bashar al-Assad. As forças de segurança responderam a tiro, na presença dos monitores, afirmam alguns ativistas. Haverá 10 a 20 mortos e ainda 20 feridos devido a bombas de pregos.
Segundo o Observatório sírio para os Direitos Humanos, baseado no Reino Unido, as bombas de pregos foram detonadas quando uma multidão, estimada em 70 mil pessoas, se aproximava da prefeitura de Douma, um subúrbio de Damasco onde teve início a revolta e onde se encontrariam alguns dos observadores árabes.
Atiradores estavam também colocados aparentemente em pontos-chave ao longo das ruas e nos telhados, para disparar balas verdadeiras sobre a multidão. As forças de segurança terão usado ainda gás lacrimogénio.
“Revolução Síria!”
O Observatório contou cinco mortos em Deraa, no sul e na cidade de Hama. Um outro grupo ativista fala em 32 mortos em todo o país ao longo de sexta-feira, com nove vítimas em Hama, seis em Deraa, seis em Idlib e quatro em Tal Kalakh, perto da fronteira com o Líbano.
As maiores manifestações registaram-se na província de Idlib, no norte do país, onde cerca de 250 mil pessoas gritaram contra Assad.
Em Homs, um dos bastiões da revolta, imagens registadas pela televisão Al Jazeera mostraram as multidões a gritar “Revolução, revolução Síria! Revolução de glória e liberdade Síria!”
“Esta sexta-feira é diferente de todas as outras sextas-feiras. É um passo de transformação. As pessoas estão ansiosas de chegar aos monitores e falar-lhes dos seus sofrimentos”, disse um ativista em Hama, citado pela BBC.
Segundo a ONU já morreram mais de cinco mil civis desde o início da revolta na Síria, em março de 2011.
Manifestações pró-Assad
Já a televisão estatal síria mostrou imagens de manifestações de apoio ao Presidente Bashar al-Assad.
As manifestações realizaram-se alegadamente esta sexta-feira também em várias cidades, nomeadamente Damasco, Homs, Raqqa, Hasaka e Latakia, numa aparente tentativa do regime para mostrar à missão árabe que mantém vasto apoio público.
O governo sírio atribui a violência e os protestos à ação de grupos armados e de bandidos. Afirma ainda que já morreram nos confrontos mais de 2 mil elementos das forças de segurança.
Exército rebelde suspende ataques
O exército rebelde anunciou entretanto ter suspendido os seus ataques enquanto durar a missão dos observadores.
“Parámos para mostrar respeito aos irmãos árabes e para provar que não há grupos armados na Síria e para que os observadores possam ir onde queiram”, explicou à Agência Associated Press o coronel Riad al-Assad, comandante das tropas rebeldes.
Estas estão calculadas em 15 mil homens muitos deles desertores do exército regular sírio. Reservaram-se o direito à autodefesa.
“Agora só nos defendemos. Esse é o nosso direito e de todo o ser-humano”, acrescentou Riad al-Assad, acrescentando que o seu grupo irá recomeçar os ataques quando a missão dos observadores se for embora.
O coronel lamentou igualmente não ter tido acesso aos contactos telefónicos dos monitores, nem se ter ainda reunido com eles. Nenhum dos pedidos obteve resposta.
Rússia “tranquilizada”
A missão dos observadores árabes deverá durar até ao fim de janeiro e apesar do ceticismo dos ativistas sírios quanto à capacidade da missão de observadores árabes em avaliar a repressão dos direitos humanos, a sua visita renovou os esforços dos rebeldes e os protestos aumentaram.
A Liga Árabe exige ao regime de Damasco que suspenda a repressão armada das manifestações contra Assad. Mas segundo o Comité de Coordenação Local, um grupo que documenta a revolta, já morreram 130 pessoas na repressão dos protestos desde o início da missão dos observadores, esta terça-feira. Entre as vítimas estão seis crianças.
Em geral as forças de segurança têm disparado longe da vista dos observadores árabes, acrescentam os ativistas, mas já houve ocasiões em que os monitores estavam próximos dos confrontos. As autoridades sírias parecem também ficar nervosas com os protestos sentados realizados nalgumas cidades, segundo o modelo seguido na Praça Tahrir, no Cairo.
A Rússia, um dos aliados de Damasco, disse ter ficado “tranquilizada” com o primeiro relatório dos observadores, após a visita à cidade de Homs. “A situação ali é tranquilizadora, não se registaram confrontos”, afirmou o ministério russo dos Negócios Estrangeiros, numa declaração.
Também os Estados Unidos apelam a que a missão árabe conclua sem problemas a sua missão.